quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Crítica de filme: The Princess and the Frog (A Princesa e o Sapo)

A Princesa e o Sapo marca a volta da Disney do desenho feito à mão, 2D. Há muito - acho que desde Nem Que a Vaca Tussa - a Disney só vem fazendo filmes em 3D como Bolt deixando para trás uma tradição de décadas.

O desenho traz algumas novidades interessantes. É o primeiro desenho da Disney com uma protagonista negra. É o primeiro desenho 2D da Disney sob a supervisão do gênio da Pixar John Lasseter. Uma nova princesa das "princesas Disney" é apresentada. É a volta do desenho animado musical que tanto consagrou a Disney.

Somente pelos elementos acima o desenho animado já valeria à pena. As músicas, apesar de não serem marcantes como os clássicos Disney, são alegres e no estilo jazz já que o filme se passa em Nova Orleans. A qualidade do desenho é magnifíca e, a animação 2D, perfeita.

O desenho conta a estória de Tiana, uma garçonete que tem um sonho: ser dona de um restaurante, exatamente como o pai falecido dela sonhava. Para isso, ela trabalha quase 24 horas por dia e economiza cada centavo. Um belo dia, um príncipe falido (Príncipe Naveen) e que adora jazz chega na cidade para um encontro arranjado com a melhor amiga de Tiana, Charlotte, uma milionária local. Obviamente que tudo dá errado e o príncipe se envolve com o Dr. Facilier, um mago do vodu que quer arrancar o dinheiro da família de Charlote. Aventura vai, aventura vem, o príncipe é transformado em um sapo e, quando Tiana o beija, achando que ele se transformaria em príncipe, ela acaba virando um sapo. Assim, os dois sapos saem em uma grande aventura para reverter o feitiço, encontrando no meio do caminho o vagalume caipira Ray (um cajun, típico daquela região) e o crocodilo Louis, que adora Jazz e sonha em tocar junto com os humanos.

Os personagens são bacanas, divertidos e alegres. Obviamente, são um tanto clichê, comuns em desenhos como esse. Mesmo assim, o desenho é bacana e oferece novidades interessante, especialmente a morte de verdade de um dos personagens principais (algo muito raro em desenhos Disney) e um grande enfoque em feitiçaria, o que deve ter irritado muito os religiosos fervorosos de plantão.

Mas o personagem mais bacana do desenho é o Dr. Facilier. O diferente é que a sombra dele atua como um personagem com personalidade própria. Além disso, por todo o desenho, a manipulação das sombras pelo Dr. Facilier, conjurando demônios e tudo mais, é muito bem feita. Repare só como as sombras só pegam as sombras dos heróis e não os próprios heróis. Isso me fez lembrar um pouco de Peter Pan.

A Princesa e o Sapo está longe de ser uma obra prima Disney, do naipe de A Bela e a Fera e o Rei Leão. No entanto, também está longe dos fraquíssimos últimos desenhos 2D que a Disney apresentou, como o já citado Nem que a Vaca Tussa e mesmo os péssimos 3D O Galinho Chicken Little e Uma Família do Futuro.

Espero mesmo que a Disney volte com força total aos desenhos feito à mão pois a mágica é diferente quando nos afastamos dos Pixels e voltamos ao lápis.

Por último, vale uma especial atenção à versão dublada brasileira. Vozes ótimas, canções muito bem traduzidas e talvez o melhor trabalho de dublagem como um todo da já tradicionalmente excelente equipe brasileira da Disney.

Nota: 7,5 de 10

Club du Film - 4.33 - Trilogie de Trois Couleurs (A Trilogia das Cores)

O último post do Club du Film do ano será sobre os três filmes que formam a Trilogia das Cores do diretor polonês Krzysztof Kieslowski. Ele é um dos favoritos dos membros do Club pois, no primeiro livro de Roger Ebert, assistimos a Decálogo, formado por 10 filmes de mais ou menos uma hora cada, representando os 10 mandamentos. Em Decálogo, Kieslowski nos apresenta aos temas de forma obscura na maioria das vezes, tentando fugir ao óbvio. Em determinados filmes fica até impossível entender exatamente que mandamento ele está abordando. No entanto, Decálogo deixa uma coisa evidente: Kieslowski foi um grande diretor e as expectativas para a Trilogia das Cores era, portanto, grande. Fizemos três sessões, uma para cada filme e, da mesma maneira, comentarei, separadamente, cada um dos filmes:


- Trois Couleurs: Bleu (A Liberdade é Azul) - filme de 1993, assistido em 10.12.09:

Bleu estrela Juliette Binoche no papel de Julie, uma compositora que, em um acidente de carro, perde a filha e o marido (também compositor). O filme é pesado e trata de como Julie aprende a viver com a imensa dor da perda. Primeiro ela tenta ver se o sexo resolve mas logo percebe que não. Em seguida, resolve assumir sua identidade de solteira, vender tudo que tem e se mudar para Paris, vivendo a vida da forma mais anônima possível. No entanto, claro, Julie não consegue se afastar completamente do mundo e os acontecimentos ao seu redor.

Kieslowski se esmera em nos apresentar uma atmosfera triste, regada pela cor azul. A luta de Julie para se reerguer depois da tragédia é pontilhada por música. Ela é compositora, seu marido também era e ele estava compondo uma sinfonia para comemorar a União Européia quando faleceu. A música ficou inacabada. Repórteres desconfiam que Julie é uma espécie de ghost writer para o marido. Aliás, os fantasmas do passado é que não faltam à Julie, inclusive uma breve investigação que a leva a descobrir que seu adorado marido não era lá tão santo assim. O que fazer diante disso? Será que a imagem de alguém amado pode ser manchada por um passado condenável? Há espaço para o perdão na cabeça de Julie ou o sentimento de perda de sua família é grande demais. O tema "liberdade" é tratado aqui não da forma óbvia política mas sim na forma de liberdade de se escolher a vida que se quer viver, a liberdade que se pode sentir após escapar da tristeza pela perda.

Nesse filme, Kieslowski faz um sensacional uso da música e do fade out. Em determinados momentos, todos eles envolvendo Julie, a música cresce e a tela fica preta. Em circunstâncias normais, com diretores normais, a cena seguinte seria completamente diferente. Com Kieslowski voltamos exatamente para onde estávamos e o diálogo continua. Considero esse um dos melhores usos trilha sonora que já vi. Fica claro que a música está na cabeça de Julie, que o passado ainda a assombra e que, na verdade, fugir não é a solução.

Aliás, Juliette Binoche está excelente no papel. Ela consegue passar a imagem da esposa sofredoras sem ser piegas, sem chorar, sem demonstrar isso de maneira óbvia. Binoche, como é comum para ela, se mantém com um rosto duro mas em que é possível vermos a melancolia, a tristeza, o passado.

Bleu é um grande começo para a Trilogia das Cores de Kieslowski.

Notas:

Minha: 8 de 10
Barada: 8,5 de 10
Nikto: 8 de 10
Gort (convidado especial): 7,5


- Trois Couleurs: Blanc (A Igualdade é Branca) - filme de 1994, assistido em 22.12.09 (o último filme do quarto ano do Club du Film, pois acabamos, com ele, com 34 filmes, ou seja, exatamente um terço do total de 102 filmes contidos no livro The Great Movies II de Roger Ebert):

Blanc é, para mim, o filme mais fraco da trilogia. Mas isso não quer dizer que o filme é ruim. Apenas que está um pouco abaixo dos demais.

Blanc conta a estória de Karol Karol (Zbigniew Zamachowski), um polonês que há menos de seis meses se casou com a bela francesa Dominique (Julie Delpy). Acontece que Dominique não quer mais nada com Karol pois ele não consegue mais satisfazê-la sexualmente. Um divórcio violento se segue e Karol (um cabeleireiro de profissão) é literalmente jogado na sarjeta de Paris, sem um tostão no bolso, pois Dominique literalmente o destrói. Pedindo esmola no metrô, ele acaba esbarrando com o conterrâneo Mikolaj (Janusz Gajos) que o acaba levando de volta para a Polônia. Lá, Karol começa a planejar sua vingança sobre Dominique.

Vale um parênteses aqui. Karol Karol volta para a polônia de avião dentro de uma mala (!!!). A cena em que  Mikolaj o está esperando na esteira de malas no aeroporto é hilária pois, claro, a mala não chega. Ela havia sido roubada pelo próprio pessoal que a transporta, para fins de saque. Mesmo depois de apanhar dos ladrões, Karol agradece olhando para cima por ter chegado de volta em casa.

Karol começa a crescer na vida, investindo em imóveis e, depois, em uma empresa de importação. Com um plano intrincado e criado completamente de improviso, Karol consegue atrair sua ex-mulher para a Polônia. O resto eu não conto pois estraga o filme.

Apesar do tema vingança (a "igualdade", aqui, seria a igualdade de tratamento entre marido e mulher, ou seja, se ela o tratou mal, ele deve tratá-la mal) o filme é uma espécie de comédia de humor negro, uma versão menos exagerada e mais bem feita de A Guerra dos Roses (com Michael Douglas). Os dois têm como objetivo se destruir mutuamente mas Kieslowski nos apresenta ao tema com cenas como essa da mala que contei acima. É a tragédia humana vista pelos olhos desse grande diretor.

Mas o filme se arrasta um pouco e se torna um pouco inverossímil ao final, retirando um pouco o caráter de "realidade nua e crua" que o diretor trouxe em Bleu. Talvez tenha sido esse o objetivo de Kieslowski - provavelmente foi mesmo - mas o fato é que achei que ele destoou um pouco dos outros dois.

Notas:

Minha: 7,5 de 10
Klaatu: 7 de 10
Barada: 7,5 de 10
Nikto: 7,5 de 10
Gort (convidado especial): 8 de 10


- Trois Couleurs: Rouge (A Fraternidade é Vermelha) - filme de 1994, assistido em 29.12.09 (o primeiro filme do quinto ano do Club du Film, inaugurando o segundo terço da lista de filmes de Roger Ebert em The Great Movies II):

Rouge é o mais interessante e o melhor da Trilogia das cores.

Dessa vez, Kieslowski nos leva para a Suíça onde nos é apresentada Valentine, uma bailarina e modelo vivida pela bela Irène Jacob. Por desatenção, ela atropela uma cadela e, ao procurar o dono (apenas chamado de O Juiz, vivido por Jean-Louis Trintignant) descobre que ele vive a vida espionando, apenas por prazer, sua vizinhança. Ela sente ao mesmo tempo repulsa e atração por aquele senhor que, no começo, a trata tão mal. Com o tempo, porém, a atração de Valentine se sobrepões à repulsa e ela passa a tentar entender o Juiz. Há uma tensão sexual entre os dois por todo o filme mas Kieslowski nunca chega a finalizar a questão, tornando o filme ainda mais interessante. Dizem que é aí que o tema "fraternidade" entra mas eu sinceramente tenho dificuldade para aceitar isso.

Mas o que torna o filme realmente sensacional é maneira como Kieslowski trata do passado e do presente por todo o filme. Sem querer entregar o final, pois há um espécie de revelação, Kieslowski conseguiu costurar muito bem a estória de Valentine e do Juiz e uma outra paralela entre um jovem juiz e sua namorada, essa vizinha do Juiz mais velho. Kieslowski entrelaça a vida dos quatro sem que eles nem mesmo se encontrem pessoalmente e, muito naturalmente, lá pelo fim, deixa claro ao espectador o que ele queria dizer mostrando esses dois casais.

O tema, aqui, é muito mais a culpa por atos passados (do Juiz) e presentes (de outros personagens) do que exatamente fraternidade. Mas a fraternidade está lá, até mais explicitamente colocada pela compaixão que Valentine sente primeiro pela cadela (que estava grávida) e, depois, pelo seu dono. Acontece que essa compaixão - e talvez aí eu esteja vendo coisas demais - se torna uma espécie de conexão, de uma relacionamento que poderia ser ou que poderia ter sido. Valentine em muitos momentos é focalizada de forma a mostrá-la como idolatrando o Juiz, às vezes em plano mais baixo que ele, outras vezes somente com o olhar.

As cores em Rouge também têm um papel predominante, assim como em Bleu. O vermelho está em todas, literalmente todas as cenas mas, nem por isso, esse uso me pareceu forçado. Kieslowski conseguiu, com muita naturalidade, trazer peças de vermelho vivo exatamente - eu acho - para demonstrar essa tensão sexual entre os dois protagonistas.

Notas:

Minha: 8,5 de 10
Klaatu: 8 de 10
Barada: 8 de 10
Nikto: 8,5 de 10
Gort (convidado especial): 8,5

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Club du Film - 4.32 - A Christmas Story (Uma História de Natal)

O 32º filme do ano IV do Club du Film foi A Christmas Story (Uma História de Natal), assistido em 15.12.09. Trata-se de um filme de Natal (obviamente) de 1983, que é um clássico na cultura dos Estados Unidos. Ele foi dirigido por Bob Clark e estrela o então garoto Peter Billingsley, no papel de Ralphie Parker, um adorável garoto de nove anos.

É impossível um filme mais americano que esse. Nem mesmo filmes patrióticos de guerra conseguem se aproximar dos valores muito queridos ao povo dos Estados Unidos se comparados com A Christmas Story. Passado na década de 40, o filme conta a estória de um Natal na vida de Ralphie que quer porque quer ganhar do Papai Noel uma "official Red Ryder carbine-action 200-shot range model BB rifle with a compass in the stock", ou seja, uma espingarda de chumbinho. Logo de cara já dá para ver que o filme não é do tipo politicamente correto que irritantemente tentam nos empurrar hoje em dia. Afinal de contas, uma criança de nove com uma espingarda de chumbinho é um absurdo inenarrável, não?

Pois bem, esse é um filme de Natal 100% honesto, ou seja, sem nenhum caráter religioso. É o Natal como 95% das crianças do mundo o encara: a melhor época para se ganhar presentes. Ralphie faz de tudo para convencer os pais, a professora e até o Papai Noel (de uma loja!) que ele definitivamente precisa de uma espingarda. Basicamente, a vida dele depende disso. Mas, para seu horror, todos, sem exceção, dizem que ele vai acabar arrancando se ganhar a espingarda.

Ao redor dessa estória bem objetiva, vemos Ralphie enfrentar os valentões de sua escola, participar de uma aposta em que um coitado de um garoto acaba sendo convencido a encostar a língua em um poste congelado, levar o irmão mais novo todo encasacado para a escola, fazer a melhor redação do mundo (sobre a espingarda, claro), ficar na fila para sentar no colo do Papai Noel (no bom sentido, claro!) e tudo mais que uma criança de nove anos, durante o Natal, em uma cidade do estado de Illinois, ou seja, bem abaixo de zero, faria. E Peter Billingsley é, literalmente, talhado para esse papel.

Devo confessar, porém, que, vendo o rostinho angelical do garoto da capa, fiquei receoso que o filme seria chato e arrastado. Ainda bem que me enganei e acabei me divertindo bastante com o filme e entendendo definitivamente por que ele é uma espécie de uma tradição nos natais americanos.

É claro, também que, como todo o filme que preza os "valores" norte-americanos, não poderia faltar uma ode à família. Os pais de Ralphie (Melinda Dillon e Darren McGavin) se amam, se provocam e, sobretudo, amam os filhos. São uma família perfeita.

O filme é, basicamente, um retrato utópico de como todos nós gostaríamos de ser e um verdadeiro escape à realidade que nos cerca. Divertido, muito bem dirigido mas, em última análise, não merece essa idolatria toda dos americanos.

Sobre o Club du Film:


Há quase quatro anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como "Club du Film". Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São mais 102 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo.

Notas:

Minha: 7 de 10
Barada: 7 de 10

Crítica de filme (em home video): Watchmen: The Ultimate Cut

Fiz meus extensos comentários sobre um dos grandes - e certamente o mais polêmico - lançamentos de 2009, o filme Watchmen, adaptação dos magníficos quadrinhos de mesmo nome escritos por Alan Moore e desenhados por Dave Gibbons. Meus comentários, com a nota que dei, podem ser vistos aqui e aqui. Também vi e fiz meus comentários sobre o desenho Tales of the Black Freighter que é uma estória de piratas paralela mas que é parte integrante dos quadrinhos. Zack Snyder, o diretor, resolveu, por questões de tamanho do filme e de enredo, deixar o desenho de fora da versão cinematográfica mas produziu-o e dirigiu-o, lançando-o separadamente em DVD e Blu-Ray.

Assim, como gostei de Watchmen e de Tales of the Black Freighter, tratei de comprar o Blu-Ray contendo o chamado "Ultimate Cut" do filme em que uma versão do diretor do filme, com cenas não lançadas no cinema, foi fundida com o desenho animado, tornando a obra final a mais próxima possível dos quadrinhos.

De fato, a versão do diretor de Watchmen, junto com o desenho animado, quase que reproduz integralmente os quadrinhos mas como costuma acontecer com versões estendidas, o resultado final é estranho e desnecessário. Filmes em que cenas que ficaram na sala de edição são re-enxertadas são muitos pois está em voga há algum tempo o lançamento de várias versões de um mesmo filme para tirar o máximo de dinheiro dos consumidores leais.

Os resultados são, no mínimo, misturados. Aliens é um filme excelente e, por incrível que pareça, tem cenas inseridas na versão do diretor que consegue melhorar ainda mais o filme. O mesmo acontece com a sutil e polêmica cena do unicórnio de papel colocada na versão do diretor de Blade Runner. Outro filme que se beneficiou bastante da inserção de novas cenas foi O Segredo do Abismo. Kingdom of Heaven, versão do diretor, é outro filme (e muito melhor) se comparado com Kingdom of Heaven, versão do cinema. Mas talvez o ápice dessas versões especiais seja mesmo a trilogia estendida de O Senhor dos Anéis. Tudo o que foi colocado (bem, quase tudo) é relevante à estória.

Listados os casos de sucesso, vale trazer os fracassos, só para marcar minha afirmação inicial de que os resultados são misturados: a trilogia clássica de Star Wars ficou uma porcaria (ok, estou exagerando) com as cenas re-inseridas e alteradas (Han definitivamente atira primeiro e NÃO conversa com um Jabba ridículo antes de fugir de Tatooine!); Alien não se beneficiou em nada das novas cenas, incluindo a polêmica cena dos sobreviventes; King Kong (de Peter Jackson) só conseguiu ficar mais arrastado em sua versão ampliada; os Máquinas Mortíferas tiveram cenas ridículas recolocadas; Terminator 2 tem um final bem idiota na versão alterada (ok, é uma versão alternativa mas vocês entenderam); Highlander 2, um dos filmes mais dolorosamente ridículos da História do Cinema continua igual na amalucada versão do diretor; E.T. não precisava daquela humilhante cena na banheira e dos walkie-talkies no lugar de armas e por aí vai.

Watchmen era um filme que devia ter ficado como foi lançado no cinema. Sua longa duração original, de 162 minutos, consegue chegar a impressionantes 215 minutos. Sim, isso mesmo, 3 horas e 35 minutos. E vejam, não é o tamanho que atrapalha pois a versão estendida de O Retorno do Rei tem 252 minutos e não tenho nada a reclamar.

Já Watchmen tem várias cenas adicionais e todo o desenho animado que comentei acima (de 26 minutos no total) inserido em vários segmentos, exatamente como nos quadrinhos.

Vamos começar pelo desenho.

Como obra separada, Tales of the Black Freighter é um bom desenho animado de teor extremamente adulto. No entanto, exatamente para tornar possível a "venda" do desenho como uma obra separada, Zack Snyder optou por traços modernos e cores vibrantes bem fora da paleta de cores dos quadrinhos e do filme Watchmen. Assim, cada vez que somos jogados na estória do Cargueiro Negro, há a necessidade de uma verdadeira readaptação ocular. Tudo muda. Cor, som, tom, tempo. Isso faz com que a meta-estória (pois Cargueiro comenta o que se passa em Watchmen) seja de difícil acompanhamento por quem não está familiarizado com os quadrinhos. É difícil, logo de cara, ver os paralelos entre a estória de piratas e o poder que leva à loucura de um dos personagens (estou tentando evitar os spoilers). Na verdade, Cargueiro Negro serve como uma distração não muito bem vinda para a séria narrativa de Watchment.

E bem que Zack Snyder foi diligente. Ele mais ou menos inseriu a estória secundária nos momentos exatos dos quadrinhos e se deu ao trabalho de filmar cenas "de entrada" e "de saída" do desenho, que na verdade, é uma estória em quadrinhos que um personagem lê encostado em uma banca de jornal. O personagem está lá em destaque no Ultimate Cut, assim como a banca e a revista. No entanto, a separação entre as duas obras é evidente demais para passar despercebido ou com a fluidez necessária para a estória principal se desenvolver.

Agora vamos falar das cenas adicionais.

O que Zack Snyder fez foi jogar sardinhas para os fãs que, afinal de contas, foram os verdadeiros responsáveis por esse filme acontecer. Ele tratou de filmar o maior número de pequenas cenas que, basicamente, reproduzem diálogos inteiros dos quadrinhos. Nenhuma das inserções é relevante para a trama, absolutamente nenhuma. Na verdade, somente os fãs dos quadrinhos perceberão a maioria delas, muitas das quais envolvem, obviamente, o anti-herói preferido da galera, Rorschach.

Alguns podem dizer que as duas maiores cenas enxertadas, quais sejam, a conversa estendida de Hollys Mason com Dan (os dois Nite Owls) e a cena do ataque a Hollys Mason. Bom, a conversa é bacana e tal mas, de novo, é só material para fã insano dos quadrinhos. A outra cena, do ataque a Hollys Mason, é até interessante e muito bem feita mas, dentro do grande esquema das coisas, ela pouco afeta o filme. Se apenas essa cena tivesse sido recolocada, estaria bem feliz com a versão do diretor.

Assim, apesar de ter gostado muito de Watchment, fico com a versão do cinema mais o desenho Tales of the Black Freighter separados. Os dois juntos mais as cenas novas do filme só atrapalham o andamento da estória e diminuem o prazer que é ver Watchmen nas telas. Na verdade, o Ultimate Cut, no final das contas, só me fez admirar ainda mais Zack Snyder pois, com tanto material nas mãos, ele soube montar muito bem o corte que efetivamente lançou nos cinemas.

Nota (do Ultimate Cut): 6,5 de 10

domingo, 27 de dezembro de 2009

Crítica de TV: Desperate Housewives - 5ª Temporada

Venho acompanhando Desperate Housewives desde a primeira temporada. Essa série fez uma estranha dobradinha de sucesso com Lost pela rede televisão americana ABC quando foi lançada. Ambas fizeram sucesso e ambas são muito diferentes uma da outra. Lost é um mistério cada vez mais complicado e de difícil resolução em apenas seis temporadas e Desperate é uma série de costumes, com forte teor crítico à vida suburbana norte-americana.

Quem leu minha crítica da 4ª Temporada, aqui, sabe que (sem spoilers, fiquem tranquilos) ela acaba em um twist muito bacana, que claramente tem por objetivo "refrescar" a série. A 5ª Temporada começa no momento exato após o fim dos eventos da temporada anterior, efetivamente meio que recomeçando a série.

As novas situações são interessantes e prendem atenção pelos 10 primeiros episódios. Depois a coisa começa a ficar meio arrastada, para variar. Já cheguei à conclusão que séries de mais de 20 episódios por temporada não funcionam direito. A narrativa precisa de elementos novos e complicados para se ampliar e isso acaba criando estórias paralelas que, a não ser que a equipe de roteiristas seja brilhante (e em séries como essa raramente são), acabam por desviar a atenção do espectador da trama principal sem, contudo, agregar nada. É desse mal que a 5ª Temporada de Desperate Housewives padece.

Mas não se enganem. Não é uma temporada ruim. Ainda que o grande fio condutor da trama seja bem previsível, os roteiristas conseguem trazer elementos interessantes, inclusive, até mesmo, a morte de uma das personagens principais. Até demorei a acreditar que ela havia mesmo morrido mas nesse momento vi que os produtores não estavam mesmo de brincadeira.

O grande destaque da temporada fica para o episódio comemorativo de 100 episódios, número importante para qualquer série americana pois ela, com isso, vai para o chamado "syndication", ou seja, para o momento que os produtores passam a ganhar rios e rios de dinheiro com o produto. O episódio especial, intitulado "The Best Thing That Ever Could Have Happened" conta com a participação especialíssima do simpático Beau Bridges (irmão mais velho e menos ilustre de Jeff Bridges e ator da série Stargate SG-1). Beau faz o papel de Eli Scruggs, um faz-tudo do bairro de Wisteria Lane que morre no telhado de Susan (Teri Hatcher). Com isso, ao longo do episódio, as donas de casa desesperadas vão, uma a uma, relembrando como Scruggs foi importante para a vida delas. De maneira muito inteligente, os roteiristas inseriram Scruggs, em flashbacks, em cenas de grande importância de várias temporadas anteriores fazendo o que se chama de retcon, muito comum - infelizmente - na indústria de quadrinhos. Aqui o retcon funciona perfeitamente dentro do espírito da série e quase me deu esperanças que, a partir dali, veria uma melhoria na temporada.

No entanto, findo esse episódio, o 13º da temporada, restam ainda mais 11 para fechar a trama principal, algo bem mais (com ênfase no "bem mais") do que o necessário. O final é simples e óbvio e termina sem grandes novidades, além dos twists comuns de séries como essa, nada semelhante ao final da 4ª Temporada. Vou continuar acompanhando mas sem grandes esperanças que a série volte efetivamente à forma.

Nota: 6,5

Crítica de filme: 2012

Roland Emmerich é o mestre dos filmes de destruição. Ele dirigiu e escreveu Independence Day, Godzilla, The Day After Tomorrow e, agora, 2012. Ele até mesmo tentou sua sorte com filmes fora desse gênero como o já clássico do trash Universal Soldier, o interessante Stargate (que deu origem a, até o momento, três séries de TV), o chato The Patriot, com Mel Gibson e o ridículo 10,000 BC, com homens da caverna evoluídos demais para o meu gosto.

Na seara de filmes de destruição, Emmerich, em princípio, para o meu gosto, está empatado. Fez o ótimo Independence Day, o bom The Day After Tomorrow, o ruim Godzilla e o péssimo 2012, como vocês lerão agora. Vamos ver se, no próximo filme de destruição, Emmerich desempata a favor dele...

2012 é um filme que parte da premissa que o mundo acabará no ano título. A razão pouco importa. Emmerich arruma um desculpa geológica e solar qualquer que talvez até faça algum sentido mas que não interessa muito. O negócio é não perder tempo e já sair destruindo todas as cidades que orçamento do filme permitir. John Cusack faz o papel do herói Jackson Curtis que, por coincidência (sempre ela!) descobre um pouco antes do tempo o plano de acobertamento encabeçado por vários governos. Há algum tempo se sabe da destruição iminente mas, para evitar o caos (sempre ele!) é melhor não contar para a população e criar um plano secreto de sobrevivência.

Bom, Curtis parte então para salvar seus filhos e sua ex-mulher, que carrega a tiracolo o atual marido. Dirigindo uma limusine preta (Curtis é motorista), ele atravessa a cidade de Los Angeles que vai se desfazendo ao seu redor. Essa sequência é irretocável em termos de efeitos especiais. Os prédios, os viadutos, as estradas, tudo vai desmoronando e a limusine passando quase incólume. É a sequência do filme. Infelizmente, é também a sequência do trailer e, quem viu o trailer, já viu a sequência inteira. Eu realmente não entendo a necessidade de se fazer trailers que conseguem estragar um filme inteiro.

Bom passada essa sequencia, que deve durar uns 5 minutos, temos, ainda, só uns 130 minutos (!!!) de filme pela frente. A família de Curtis, nesse meio tempo, passa por três decolagens difíceis (acho que faltou assunto a Emmerich e ele resolveu repetir as sequências), descobre onde estão escondidos as "naves" de fuga construídas pelos governos de todos os países desenvolvidos e partem para lá. Para justificar a metragem do filme (158 intermináveis minutos ao total), perdemos um tempão no começo com explicações pseudo-científicas, depois mais uma eternidade lidando com o presidente negro (mais um!) dos Estados Unidos (Danny Glover), outros tantos minutos com um monge budista e sua fuga e por aí vai. Temos também uma longa (nada nesse filme é curto, afinal de contas) ponta de Woody Harrelson, como um tresloucado locutor de rádio que revela os segredos para Curtis.

Mas o que mata mesmo o filme é que, depois de toda a destruição que testemunhamos, ainda temos que lidar com quase um filme inteiro sobre a fuga final, algo no estilo de O Destino do Poseidon, com Curtis tentando consertar uma máquina emperrada para permitir o fechamento de uma comporta. Acho que ficamos quase que uma hora nessa brincadeira inútil e sem graça, depois de toda a novidade do filme ter escoado (e isso para quem não viu o trailer, claro).

2012 tem bons efeitos especiais, zero de estória (mas quem espera um estória em filmes como esse, certo?) e  intermináveis minutos que fazem o filme ficar arrastado e sem nenhuma dúvida sobre o que vai acontecer ao final. Até mesmo o segredo das "naves" é dolorosamente evidente mas Emmerich deve ter se achado o "esperto" ao imaginar isso. Se quiserem ver esse filme, sugiro fortemente que não vejam o trailer antes.

Nota: 4 de 10

sábado, 26 de dezembro de 2009

Crítica de filme: A Christmas Carol (Os Fantasmas de Scrooge)

Eu já falei bastante de Robert Zemeckis e suas frustradas tentativas de trabalhar com a tecnologia de captura de performance. Quem não leu, leia aqui.

De toda forma, vou resumir: em três tentativas seguidas até aqui (The Polar Express, Beowulf e, agora, A Christimas Carol), Zemeckis não conseguiu nem arranhar a superfície da tecnologia dominada por Peter Jackson na trilogia The Lord of the Rings e elevada até a décima potência por James Cameron em Avatar.

Mas, vamos olhar pelo lado bom. A Chrstimas Carol (Os Fantasmas de Scrooge) é o melhor esforço de Zemeckis. Para isso, ele teve que quase que repetir palavra por palavra o conto clássico de Charles Dickens sobre três fantasmas que visitam um milionário sovina (Scrooge, vivido por Jim Carrey) na Londres vitoriana para mostrar que ele deve tratar as pessoas melhor, ser mais generoso e festejar o Natal. A estória é magnífica, apesar de muito filmada, tendo se tornado meio que lugar comum.

Zemeckis não arriscou. Até o design dos personagens, incluindo os fantasmas, é chupado integralmente da obra de Charles Dickens. A única diferença é que Jim Carrey vive não só Scrooge (em suas várias idades) como também todos os fantasmas (até o fantasma do futuro, que não fala - vai entender). Obviamente, porém, como o filme foi filmado em 3D, Zemeckis tascou alguns exageros com vôos amalucados por Londres e coisas do gênero só para fazer o uso banal da tecnologia.

Sobre a tecnologia de captura de performance, Zemeckis fugiu do grotesco erro que cometeu em Beowulf ao tentar trazer à vida personagens fotorealísticos. Em Beowulf, o que vemos são um monte de cadáveres andando. Corpos sem vida e sem emoção que distraem completamente o espectador. Zemeckis deve ter percebido isso e tratou de caricaturar os personagens em seu novo filme. Assim, o que vemos é um desenho animado, com Scrooge sendo a caricatura do senhor idoso e sovina e não propriamente um senhor idoso e sovina. Isso resolveu o problema dos tais cadáveres de Beowulf.

No entanto, Zemeckis não empolga com sua direção obviamente limitada pela sua incapacidade de usar as tecnologias que o cercam da melhor forma possível. E olha que Zemeckis é um grande diretor, apenas escolheu um caminho que não domina e parece não se convencer disso.

Nota: 5 de 10

Crítica de filme: The Hurt Locker (Guerra ao Terror)

Esse filme, produzido em 2008 passou batido no cinema americano quando estreou no meio de 2009 e, por aqui, nem mesmo estreou. Foi lançado direto em DVD. Sua bilheteria mundial foi de parcos 16 milhões de dólares.

No entanto, The Hurt Locker (o título em português é simplesmente ridículo demais: Guerra ao Terror) vem chamando a atenção de todo mundo. Primeiro, o site agregador de críticas RottenTomatoes indica que nada mais nada menos que 97% por cento das críticas que o filme recebeu são positivas. Esse é um número absurdamente alto pois é rara tamanha unanimidade entre críticos. Para se ter uma idéia, o espetacular Up - Altas Aventuras, recebeu 98%.

Em segundo lugar, o filme vem recebendo indicações atrás de indicações e algumas premiações. Ganhou o prêmio de melhor filme do Gotham Awards, do New York Film Critics Circle. Mais recentemente, foi indicado a três Globos de Ouro: melhor filme, direção e roteiro. E parece-me que essas indicações não pararão por aí pois tem muita gente já dizendo que o filme merece ser indicado ao Oscar, especialmente em 2010 que serão 10 indicações de melhor filme, abrindo espaço para diversificação.

Em terceiro lugar, o filme tem pedigree já de nascença. Sua diretora é Kathryn Bigelow. Quem é ela, alguns perguntarão. Bom, tudo bem que casamento não quer dizer muita coisa mas, para começar, ela é ex-mulher de James Cameron, o atual Rei do Mundo. Mas seu pedigree vem de suas poucas mas excelentes obras. Ela dirigiu Near Dark em 1987, o filme de vampiro que considero ser o melhor do gênero já feito; o já clássico PointBreak com Patrick Swayze e Keanu Reeves e o dramático K-19 com Harrison Ford, dentre outros.

Assim, com a indicação ao Globo de Ouro, cacei o filme em um locadora e o assisti. Posso dizer que compreendi muito bem o que os críticos tanto adoraram (quase idolatraram) nesse filme mas também posso dizer que não concordo com a nota quase perfeita que ele vem levando de todos.

O filme conta a estória de uma pequena unidade militar especializada em desativar bombas, situada no Iraque em 2004. Não podia haver pior lugar para ser especialista em desarmar bombas, não? Pois bem, quando o comandante da equipe vira carne moída, o Sargento William James (Jeremy Renner) é transferido para liderar a equipe. Diferente do líder anterior, James é, em uma primeira análise, um completo louco destemido, que pouco se preocupa com os protocolos militares e assume riscos impressionantes. Logo na primeira missão, no lugar de mandar o costumeiro robô para fazer a primeira investigação, ele se manda pessoalmente trajando uma roupa anti-bombas para ver do que se trata a bomba (no linguajar militar, essas bombas improvisadas são chamadas de IED, ou seja Improvised Explosive Devices). O filme conta os últimos 38 dias dessa equipe, antes que seus componentes sejam mandados de volta para casa (inteiros ou não...).

Mas o filme é muito mais do que isso. Ainda que encaremos James como um caipira valentão e completamente despreocupado com sua vida e com a de seus colegas, ele é muito mais do que isso. Talvez ele seja mesmo um gênio naquilo que faz e esteja no auge de sua forma técnica. Talvez e é isso que Bigelow faz questão de enfocar, ele seja um viciado em adrenalina, sempre procurando situações cada vez mais arriscadas para encarar. Sua vida parece ser o dia-a-dia de procurar e desarmar bombas. Seus colegas, Sanborn (Anthony Mackie) e Eldridge (Brian Geraghty) querem cumprir seus 38 dias e ir embora. James não tem exatamente essa preocupação. Sanborn é o especialista em segurança, quem dá cobertura para que James possa se expor para cuidar de algum IED. Ele segue todas as regras e protocolos do exército e a postura amalucada do novo líder os colocam em conflito logo de imediato. Eldridge tem horror à guerra. Não consegue se ajustar de forma alguma (e quem poderia culpá-lo?). Ele quer por que quer ir embora. Não é um  covarde mas quer o mínimo de problemas possível (como se isso fosse possível em uma unidade de desarmamento de bombas no Iraque).

Esse dia-a-dia da unidade é mostrada de forma semi-documental pela diretora, que preferiu emprestar realidade às situações com muita utilização de câmera na mão e ângulos baixos. Algumas cenas são impressionantemente memoráveis, como quando James acha as várias bombas em sua primeira missão (é a cena representada pela fotografia do poster acima) e como quando Sanborn e James ficam horas com rifle em punho para acabar com soldados inimigos a quase um quilômetro de distância.

Outro ponto que merece destaque é a atuação de Jeremy Renner (28 Weeks Later e The Assassination of Jesse James). A profundidade que ele empresta ao seu personagem é inacreditável. Ele nos faz acreditar que ele é um caipira valentão em um primeiro momento mas sem nos afastar do personagem. Ao longo do filme, ele consegue romper essa barreira inicial de antipatia e criar uma conexão enorme com o espectador, revelando, então, todas as suas nuances. Sem estragar o final (fiquem tranquilos), fiquei especialmente transtornado com sua atuação nos minutos finais. É de uma sinceridade e de uma tristeza que há muito não via.

O grande problema do filme é a obviedade dos eventos. Para um filme que respira tensão (e Bigelow manobra bem o espectador), em vários momentos ele telegrafa o que vai acontecer, retirando elementos importantes para a composição da cena. É difícil explicar sem entrar no terrenos dos spoilers mas basta dizer que sempre que Bigelow aborda a questão de maneira diferente, algo não esperado acontece. Ela exagera nessa técnica e acaba enfraquecendo o que, de outra forma, seria efetivamente um filme nota 10.

Mas todas as outras incríveis características desse filme realmente o colocam lá no alto, entre os melhores de 2009 sem dúvida. Se não vier Oscar para o filme, que ao menos Jeremy Renner seja lembrado.

Um último detalhe que não poderia deixar de dizer. A capa do DVD brasileiro é ridícula e enganadora. Quem fez deveria ter vergonha do trabalho. O filme tem pontas de três atores conhecidos e os nomes que aparecem na capa são APENAS desses três atores. O nome de Jeremy Renner não está lá e a foto de maior destaque é de um desses pontas, que literalmente tem duas falas no filme inteiro. É muito feio vender o filme dessa forma, especialmente escondendo o verdadeiro protagonista da película.

Nota: 9 de 10

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Club du Film - 4.31 - Hotaru no haka (Grave of the Fireflies ou Túmulo dos Vagalumes)

O 31º filme do ano IV do Club du Film foi Grave of the Fireflies (Túmulo dos Vagalumes), assistido em 05.11.09. Trata-se de um desenho animado japonês (anime), dirigido e escrito por Isao Takahata, em 1988.

O desenho conta a estória da luta pela sobrevivência de Setsuko e sua irmã pequena Seita em um japão devastado pela Segunda Guerra Mundial. A mãe das crianças morre em um bombardeio e elas vão para a casa de parentes que os consideram um fardo. Depois de muitas brigas, eles acabam se mudando para um abrigo de bombas abandonado e fazem de tudo por comida, inclusive roubar cidades que são esvaziadas logo antes de algum bombardeio. Com o tempo, porém, a fome e o desespero se instalam e os dois encontram algum consolo na luz dos vagalumes que eles capturam para iluminar suas noites.

Trata-de de um filme muito triste, com forte mensagem antibelicista. Mostra o efeito nefasto que uma guerra tem sobre as pessoas. Sentimentos como egoísmo, inveja e ingratidão afloram e nem mesmo as crianças são polpadas. É o horror da guerra mostrado em suas minúcias e em momentos não propriamente bélicos, ou seja, em momentos entre um bombardeio e outro e relacionados com uma guerra que só se vê e ouve falar à distância.

O horror pelo que as duas crianças passam, com o lento, horrível e inevitável caminho para a morte por inanição, faz qualquer um ficar desesperado vendo esse desenho. Não é definitivamente algo feito para crianças. Ao contrário, é uma das mais eficientes mensagens contra guerras que já vi em filmes, exatamente por ser sutil, lenta e afetando diretamente crianças. Há, claro, outros filmes que lidam com o efeito da guerra em crianças e Império do Sol de Spielberg me vem logo à mente. No entanto, o horror de Jamie em Império do Sol é abafado pela trama marcadamente melodramática do diretor. Em Grave of the Fireflies, Isao Takahata se baseou nas memórias de Akiyuki Nosaka para extrair sentimentos fortes e verdadeiros que fogem muito do tom Spielberguiano de ser. Grave of the Fireflies fica lá no fundo da mente como algo marcante, terrível, que não queremos mais ver.

Infelizmente, porém, vemos o horror da guerra todos os dias.

Vale apenas um esclarecimento sobre a enorme discrepância de notas para esse filme. Acontece que Barada interpretou esse filme como sendo um comentário especificamente sobre a Segunda Guerra Mundial, mostrando como os japoneses eram "bonzinhos" e os americanos "maus", bombardeando cidades sem nenhuma explicação. Barada tem direito à sua interpretação mas não há como concordar com ela pois o filme é atemporal e poderia se passar até mesmo no universo de Guerra nas Estrelas. O efeito devastador seria o mesmo.


Sobre o Club du Film:

Há quase quatro anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como "Club du Film". Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São mais 102 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo.


Notas:

Minha: 8 de 10
Barada: 0 de 10
Nikto: 8 de 10

Club du Film - 4.30 - Say Anything (Digam o que Disserem)

O 30º filme do ano IV do Club du Film foi Say Anything (Digam o que Disserem), assistido em 29.10.09. Trata-se de um filme bastante cultuado, dirigido pelo ótimo Cameron Crowe (Jerry Maguire, Almost Famous e Vanilla Sky), em 1989 e estrelado pelo então bem jovem John Cusack.

É fácil entender porque todo mundo adora Say Anything. É um filme de adolescentes no estilo da época em que foi concebido, ou seja, com muita música, romance e amizade, mas sem ser só isso. O filme vai um passo além e apresenta personagens diferentes e que não se encaixam no estereótipo de "filme de adolescente".

John Cusack vive Lloyd Dobler, um rapaz que está prestes a se formar. Ele não é nem o nerd nem o garoto cool que nos acostumamos a ver em filmes como esse. Ele é apenas ele mesmo: um rapaz que vive a vida cada dia de uma vez e que não tem a menor pretensão de ser nada no futuro que está pela sua frente. Ele tem uma irmã, Constance (vivida pela irmã verdadeira de John, Joan Cusack, em papel sem crédito), que tem um filho (provavelmente sem querer). Ele adora o garoto e se sente, ele próprio, um garoto. Mas Lloyd tem uma paixão escondida: Diane Court (vivida pela estranhamente bela Ione Skye). A menina, diferentemente do que se pode esperar, é uma adolescente super estudiosa, tipo nerd, oradora da formatura mas que, apesar de bonita, nunca foi popular entre os colegas. Na verdade, eles mal a conhecem. Seu pai, James (o ótimo John Mahoney) incutiu na cabeça dela que ela tem que ser a melhor e só pensar no futuro. Lloyd, depois da formatura, decide chamar Diane para sair e ela tem uma ótima noite em que finalmente vem a conhecer seus colegas de turma. A isso se segue um romance conturbado pois, de um lado, o pai de Diane vê a falta de ambição de Lloyd como algo que vai atrapalhar a vida da filha e, por outro, Diane não consegue se esquecer do rapaz que a fez conhecer o lado leve e despreocupado da vida.

Mesmo com essa trama interessante (ainda que lá no fundo um pouco cliché), Cameron Crowe, também responsável pelo roteiro, criou uma sub-trama que trata do caráter do pai de Diane. Para dar de tudo para sua filha, James vinha há anos se aproveitando do falecimento dos idosos que vivem em sua casa para idosos, para tomar todos os seus bens. Apesar do crime ser pesado e horrível, Crowe consegue trabalhar de forma tal a nos deixar compadecidos pela luta de James.

Como se pode ver, não é o filme de adolescente comum. Há muito mais do que a superfície deixa ver e, aliado à isso, temos a ótima atuação de John Cusack que realmente nos faz acreditar - e querer - essa vida em que o futuro não passa pela cabeça e que os dias devem ser vividos sem preocupação. É tudo uma utopia, claro, mas utopia boa de ser, ainda que por apenas 100 minutos.


Sobre o Club du Film:

Há quase quatro anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como "Club du Film". Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São mais 102 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo.

Notas:

Minha: 7 de 10
Nikto: 7 de 10

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Club du Film 4.29 - Du Rififi Chez Les Hommes (Rififi)

O 29º filme do ano IV do Club du Film foi Du Rififi Alien Chez Les Hommes (Rififi), assistido em 20.10.09. Trata-se de um clássico filme noir francês dirigido por Juules Dassin (Topkapi) em 1954 e estrelado por Jean Servais.

Rififi faz dupla com Bob, Le Flambeur como os filmes que basicamente deram forma a filmes de assaltos complicados (se é que esse gênero existe). Rififi é lembrado por uma seqüência sem trilha sonora e sem fala (apenas com os sons de leves marteladas, cortes e alguns grunhidos) de 28 minutos que é o ponto alto do filme. De fato, essa cena é magistral e parece que Jules Dassin primeiro a imaginou e, depois, fez um filme em volta. A cena envolve os personagens principais, todos ladrões, praticando um assalto a uma joalheria no térreo a partir do andar imediatamente acima, onde vive um casal de idosos. Dassin nos envolve na cena pois na joalheria há alarme que detecta barulhos e vibrações, pelo que os ladrões não podem conversar e tem que fazer tudo muito vagarosamente. Não há erros na seqüência e toda ela parece verdadeiramente uma lição de como se assaltar uma joalheria.

Terminada essa cena, os ladrões, chefiados por Tony (Jean Servais) partem para dividir o espólio. Um dos ladrões, porém, exagera nos gastos e logo um outro ladrão, que não participou do roubo, começa a cobiçar o tesouro. Começa, então, a caçada dos ladrões não pela polícia mas por outro grupo de ladrões, mais truculentos e virulentos.

Tony adora seu afilhado e isso leva a uma cena de seqüestro do garoto e o resgate. Trata-se de um filme selvagem, em que o próprio herói tem moral muito dúbia: maltrata severamente uma amante logo no começo do filme e espanca um policial na cena da fuga. Seu único esteio moral parece ser o garoto e, por ele, parece disposto a se sacrificar.

Desnecessário dizer que o filme está longe de ser simpático.  Todo o bem orquestrado plano vai para o ralo e começa a azedar no minuto em que o roubo acaba. Paris é mostrada como uma cidade triste, suja e cheia de bandidos, muito diferente da imagem romântica que temos da cidade. A fotografia em preto e branco é linda e se utiliza bem dos reflexos e das ruas molhadas para o melhor efeito.

O filme, porém, com seus muitos clímax, parece se arrastar um pouco, tornando-se talvez até chato mais para o final, quando o desfecho dos personagens é óbvio. No entanto, Rififi é, sem dúvida, um marco na história do cinema e precisa ser visto por qualquer amante do cinema.

Nota:

Minha: 7,5 de 10
Barada: 7,5 de 10
Nikto: 6,5 de 10

Club du Film 4.28 - Alien (Alien - O 8º Passageiro)


O 28º filme do ano IV do Club du Film foi Alien (Alien - O 8º Passageiro), assistido em 14.10.09. Trata-se de um clássico filme de ficção científica de horror, dirigido por Ridley Scott (Blade Runner e Gladiator) em 1979 e estrelado pela então quase estreante Sigourney Weaver no papel da heroína Ripley.

Alien é um filme de ficção científica que redefiniu os filmes de ficção científica. Foi em Star Wars que o conceito de "tecnologia envelhecida" foi utilizado mais largamente, ou seja, acabou com aquela estória de as naves serem limpinhas e branquinhas, sem nenhum arranhão. Alien, porém, elevou esse conceito à 10ª potência pois nos apresentou uma nave (Nostromo) e equipamentos que pareciam usados há anos e, ao mesmo tempo, com aparência de algo que efetivamente pudesse ter sido feito por nós, terráqueos. Além disso, por serem apenas sete passageiros, a sensação de solidão e abandono é palpável durante todo o filme e os corredores mal iluminados e cheios de goteiras de Nostromo formam, efetivamente, um personagem na estória. Sem a atenção a esses detalhes, Alien seria mais um filme de monstro.

Aliás, o próprio monstro é um triunfo do design. Criado pelo brilhante artista H.R. Giger (que também criou design da Nostromo), o alienígena se tornou o padrão para os monstros que vemos hoje em dia. O filme já mereceria ser visto apenas por seu design mas ele tem muito mais a oferecer.

A estória todos que não viveram os últimos 30 anos em uma caverna conhecem bem. Sete passageiros de uma nave de mineração são despertados de um sono criogênico e acabam descendo em um planeta em que um deles é atacado por um bicho esquisito (carinhosamente chamado de "face hugger"). O tal bicho, na verdadeira, coloca um "ovo" de Alien na barriga da vítima e o monstrinho simpático, ao sair, faz, digamos, uma certa bagunça intestinal... E o bichinho cresce, claro, e vai pegando cada um dos tripulantes da nave espacial. A última  sobrevivente é Ripley (uma mulher heroína era quase inédito naquela época) e ela tem que se livrar da monstruosidade.

Ridley Scott aproveita para tratar de questões extremamente atuais como, por exemplo, a manipulação de grandes corporações e, sobretudo, a relação entre o ser humano e as máquinas. Há um pouco de 2001 - Uma Odisséia no Espaço no embate entre o homem e a máquina mas Scott consegue levar a briga para um patamar mais humano, mais identificável, ainda que o embate entre Dave e Hal 9000.

E o suspense do filme é muito bem construído. Apesar da obviedade do conceito de "monstro matando um por um", Scott consegue criar uma atmosfera tensa que deixa o espectador desesperado pela fuga dos personagens, mesmo já sabendo que eles não têm chance.

Em suma, Ridley Scott fez em Alien aquilo que James Cameron faz agora em Avatar: se utilizou de uma estória simples para impressionar o espectador com visuais incríveis e uma execução bem amarrada. Mas Scott ganha de Cameron pelo elemento humano que consegue capturar com suas câmeras e com o tratando do espectador de forma 100% respeitosa, sem tentar explicar, de forma didática, tudo o que está ocorrendo.

Notas:

Minha: 10 de 10
Klaatu: 10 de 10
Barada: 10 de 10

Club du Film 4.27 - Being There (Muito Além do Jardim)

O 27º filme do ano IV do Club du Film foi Being There (Muito Além do Jardim), assistido em 06.10.09. Trata-se de um conto de fadas no mundo real dirigido por Hal Ashby (Harold and Maude e Shampoo) em 1979 e estrelado pelo magistral Peter Sellers, conhecido por seu inesquecível papel do atrapalhado Inspetor Clouseau, na séries de filmes da Pantera Cor de Rosa.


A melhor forma de descrever Being There é dizer que ele é um filme mágico. Mágico na forma como encanta e prende a atenção do público; mágico como captura e incita a imaginação; mágico em sua crítica ferina e avassaladora da cultura norte-americana; mágico em sua atmosfera e, finalmente, mágico pela impressionantemente maravilhosa atual de Peter Sellers, no papel de Chance.


Chance viveu a vida todo como jardineiro da casa de um milionário. Ele nunca saiu da casa e só conhece o mundo exterior pela televisão. Chance, vale dizer, tem a idade mental de uma criança. Quando seu patrão morre, Chance é largado no mundo mas, depois de uma série de coincidências, quase todas elas baseadas na sua aparência de lorde inglês e de suas frase simples, sempre ligadas com a jardinagem mas que poderiam ser aplicadas à várias situações, Chance (chamado de Chauncey Gardner também por uma coincidência feliz) acaba na casa de um mega milionário Ben Rand (Melvyn Douglas) que está morrendo e acaba considerando Chance um gênio por suas colocações genéricas sobre plantas que Ben aplica à política e aos negócios. Ao mesmo tempo, Eve (Shirley MacLaine), esposa de Ben, se enamora de Chance.


O filme, que se passa em um época de notória dificuldade econômica nos EUA, explora o conceito de que o povo americano (ou qualquer povo na verdade) precisa de um salvador e, por isso, é capaz de "torcer" as palavras inocentes de um mero jardineiro em interpretações complexas que trazem bons augúrios. A forma como Hal Ashby manipula a imagem e o diálogo para que as conclusões tiradas sejam naturais e verdadeiras, sem nunca deixar claro para as pessoas (mas sempre para os espectadores) que Chance tem um problema mental.


Peter Sellers é um gênio no papel. Conhecido por suas comédias (os filmes da Pantera, o hilário The Party e o maravilhoso Dr. Strangelove), Sellers dá um show e não dá chance para seus colegas de trabalho. Sua performance é verdadeiramente inesquecível.


Notas:


Minha: 9 de 10
Barada: 9 de 10
Nikto: 8 de 10

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Crítica de filme: The Box

Assisti a The Box quando estive de bobeira em Londres no começo de dezembro. Trata-se do mais novo filme de Richard Kelly, diretor que em seu currículo tem apenas dois outros filmes: o cultuado Donnie Darko de 2001 e o completamente louco Southland Tales, de 2006. Apesar de ter sido originalmente anunciado para dezembro no Brasil, parece que ele só vai estrear em fevereiro de 2010.

Eu particularmente gosto muito de Donnie Darko mas me desapontei com as doideiras exageradas do segundo filme do diretor. Assim, foi com uma certa dose de precaução que fui ao cinema ver como é que Kelly conseguiu transformar em longa metragem o conto de Richard Matheson (autor de O Último Homem Sobre a Terra, recentemente adaptado mais uma vez como I Am Legend com Will Smith) que já havia sido convertido em um episódio famoso da série Twilight Zone (Além da Imaginação), sob o nome Button Button.

Posso dizer que até que Richard Kelly se saiu bem.

A estória é intrigante e se passa em 1976. James Marsden (o Cyclops de X-Men) vive Arthur Lewis, cientista e candidato a astronauta casado com Cameron Diaz (Norma Lewis). Os dois têm um filho pequeno e vivem a vida de contra cheque em contra cheque, sempre tentando esticar o dinheiro. Ao mesmo tempo em que a vida profissional dos dois começa a degringolar de vez (seria coincidência?), eles recebem a visita do misterioso e deformado Arlington Steward, vivido magistralmente pelo sensacional Frank Langella (vejam a atuação dele em Frost/Nixon). O Sr. Steward carrega uma caixa com botão protegido por uma redoma de vidro que só abre com uma chave. Se o casal apertar o botão, 1 milhão de dólares serão entregues para eles (naquela época, isso era muito mais dinheiro do que é hoje). Mas, claro, há uma "pegadinha". Ao mesmo tempo que eles se tornam milionários, alguém que eles não conhecem morrerá.


O dilema moral é evidente e, desnecessário dizer, o botão acaba sendo apertado. Segue-se uma investigação angustiante, com direito a pessoas meio "zumbis" e muita coisa sobrenatural e pouca explicação, bem no estilo Richard Kelly de ser. O final é particularmente de partir o coração.


No entanto, dos três filmes do diretor, The Box é o mais "pé no chão", se é que eu posso chamar um filme com teletransporte e controle mental como pé no chão. No entanto, as loucuras são meio que contidas nesse filme, tornando até mais coeso que o ótimo Donnie Darko. O uso de computação gráfica no filme, especialmente na deformação facial de Arlington Steward é muito bem feita. A direção mostra amadurecimento mas também mostra independência. Kelly se recusa a se conformar com os padrões hollywoodianos. Ele colocou um casal bonito nos papéis principais mas ao mesmo tempo os joga no meio de um dos piores dilemas morais já concatenados pela mente humana. Diaz, meio plastificada mas ainda considerada bela, não é um bibelô apenas. Guarda, em segredo, horrível mutilação que talvez se reflita na velocidade com que decide apertar o botão.


O filme exige bastante do espectador e não é de fácil digestão. Mas é um legítimo Richard Kelly. Tenho apenas receio que seus fracassos comerciais repetidos (The Box não fez quase nada na bilheteria) não o façam seguir o caminho mais fácil, tornando-se um diretor comum. Falta mais ousadia à Hollywood é Kelly é um dos poucos dessa raça em extinção.


Nota: 7,5 de 10

domingo, 20 de dezembro de 2009

Crítica de filme: Avatar


Depois de assistir Avatar em 3D fiquei  pensando no que eu poderia escrever que já não tivesse sido escrito aos borbotões por milhares de pessoas - críticos ou meros curiosos como eu - sobre o filme. Depois de muito pensar resolvi começar pelas duas coisas que se fixaram em minha mente na  medida em que os créditos do filme iam rolando na tela: Robert Zemeckis e Dança Com Lobos.

E vocês vão me perguntar o porquê, tenho certeza.

Vou começar por Robert Zemeckis. Eu o considero um excelente diretor, que nos brindou com obras como Uma Cilada Para Roger Rabbit, a trilogia De Volta para o Futuro, Forrest Gump e Contact. A questão é que, de 2004 para cá, Zemeckis resolveu se meter com a tecnologia conhecida inicialmente como "captura de movimento" mas que hoje se desenvolveu para "captura de performance". Essa tecnologia, usada de forma magistral na trilogia O Senhor dos Anéis diz respeito ao uso de sensores especiais colocados em atores para que o computador possa, depois, gerar um personagem 100% digital. Em O Senhor dos Anéis, Andy Serkis foi o ator que deu vida ao personagem Gollum. Em King Kong, o mesmo ator deu vida ao personagem título.

Acontece que Zemeckis é um diretor apenas, alguém que aparentemente não se enfronha na tecnologia como Peter Jackson ou James Cameron fazem. Tenho para mim que ele apenas recebe um produto pronto e faz seus filmes como o que está disponível. É por isso também que o nome de Robert Zemeckis se fixou em minha mente depois de ver Avatar: ele deve estar se contorcendo de raiva por não conseguir, depois de três tentativas seguidas, chegar aos pés do que Peter Jackson já havia conseguido antes dele e que James Cameron conseguiu elevado à décima potência com Avatar.

O Expresso Polar, Beowulf e Os Fantasmas de Scrooge não lambem as botas do que Cameron fez com seu mundo virtual em Avatar. Beowulf, por ser um filme de fantasia mas calcado em fotorealidade, talvez seja o exemplo mais gritante. O que Zemeckis conseguiu foi criar um monte de "corpos sem alma" que se movimentam pela tela. O que Cameron fez foi efetivamente criar um mundo que você acredita que existe e personagens completamente digitais com quem você efetivamente se sente confortável, como se humanos fossem. Os Na'vi de Cameron são seres que respiram como nós e atuam como os melhores atores. Sam Worthington (Jake Sully) e Zoe Saldana (Neytiri) atuam na pele de seres azuis de três metros de altura e feições felinas como qualquer outro ator atuaria normalmente. Cameron conseguiu, em um filme o que Zemeckis não conseguiu nem de longe e com muita boa vontade com três filmes (ok, James Cameron teve mais dinheiro que Zemeckis mas convenhamos que, somadas as três tentativas de Zemeckis, os dois ficam pau-a-pau em termos de orçamento).

E, repetindo, creio que a maior razão para isso ter acontecido é que James Cameron é um diretor mas também é um técnico, alguém efetivamente envolvido na tecnologia utilizada em seus filmes.

Mas vamos ao meu segundo pensamento após o fim de Avatar: Dança Com Lobos (Dances With Wolves). Esse filme, de 1990, estrelado e dirigido por Kevin Costner, e que arrebatou todos os Oscar da época, é um de meus westerns preferidos. Conta a estória de um soldado da guerra civil americana que é enviado para um posto no fim de mundo do oeste. Lá ele, relutantemente, se envolve com os indígenas, se apaixonando por uma bela nativa já prometida em casamento para o grande guerreiro da tribo. Ao longo do tempo, ele vai  se deixando envolver pela beleza da cultura da tribo e da nativa, chegando ao ponto de se voltar contra seus pares da "civilização" em defesa do grupo que o aceitou como um dos seus. Esse filme moderniza a estória de Pocahontas e John Smith, tão importante para os estadunidenses e é, basicamente, uma "estória padrão", repetida milhares de vezes em diferentes filmes.

O que James Cameron fez foi pegar Dança Com Lobos ou Pocahontas e lançá-los ao espaço. Jake Sully, ex-marine, depois do falecimento de seu irmão gêmeo cientista, lotado no planeta Pandora (nome nada sutil, aliás), o substitui no projeto Avatar. Esse projeto pode ser resumido na  transferência da mente humana para um clone de humano com Na'vi (daí a importância de se usar o mesmo DNA) para que seja possível que os humanos se infiltrem na cultura indígena do planeta e consigam negociar um acordo (o ar de Pandora é tóxico para os humanos). O que querem os humanos? Ora, um minério chamado Unobtainium (outro nome nada sutil mas que funciona) que existe em vastas quantidades exatamente onde a tribo local vive. Jake Sully, sendo um ex-marine ("ex" pois ficou paraplégico em sua última missão), consegue se infiltrar na tribo e começa a agir como um agente duplo, até que seus instintos primordiais o colocam ao lado dos nativos e de seu amor Neytiri (Zoe Saldana, a Uhura do novo Star Trek). As coincidências com Dança Com Lobos vão até mesmo no detalhe da caracterização do guerreiro nativo a quem Neytiri é prometida.

Isso é um falha?

Não exatamente mas a simplicidade do roteiro impede Avatar de ser uma obra-prima em todos os aspectos. E nem venham dizer que ficção científica altamente tecnológica é incompatível com estórias complexas. Bastam ver Matrix e, de James Cameron, The Abyss (O Segredo do Abismo) para terem uma idéia do que estou falando.

De toda forma, tenho para mim que a escolha de uma linha narrativa simples, com diálogos bem mundanos (em alguns momentos deu vontade de desligar o som) foi deliberada por parte de James Cameron. Avatar é um show de imagem e som dos mais inacreditáveis já colocados em uma tela de cinema. É algo que não se via há tempos: uma experiência cinematográfica completa. Perder Avatar no cinema é perder um importante capítulo da Sétima Arte.

Cameron não lançava um filme de ficção desde seu mega sucesso Titanic, de 1997. Como todo mundo sabe, Titanic mantém o posto de maior bilheteria mundial (não atualizada pois se for atualizada a bilheteria de E o Vento Levou leva a taça) do cinema. Titanic é, também, superlativo em tudo: custou 200 milhões de dólares, o maior orçamento da época, contou com um réplica quase exata do Titanic que Cameron teve o prazer de destruir ao final, estourou todos os orçamentos, com Cameron abrindo mão de seu salário inicial e por aí vai.

Antes de Titanic, Cameron tinha em seu currículo apenas outros seis filmes de ficção para o cinema: Piranha 2 (seu début e uma porcaria); O Exterminador do Futuro (The Terminator), um dos mais brilhantes filmes de ficção científica de todos os tempos; Aliens, outro filme que concorre ao posto de um dos mais brilhantes de ficção científica de todos os tempos; O  Segredo do Abismo (The Abyss), que eu considero uma obra prima mas que foi muito criticado, trazendo, no entanto, pela primeira vez, o uso da tecnologia digital de forma arrebatadora ao cinema; O Exterminador do Futuro 2, outro concorrente aos melhores da ficção científica de todos os tempos e o filme que introduziu de vez a computação gráfica ao cinema mainstream e True Lies, ótima comédia de ação, com o astro de Terminator. Com esse currículo invejável,  a tensão pela espera de Avatar era grande, especialmente quando o próprio Cameron, nada humilde (e, na posição dele, humildade é incompatível), declarou que seria o filme que mudaria o cinema.

Bom, Avatar não vai necessariamente mudar o cinema mas definitivamente vai mudar a forma como efeitos especiais são feitos e pensados. James Cameron sempre se esmerou em seus efeitos especiais e Avatar é o ponto alto de sua carreira nesse sentido estrito. Não é um filme melhor que os dois Terminator e Aliens mas certamente é um filme espetáculo que ataca sensorialmente o espectador de forma nunca antes vista. Feito para ser apreciado em sua plenitude em 3D, o filme envolve o espectador de maneira absoluta, fazendo-o acreditar estar em Pandora, vivendo com os Na'vi. As cores são vibrantes, o planeta respira, você vê que há coesão até mesmo biológica naquilo que foi criado (por exemplo, todos os animais selvagens têm seis pernas). As plantas são de detalhes impressionantes e os nativos são tão fotorealistas como se Cameron simplesmente tivesse filmado "em locação", com os "nativos verdadeiros".

Assim, se antes dava para criar um filme com efeitos mais ou menos aqui ou ali, depois de Avatar isso não será mais possível. Mas o destaque maior vai mesmo para a tecnologia de "captura de performance", que resolvi apelidar de "Zemeckis-killer". Como dito, os detalhes são impressionantes e nada mais justificará o uso de maquiagens extremas em atores. A "captura de performance" foi efetivamente catapultada à perfeição e não quero mais saber de filmes com essa tecnologia que não se beneficiem do que Cameron criou ao longo de seu hiato de 12 anos longe do cinema de ficção (ele desenvolveu tecnologia própria de "captura de performance" e de filmagens em 3D, consumindo, dizem, para lá de 300 milhões dólares).

Como muitos críticos disseram, se retirarmos os efeitos de Avatar, sobra um estoriazinha muito simples, rasteira e nada original. Ora, se retirarmos as piadas de The Hangover, também não sobra nada da estória. Se retirarmos a aventura de Indiana Jones, também nada resta. Acontece que o deslumbramento por Pandora e tudo que lá vive é parte tão integral de Avatar que críticas como essa não fazem o menor sentido. Cameron escolheu uma vitrine para suas criações e essa vitrine foi definitivamente a de uma loja simples, que não chama mais atenção do que está exposto. A escolha foi cirúrgica e perfeita pois o filme, apesar de seus 160 minutos, não é arrastado e não sofre de cenas desnecessárias. O que Cameron podia ter evitado é a narrativa de Jake Sully pois ela é didática demais para uma estória para lá de óbvia. Ele parece querer tratar os espectadores como totais idiotas.

Alguns também dizem que o filme é exageradamente ambientalista, até "ecochato". Outra besteira. Não há dúvidas que o filme é mesmo ambientalista e que, de certa forma, assim como Dança Com Lobos, é um  pedido de desculpas pelas enormes cavalices ambientais feitas pelos Estados Unidos, mas dizer que isso é um aspecto que retira a qualidade do filme é de uma falta de visão inacreditável. Trata-se de uma mensagem apenas mas o filme pode ser visto como sendo um filme de ação sobre a luta de seres de carne e osso contra a tecnologia, exatamente da mesma forma que Terminator 1 e 2 e Aliens também são.

Para fechar, vocês querem saber o que acho o maior defeito do filme? A campanha de marketing empreendida pela Fox. Nunca vi um filme tão esperado trabalhado de forma tão fraca por um estúdio. Os trailers são fracos, os posters do filme são péssimos e o tal Avatar Day em que 15 minutos do filme foram projetados gratuitamente no cinema foi extremamente mal aproveitado...

Espero que James Cameron não demore muito para lançar seu próximo projeto!

Nota: 9 de 10 (tiro um ponto apenas pelos diálogos fracos, pela trama batida e pela narrativa que subestima o espectador)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Crítica de filme: Paranormal Activity (Atividade Paranormal)

Dizem que Paranormal Activity foi feito pela bagatela de 15 mil dólares. E é bem possível pois ele só tem dois atores, quase nenhum efeito especial e basicamente se utiliza de câmera na mão. No entanto, até agora, conseguiu fazer 103 milhões de dólares só nos Estados Unidos. Talvez entre para a história do cinema como o filme mais lucrativo.

E será que ele merece esse sucesso todo ou foi só uma campanha de marketing bem feita?

A resposta é: os dois. O marketing de Paranormal Activity, feito pela Paramount foi para lá de inteligente. O trailer é uma montagem não do filme mas da reação verdadeira de platéias vendo o filme em cinemas. Brilhante a idéia pois ao mesmo tempo que não conta nada, mostra que o filme assusta, diferentemente dos filmes de terror e suspense que vemos por aí hoje em dia. Em segundo lugar, a Paramount fez lançamento bem limitado do filme, pedindo que os fãs de cinema enviasse e-mails para a produtora pedindo para que o filme estreasse em sua cidade. Isso criou um hype incrível que eu testemunhei quando estive em Nova Iorque no fim de semana de lançamento do filme. Foi impossível comprar ingressos!

O filme em si é bem simples e objetivo. Um casal se muda para uma casa aparentemente assombrada. Eles compram uma câmera e resolvem filmar os acontecimentos. O filme é um crescendo em que o diretor Oren Peli vai mostrando sua habilidade em construir o terror sem se utilizar de sustos baratos. O grande tchan do filme é a tensão que uma câmera parada com visão noturna consegue criar. A cada noite a situação piora até seu climax, nos últimos segundos do filme. É tudo feito em estilo mockumentary, parecendo que as imagens são verdadeiras e foram achadas depois dos acontecimentos do filme, muito na linha de Blair Witch Project e [Rec]. Como o que vai acontecendo no filme é sutil, a sensação de horror é bem maior do que nesses outros dois filmes e vale a pena assisti-lo no cinema para ficar cercado dos barulhos de medo das pessoas ao redor. É uma experiência incrível.

Paranormal Activity é mais um exemplo de filme que vem para mostrar que não se precisa gastar muito para se fazer bom cinema. Basta uma boa idéia e um tino de direção. O filme, claro, não é sem defeitos e o maior dele é a duração. Apesar de não ser muito longo em termos absolutos, apenas 86 minutos, ele parece que demora mais. O diretor realmente vai incrementando o terror de pouquinho em pouquinho mas poderia ter feito isso um tanto mais rápido, evitando repetições. Outro ponto que irrita um pouco é a insistência do casal em ficar na casa, apesar de tudo o que eles vêem na câmera no dia seguinte a cada noite que dormem lá.

O filme é altamente recomendado mas os fracos de coração devem evitá-lo. O filme é composto de sustos ma não sustos baratos com aquela trilha sonora bem forte e um monstro correndo atrás. É um terror psicológico realista que dá nos nervos.

Nota: 8,5 de 10

domingo, 15 de novembro de 2009

Crítica de quadrinhos: Wolverine: Old Man Logan (Wolverine: O Velho Logan)


A Marvel, influenciada por dois nomes quentes do momento, Mark Millar e Steve McNiven, resolveu, de uma hora para outra, parar a cronologia normal da revista Wolverine, no Estados Unidos, e começar uma estória que se passa no futuro do Universo Marvel, focada em Logan. Tudo começo no número 66 da revista, em junho de 2008 e foi seguindo até o número 72. Os números 73 e 74 voltam para a cronologia normal e, do 75 em diante, Wolverine deixa a revista (!!!) para dar lugar a seu filho sinistro, Daken, em Dark Wolverine.

Acontece que a série Old Man Logan só foi mesmo acabar em setembro de 2009, quando foi lançada a Gian-Size Wolverine Old Man Logan. E por que eu estou falando dessa estória.

Ora, ela foi "vendida" como sendo o The Dark Knight Returns (O Cavaleiro das Trevas) de Wolverine, o personagem Marvel mais cool e do momento. Além disso, figura Mark Millar, o roteirista mais quente da Marvel, que inventou o Universo Ultimate e escreveu Marvel 1985 e Kick-Ass (que será lançado no cinema em breve), além de ter revolucionado o Universo Marvel com a saga Guerra Civil (junto com Steve McNiven, aliás). O cara vale ouro para a Marvel e se ele quisesse escrever uma estória revelando que Logan, na verdade, é homossexual, acho que a Marvel teria deixado.

Agora fica a pergunta: Old Man Logan é mesmo comparável a The Dark Knight Returns?

A resposta eu já digo e é um retumbante NÃO. Qualquer comparação fica limitada ao ambiente das duas publicações. Ambas se passam em um futuro em que os heróis não mais existem e o personagem título pendurou as chuteiras. O mundo é dos vilões. Mas as semelhanças realmente acabam por aí. The Dark Knight Returns é um irretocável trabalho de Frank Miller, tocando em assuntos como o papel do herói e a fronteira entre o bem e o mal, além de conter fortes críticas sociais. Old Man Logan é um banho de sangue. Divertido? Sem dúvida! Mas não esperem algo nem próximo da obra máxima de Frank Miller.

A estória abre com um Logan envelhecido, 50 anos no futuro. Ele está casado e com dois filhos, morando em uma fazenda no deserto da California. Ele tem que pagar aluguel para a família Hulk que comanda a região como um bando de caipiras violentos. Há muito tempo Logan tornou-se um homem de paz e não utiliza mais suas garras. Falta dinheiro para o aluguel mas, por sorte, Clint Barton, o Hawkeye dos Vingadores (Gavião Arqueiro, no Brasil), cego mas ainda excelente arqueiro, passa por lá para recrutar Logan para uma viagem através dos Estados Unidos para entregar uma preciosa carga em New Amsterdam (algo como Washington D.C.). Logan aceita pois o dinheiro é bom mas vai logo avisando que não vai usar de violência. Clint diz que está bem e os dois partem para a aventura.

É mais do que óbvio que só teremos violência daí em diante. Logan tentará evitar mas não consegue completamente ser pacato. Há banhos de sangue, especialmente no último episódio, quando Logan chega de volta na Califórnia. A estória é simples e vai nos mostrando esse futuro sem heróis imaginado por Millar. O Caveira Vermelha é o presidente e o país foi dividido entre os vilões (a família Hulk comanda a Califórnia pois tomou o território do Abominável). É bacana ir descobrindo o que aconteceu com todos os heróis e há sacadas muito interessantes como colocar Las Vegas como a "Meca" de peregrinação de quem ainda tem esperanças que os heróis voltarão e a explicação do nome de um local chamado "Pym Falls".

No entanto, a estória e simples e linear, com um final bastante óbvio. Aliás, todo o desenrolar é bastante evidente e sem surpresas muito grandes mas a arte de McNiven, aqui bem exagerada, ficou muito bacana e chama atenção.

Para quem gosta de Wolverine em seu estado feral sem barreiras, vai gostar de Old Man Logan. Quem espera uma estória inteligente, cerebral, por favor vá ler novamente The Dark Knight Returns. Old Man Logan é diversão exagerada, histriônica e sanguinolenta do tipo blockbuster sem sentido.  Vale a leitura casual.

Nota: 7 de 10

Crítica de TV: Battlestar Galactica - Temporada 4.5


Comprei o Blu-Ray contendo os 10 (11 se considerarmos que o último é duplo) últimos episódios de Battlestar Galactica, série que, como sabem, eu adoro, bastando ver meus comentários sobre a Temporada 4.0. Fiquei olhando para a embalagem fechada por uma semana, sem coragem de abri-la. Finalmente, quando abri, passei a assistir um epísódio por dia, não porque a série seja ruim, longe (muuuuito longe) disso mas sim porque estava triste que ela estava acabando. A série The Wire, comentada aqui, aqui, aqui e aqui, é a mais brilhante série dramática que já vi. Battlestar Galactica é pau-a-pau com The Wire e seu fim significa o fim do que havia de melhor na televisão nos últimos 5 ou 6 anos.

Não mencionarei spoilers pois prezo muito essa série para dar chance de alguém estragar o prazer de assisti-la lendo meus comentários. O fim da primeira metade da quarta e última temporada nos mostra um final derradeiro, sem esperanças. 11 dos 12 modelos de Cylons foram revelados. Parecia que nada mais poderia acontecer. No entanto, os últimos 10 episódios mostram que eu estava errado.

Vamos falar logo sobre o final. A série acaba exatamente como eu, quando pequeno, achava que a série da década de 70 deveria acabar. Por isso, fiquei extremamente feliz e satisfeito com o que vi. Isso não quer dizer, porém, que o final é perfeito.

Daybreak, episódio rodado junto e divido em três partes, nos conta o destino final dos sobreviventes da guerra entre os Cylons e as 12 Colônias de humanos. A essa altura, pouco mais de 36 mil humanos sobrevivem às duras penas em várias naves lideradas pela astronave de combate Galactica e por seu almirante Adama (Edward James Olmos). Daybreak mistura cenas do passado de vários personagens em seus planetas natais com cenas do presente, na luta pela sobrevivência. Não fica muito claro o porquê desses flashbacks pois eles pouco impulsionam a estória, parecendo, na verdade, "encheção de lingüiça". A primeira parte da trilogia final lida com a última missão da Galactica, com seu grupo de voluntários suicidas; a segunda parte lida com a batalha final entre Cylons e humanos e a terceira com a resolução, o fechamento da estória para cada um dos personagens.

A primeira parte é boa, emocionante, mas poderia ter sido executada mais rapidamente. A segunda - a batalha - é sensacional mas rápida demais. Faltou dinheiro? A terceira parte é interessante, revela o tal final que eu sempre quis mas deixa um pouco a desejar em termos de execução e uso de um didatismo exagerado, algo ausente na série como um todo.

No meio dessa meia temporada há uma tentativa de motim em Galactica. Esses momentos, na verdade, são os pontos altos desses 10 episódios. Vemos Apollo e Starbuck lutando novamente lado-a-lado, vemos Adama tomando decisões radicais como no começo da série e vemos os Cylons tomarem decisões de alianças. Esses momentos aliados às revelações de um dos cinco Cylons finais e a revelação de quem é o 12º Cylon (escolha interessante, que surpreende mas não choca) fazem da temporada 4.5 uma ótima temporada.

O tema polêmico da religião está cada vez mais presente e o fim é fortemente religioso, com uma clara interferência de um deus ou de entidades divinas para explicar o que acontece. Isso enfraquece a série? No meu entender, não. O elemento religioso em Galactica foi uma das grandes jogadas dos criadores que contrapõem ciência e religião, tornando Baltar, o traidor, Baltar o cientista, em Messias. Fica evidente a discussão sobre o papel da tecnologia e o bem - ou mal - que ela nos traz. A tecnologia é um deus para nós hoje em dia? Ou foi um deus que criou a tecnologia?

Mesmo com um final perfeito executado de forma menos do que perfeita, Battlestar Galactica continua em meu coração como uma das duas melhores séries de televisão já feitas. Parabéns aos realizadores pela coragem de mostrarem que ficção científica pode ser mais do que armas laser e alienígenas monstruosos.

Nota da temporada 4.5: 9 de 10

Nota da série completa: 10 de 10 (não é um média)