segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Crítica de filme (em home video): Watchmen: The Ultimate Cut

Fiz meus extensos comentários sobre um dos grandes - e certamente o mais polêmico - lançamentos de 2009, o filme Watchmen, adaptação dos magníficos quadrinhos de mesmo nome escritos por Alan Moore e desenhados por Dave Gibbons. Meus comentários, com a nota que dei, podem ser vistos aqui e aqui. Também vi e fiz meus comentários sobre o desenho Tales of the Black Freighter que é uma estória de piratas paralela mas que é parte integrante dos quadrinhos. Zack Snyder, o diretor, resolveu, por questões de tamanho do filme e de enredo, deixar o desenho de fora da versão cinematográfica mas produziu-o e dirigiu-o, lançando-o separadamente em DVD e Blu-Ray.

Assim, como gostei de Watchmen e de Tales of the Black Freighter, tratei de comprar o Blu-Ray contendo o chamado "Ultimate Cut" do filme em que uma versão do diretor do filme, com cenas não lançadas no cinema, foi fundida com o desenho animado, tornando a obra final a mais próxima possível dos quadrinhos.

De fato, a versão do diretor de Watchmen, junto com o desenho animado, quase que reproduz integralmente os quadrinhos mas como costuma acontecer com versões estendidas, o resultado final é estranho e desnecessário. Filmes em que cenas que ficaram na sala de edição são re-enxertadas são muitos pois está em voga há algum tempo o lançamento de várias versões de um mesmo filme para tirar o máximo de dinheiro dos consumidores leais.

Os resultados são, no mínimo, misturados. Aliens é um filme excelente e, por incrível que pareça, tem cenas inseridas na versão do diretor que consegue melhorar ainda mais o filme. O mesmo acontece com a sutil e polêmica cena do unicórnio de papel colocada na versão do diretor de Blade Runner. Outro filme que se beneficiou bastante da inserção de novas cenas foi O Segredo do Abismo. Kingdom of Heaven, versão do diretor, é outro filme (e muito melhor) se comparado com Kingdom of Heaven, versão do cinema. Mas talvez o ápice dessas versões especiais seja mesmo a trilogia estendida de O Senhor dos Anéis. Tudo o que foi colocado (bem, quase tudo) é relevante à estória.

Listados os casos de sucesso, vale trazer os fracassos, só para marcar minha afirmação inicial de que os resultados são misturados: a trilogia clássica de Star Wars ficou uma porcaria (ok, estou exagerando) com as cenas re-inseridas e alteradas (Han definitivamente atira primeiro e NÃO conversa com um Jabba ridículo antes de fugir de Tatooine!); Alien não se beneficiou em nada das novas cenas, incluindo a polêmica cena dos sobreviventes; King Kong (de Peter Jackson) só conseguiu ficar mais arrastado em sua versão ampliada; os Máquinas Mortíferas tiveram cenas ridículas recolocadas; Terminator 2 tem um final bem idiota na versão alterada (ok, é uma versão alternativa mas vocês entenderam); Highlander 2, um dos filmes mais dolorosamente ridículos da História do Cinema continua igual na amalucada versão do diretor; E.T. não precisava daquela humilhante cena na banheira e dos walkie-talkies no lugar de armas e por aí vai.

Watchmen era um filme que devia ter ficado como foi lançado no cinema. Sua longa duração original, de 162 minutos, consegue chegar a impressionantes 215 minutos. Sim, isso mesmo, 3 horas e 35 minutos. E vejam, não é o tamanho que atrapalha pois a versão estendida de O Retorno do Rei tem 252 minutos e não tenho nada a reclamar.

Já Watchmen tem várias cenas adicionais e todo o desenho animado que comentei acima (de 26 minutos no total) inserido em vários segmentos, exatamente como nos quadrinhos.

Vamos começar pelo desenho.

Como obra separada, Tales of the Black Freighter é um bom desenho animado de teor extremamente adulto. No entanto, exatamente para tornar possível a "venda" do desenho como uma obra separada, Zack Snyder optou por traços modernos e cores vibrantes bem fora da paleta de cores dos quadrinhos e do filme Watchmen. Assim, cada vez que somos jogados na estória do Cargueiro Negro, há a necessidade de uma verdadeira readaptação ocular. Tudo muda. Cor, som, tom, tempo. Isso faz com que a meta-estória (pois Cargueiro comenta o que se passa em Watchmen) seja de difícil acompanhamento por quem não está familiarizado com os quadrinhos. É difícil, logo de cara, ver os paralelos entre a estória de piratas e o poder que leva à loucura de um dos personagens (estou tentando evitar os spoilers). Na verdade, Cargueiro Negro serve como uma distração não muito bem vinda para a séria narrativa de Watchment.

E bem que Zack Snyder foi diligente. Ele mais ou menos inseriu a estória secundária nos momentos exatos dos quadrinhos e se deu ao trabalho de filmar cenas "de entrada" e "de saída" do desenho, que na verdade, é uma estória em quadrinhos que um personagem lê encostado em uma banca de jornal. O personagem está lá em destaque no Ultimate Cut, assim como a banca e a revista. No entanto, a separação entre as duas obras é evidente demais para passar despercebido ou com a fluidez necessária para a estória principal se desenvolver.

Agora vamos falar das cenas adicionais.

O que Zack Snyder fez foi jogar sardinhas para os fãs que, afinal de contas, foram os verdadeiros responsáveis por esse filme acontecer. Ele tratou de filmar o maior número de pequenas cenas que, basicamente, reproduzem diálogos inteiros dos quadrinhos. Nenhuma das inserções é relevante para a trama, absolutamente nenhuma. Na verdade, somente os fãs dos quadrinhos perceberão a maioria delas, muitas das quais envolvem, obviamente, o anti-herói preferido da galera, Rorschach.

Alguns podem dizer que as duas maiores cenas enxertadas, quais sejam, a conversa estendida de Hollys Mason com Dan (os dois Nite Owls) e a cena do ataque a Hollys Mason. Bom, a conversa é bacana e tal mas, de novo, é só material para fã insano dos quadrinhos. A outra cena, do ataque a Hollys Mason, é até interessante e muito bem feita mas, dentro do grande esquema das coisas, ela pouco afeta o filme. Se apenas essa cena tivesse sido recolocada, estaria bem feliz com a versão do diretor.

Assim, apesar de ter gostado muito de Watchment, fico com a versão do cinema mais o desenho Tales of the Black Freighter separados. Os dois juntos mais as cenas novas do filme só atrapalham o andamento da estória e diminuem o prazer que é ver Watchmen nas telas. Na verdade, o Ultimate Cut, no final das contas, só me fez admirar ainda mais Zack Snyder pois, com tanto material nas mãos, ele soube montar muito bem o corte que efetivamente lançou nos cinemas.

Nota (do Ultimate Cut): 6,5 de 10

4 comentários:

  1. Fiquei na dúvida... Esse "The Ultimate Cut" possui alguma cena a mais que o "director's cut" além da estória do cargueiro?

    ResponderExcluir
  2. João, esclarecendo: O "Ultimate Cut" é o "Director's Cut" adicionado das cenas do Cargueiro. No entanto, assim como nos quadrinhos, Zack Snyder filmou cenas de "entrada" e "saída" para a estória dos piratas e, tecnicamente, essas são cenas a mais que não estão no "Director's Cut". Mas é pouca coisa e que só tem relevância em vista da inserção do Cargueiro.

    ResponderExcluir
  3. Já eu, achei que ficou muito bom e recomendo que assistam. Que for fã e quadrinhos e um bom filme, que inclusive mistura conceitos da Nova Ordem Mundial, precisa assistir a esse filme.

    ResponderExcluir

Pensem antes de escrever para escreverem algo com um mínimo de inteligência. Quando vocês escrevem idiotices, eu apenas me divirto e lembro de Mark Twain, que sabiamente disse "Devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles, o resto de nós não seria bem sucedido."