sábado, 28 de fevereiro de 2009

Crítica de livro: My Last Sigh de Luis Buñuel

Luis Buñuel é um brilhante cineasta, um de meus diretores favoritos. Pouco conhecia de sua vida e, quando achei o livro My Last Sigh em meus passeios virtuais pela loja Amazon.com, tratei de comprá-lo. Não creio que exista um versão em português, o que é uma pena. 

A obra foi escrita por Buñuel em 1982 e seu título - Meu Último Suspiro - parece uma macabra previsão do futuro, já que o artista veio a falecer, com 83 anos, em 1983. Trata-se de uma autobiografia mas não uma autobiografia comum. Buñuel segue por alto uma determinada cronologia, mas ela não é determinada a ferro e a fogo. O autor dá pulos de algumas décadas e volta para falar de épocas passadas com grande facilidade: é como se fosse alguém lembrando de seu passado de maneira natural.

O livro tem uma característica importante: a franqueza. Normalmente, em autobiografias, o autor costuma repaginar sua vida e dificilmente fala mal - ou só o que efetivamente pensa - sobre pessoas de seu convívio. Não é o caso aqui. Buñuel descasca vários grandes artistas contemporâneos, com especial destaque a Salvador Dali que basicamente o traiu, chamando Buñuel de comunista em pleno Mcartismo nos Estados Unidos. Buñuel não fala mal de Dali por vingança; apenas retrata-o como um vendido, um homem fundador do movimento surrealista mas que largou suas raízes para se vender para quem oferecesse mais dinheiro. 

Outro destaque é o que Buñuel fala de Garcia Lorca. Lorca é adorado por Buñuel mas como pessoa, não como autor de peças de teatro. Ler o diretor falando mal de peças consagrada de Lorca é muito interessante pois pouca gente tem coragem de atacar obras reconhecidamente adoradas pela crítica especializada.

O mesmo acontece com as obras de Breton, com a pessoa de Jorge Luis Borges, com as obras de Hemingway e por aí vai. 

No entanto, há que se frisar que Buñuel não faz isso por mal ou por inveja. São apenas suas opiniões sinceras e é extremamente divertido lê-las. Outra característica interessante do livro é que, apesar de ser a autobiografia de um cineasta, ele não fala muito de seus filmes. São pinceladas aqui e ali apenas, normalmente falando dos defeitos e do quanto ele não gostou de determinada obra que fez, e só. Seu foco é no movimento surrealista, nas memórias de infância e suas experiências com a Espanha pré-Franco e durante a ditadura franquista. 

Não faltam momentos engraçados, como quando indagado por dois repórteres se ele achava que ganharia o Oscar de melhor filme estrangeiro por O Discreto Charme da Burguesia, ele respondeu: "É claro. eu já paguei os 25 mil dólares que eles queriam. Os Americanos podem ter suas fraquezas mas eles cumprem suas promessas." A afirmação (uma brincadeira), claro, foi para as manchetes e escandalizou a todos, especialmente a Academia. No entanto, o filme acabou mesmo ganhando a estatueta dourada.

Trata-se de um livro imperdível.

Nota: 9 de 10

Crítica de cinema (em DVD): Star Wars: The Clone Wars

Resisti ao máximo que pude mas acabei cedendo. Sou fã de Star Wars desde que me conheço como gente, fiquei desapontado com a nova trilogia mas não deu para segurar mais tempo e acabei assistindo The Clone Wars, basicamente os primeiros capítulos de uma série homônima animada, que foram lançados diretamente no cinema como se fossem um filme.

O império de Lucas já havia licenciado seu material para a criação de uma micro série animada com quase o mesmo nome (Star Wars: Clone Wars) por parte do brilhante russo Genndy Tartakovsky, autor de Samurai Jack. Essa micro série se passava imediatamente após o Episódio II, no começo das Clone Wars e era genial (melhor que os Episódios I, II e III juntos).

A nova série continua essa estória mas a animação mudou. Saem o traços originais de Tartakovsky e entra uma animação - na verdade uma desanimação - computadorizada bem normalzinha, quase ruim. O problema não é a estilização dos personagens. Isso é o de menos pois os desenhos de Tartakovsky eram bem estilizados também. O cerne, aqui, é a movimentação do personagens em cenas mais lentas. Eles parecem marionetes duras, sem vida. Bom, na verdade eu sempre disse que se George Lucas filmasse teatro de bonecos de dedo e chamasse de Star Wars, ele também ganharia dinheiro (Ops! Isso já foi feito, vide Thumb Wars de Steve Oderkerk aqui.).

Ultrapassada a questão da animação que, para uma série de televisão, não um filme de cinema, é passável (mas que o nariz do Anakin é para lá de estranho, ah isso é), vamos para a trama. O filho de Jabba the Hutt foi sequestrado e Anakin Skywalker junto com sua Padawan Ahsoka Tano (o pessoal da Lucasfilm é craque em criar nomes horríveis) passam os 98 minutos da animação tentando devolvê-lo ao pai. A trama vai se repetindo: Anakin briga com Ahsoka mas Ahsoka está certa e os dois se metem em uma luta; Obi-Wan vem salvá-los no último minuto; Ahsoka e Anakin se desentendem mas se juntam para brigar contra um inimigo maior; no último minuto o Comandante Rex vem ao resgate e por aí vai. Tudo isso com os dois carregando um deplorável monstrinho bebê na mochila... Enquanto isso, Jabba é mostrado como um completo "múcio", caindo na conversa ora dos Jedi, ora dos Sith, sem nunca formar uma opinião. Definitivamente não é o mesmo personagem que vimos no Episódio VI (sim, pois aquela cena triste de um Jabba de CGI no alterado Episode IV não conta).

Enfim, desenhos fracos para uma estória fraca mas que, lá no fundo, bem lá no fundo mesmo, pode ter um potencial para uma série de TV razoavelzinha.

Nota: 3 de 10

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Comentário para reflexão: as refilmagens

Acabei de ler que está nos planos de Hollywood o lançamento dos remakes de The Neverending Story (A História Sem Fim) e Total Recall (O Vingador do Futuro). Há pouquíssimo tempo fomos testemunhas dos lançamentos dos remakes de Friday the 13th (Sexta-Feira 13), Halloween, The Day the Earth Stood Still (O Dia em que a Terra Parou), The Poseidon Adventure (O Destino do Poseidon), King Kong, War of the Worlds (Guerra dos Mundos), Willy Wonka and the Chocolate Factory (A Fantástica Fábrica de Chocolate), Pink Panther (A Panter Cor-de-Rosa), The Hitcher (A Morte Pede Carona) e The Hills Have Eyes (Viagem Maldita). Se formos mais para trás um pouco, lembraremos do remake de Psycho (Psicose), de The Planet of the Apes (O Planeta dos Macacos), de Wings of Desire (Asas do Desejo), de Sabrina, de The Ladykillers (Matadores de Velhinhas), The Fly (A Mosca) e muitos outros.

Se pensarmos em "ocidentalização" de filmes orientais, logo nos vêm à cabeça as refilmagens de The Seven Samurai (Os Sete Samurais, refilmado como The Magnificent Seven ou Sete Homens e um Destino), Sanjuro (refilmado como A Fistful of Dollars ou Por Um Punhado de Dólares e Last Man Standing ou O Último Matador), Ringu (O Chamado) e Infernal Affairs (Conflitos Internos, refilmado como o oscarizado The Departed ou Os Infiltrados). Até mesmo o filme espanhol de terror[REC], de 2007, foi refilmado como Quarantine (Quarentena), em 2008.

E olha que eu nem estou contando com as refilmagens de Insomnia, Abra sus Ojos (que se tornou Vanilla Sky, com o Tom Cruise), Manhunter (que se tornou Red Dragon), Nikita, La Cage aux Folles, Solaris, The Italian Job, The Day of the Jackal, Cape Fear, Get Carter, The Last Man on Earth (refilmado como The Omega Man e, mais recentemente, como I am Legend) e muitos outros. Também não estou contando com conversões de séries de TV em filmes de cinema como S.W.A.T., Shaft, Bewitched (A Feiticeira), Lost in Space e o vindouro The Land of the Lost, entre outros. E, claro, não vou nem falar em continuações.

O ponto é: precisamos desse monte de refilmagens? Não estaríamos melhor criando obras novas ou adaptando obras que nunca antes foram para a telona do cinema? Há uma crise de originalidade?

Bom, a resposta é puramente econômica. Todos sabem que as refilmagens acontecem aos borbotões atualmente por que elas, em tese, tem mais chances de ter boas bilheterias pois ela se beneficiaria, em princípio, do sucesso construído pela versão original. Esse é o mesmo princípio das continuações e prequels. Não há, realmente, como escapar dessa lógica.

Ocorre que, hoje, essa lógica virou desculpa para preguiça. Sob a desculpa de "não alterar o amado original" os produtores partem para refilmagens que são quase que reproduções fiéis dos filmes que os antecederam. Vejam o exemplo da refilmagem do clássico A Morte Pede Carona (The Hitcher), que comentei em um post mais antigo aqui. O que esse remake trouxe ao mundo? O mesmo se aplica à refilmagem imbecil do clássico de Hitchcock Psycho em que o ótimo diretor Gus Van Sant, em uma decisão "artística" absolutamente cretina, refilmou quadro-a-quadro a obra original, só que, no lugar da fotografia em preto-e-branco, se deu ao luxo de usar cores (?!?!?). Em que esse tipo de remake agrega? Tenho até minhas dúvidas se filmes como esses fazem dinheiro de verdade. The Hitcher (o novo) fez, no total, pouco mais de 25 milhões de dólares. Psycho, por sua vez, que custou 60, faturou 37 milhões. Ok, escolhi dois exemplos do pior escalão mas vejam como o interesse geral é pequeno: ainda que o recente Sexta-Feira 13, que custou 19, tenha feito impressionantes quarenta e tantos milhões no primeiro fim-de-semana nos EUA, a queda de faturamento para o segundo fim-de-semana foi de ainda mais impressionantes 81%! É, o filme até já fez dinheiro e com a sobrevida em DVD vai fazer mais ainda, mas haja paciência...

Acontece que esse bombardeio de remakes completamente desnecessários (alguém realmente, do fundo do coração, quer assistir uma refilmagem de Total Recall???) acabam desacreditando o sistema. Filmes novos, mais originais que uma refilmagem, por pior que sejam, injetam vida à Hollywood, pois mexem com o sistema e alguma idéia boa, nova, interessante, acaba saindo (ok, ok, nada saiu de Battlefield Earth mas taí uma exceção para confirmar a regra). Refilmagens, via de regra, não agregam em nada.

Evidentemente, como dito, toda regra comporta exceção e alguns exemplos da lista acima se destacam. The Fly, de 1986, é um excelente filme de horror, que se poderia taxar de anos luz superior ao original camp de décadas anteriores. Exemplo bem mais recente, não se pode afastar a qualidade de The Departed, de Scorcese, que refilmou o também bem recente Infernal Affairs, de 2002. Mas são poucos os que realmente merecem nota. Também são exceções os filmes refilmados pelo próprio diretor do original, como fizeram Hitchcock com The Man Who Knew Too Much e Yasujiro Ozu, com Ukigusa (Floating Weeds ou Ervas Flutuantes). Nesses casos, são os criadores tentando superar a própria criação, algo muito justo e perfeitamente compreensível mesmo que eles, porventura, venham a não conseguir.

Mas refilmar por refilmar, na esperança de ganhar uns trocados a mais é dose. Tanto livro, histórias em quadrinhos e fatos históricos por aí para serem adaptados (fora o que se pode imaginar e criar só se concentrando um pouco) e a indústria prefere repaginar obras, chegando ao ponto de conseguirem ridicularizar o próprio original (o novo Pantera Cor-de-Rosa é de chorar de ruim e olha que o Steve Martin é, em minha opinião, um excelente comediante, vide Os Safados para ficar só nesse exemplo).

O problema é que nós também somos culpados. Nós damos trela a essa porcariada toda que sai pelos esgotos de Hollywood (e olha que sou um grande defensor do sistema hollywoodiano em geral) e vamos ao cinema, alugamos ou compramos o DVD e tudo mais. Nós alimentamos um sistema que é natimorto quando feito em excesso. Obviamente que não defendo nenhuma forma de boicote - longe disso, pois eu mesmo sou o primeiro a querer experimentar esses remakes, tudo bem que, na maioria das vezes, só em DVD - mas fico triste ao ver que The Texas Chainsaw Massacre de 2003, refilmagem do clássico de 1974, fez mais de 100 milhões de dólares só nas bilheterias e custou menos de um décimo disso.

É, os números dos poucos casos de sucesso talvez justifiquem os muitos fracassos. Ok, vamos concluir, então, que não tem jeito mesmo e que os remakes continuarão, gerando, certamente, remakes de remakes que, sem dúvida alguma, multiplicar-se-ão em remakes de remakes das refilmagens e assim por diante. Seria bacana se não fosse, mas é. Não adianta dar murro em prego. Eu, se produtor fosse, certamente quereria ganhar uns trocados fáceis a mais. É a vida, não tem como mudar.

No entanto, regras poderiam ser criadas. Seguem 10 sugestões de um Metido a Crítico:

1. Remakes só de obras de mais de 20 anos do lançamento do original;

2. Se tiver menos de 20 anos, só se for EFETIVAMENTE, uma releitura completa da obra original;

3. Se tiver menos de 20 anos e não for uma releitura do original, faça um filme para ser lançado direto em vídeo doméstico como, por exemplo, S. Darko, continuação de Donnie Darko. Custa menos, tem menos chance de ser um fracasso e não enche os fins-de-semana de lançamentos insípidos;

4. Re-escrevam de verdade o filme original (não achem que trocar o sexo de um dos personagens cai na categoria de "re-escrito");

5. Tentem trocar o gênero do filme original, saindo mais para o lado da homenagem do que da refilmagem;

6. Acrescentem elementos que agreguem alguma coisa à trama. Por exemplo, façam como Peter Jackson fez ao focar no "romance" entre o macaco e Ann Darrow no King Kong de 2005, não como John Guillermin fez ao trocar o Empire State Building pelas Torres Gêmeas no King Kong de 1976;

7. O filme original deve ter uma estória muito boa, não apenas razoável;

8. O filme original não pode ser tão icônico e famoso ao ponto que já tenha sido efetivamente visto por enorme parcela da população. Por exemplo, apesar de Star Wars - Episode IV ter mais de 20 anos, ter uma estória muito boa e tudo mais, todas as pessoas do mundo que vão ao cinema normalmente (ou será que estou exagerando?) já o assistiram de uma forma de outra, nem que seja em pedaços aqui e ali. Uma refilmagem não serviria de nada;

9. Tenham certeza que o filme original teria seus conceitos expandidos e/ou sacramentados e/ou rejuvenescidos por uma refilmagem;
10. Fazer um refilmagem que seja no mínimo tão boa quanto a original não é aceitável. O objetivo tem que ser, obrigatoriamente, criar algo melhor que original. Assim, por favor, deixem clássicos que considerem insuperáveis de lado e procurem refilmar algo que, verdadeiramente, em sua opinião, possa ser superado.

Dito tudo isso, que venham as refilmagens de Robocop, The Birds, Atack of the Killer Tomatoes, Karate Kid, Arthur (sim, Arthur, o Milionário Sedutor!!!), They Live, Buck Rogers, V, Hellraiser, Poltergeist, Back to School, Footloose, Fame, Red Dawn, Short Circuit, Rashomon, Captain Blood e muitos outros (todos os mencionados estão em alguma fase de produção ou, ao menos, os rumores assim afirmam)...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Crítica de cinema: Valkyrie (Operação Valquíria)

Valkyrie (Operação Valquíria) é um filme que tem contra si o fato de todos nós sabermos seu desfecho. Mesmo aqueles que não fazem idéia do que foi a tal Operação Valquíria e quem foi o Coronel Claus von Stauffenberg sabem que Hitler não morreu em atentado algum mas sim por seu próprio punho, covardemente, quando finalmente percebeu o que já era óbvio há um ano: havia perdido a guerra.

Assim, já começando com enorme desvantagem, Bryan Singer, um competentíssimo diretor, que nos trouxe The Usual Suspects, X-Men 1 e 2 e Superman Returns (esse último bem fraquinho mas tecnicamente muito bom), tenta compensar com a união de um elenco estrelar: Tom Cruise é von Stauffenberg, Bill Nighy é o General Olbricht, Tom Wilkinson é o General Fromm, Kenneth Branagh faz uma ponta como o Major-General von Tresckow e Terence Stamp é o General Beck. Outra maneira que Singer encontrou para criar suspense e tentar compensar pelo final já claro foi se concentrando nos preparativos técnicos para o atentado e, principalmente, no que acontece após o atentado. 

Aliás, vale destacar que o que vem depois da fracassada tentativa de se matar Hitler é o que torna o filme verdadeiramente tenso. Mesmo aqueles que já ouviram falar de von Stauffenberg, normalmente sabem apenas que ele tentou matar Hitler. Poucos conhecem de verdade o verdadeiro plano do militar, que não era simplesmente matar Hitller. Ele queria permitir uma transição de poder tranquila na Alemanha, usando um furo no próprio plano de Hitler para permitir a continuidade de sua Alemanha, em caso de sua morte. Assim, jogando com as operações militares relâmpago que se sucederam ao atentado, Singer é bem sucedido em emprestar suspense a um filme que seria bem diferente se ele tivesse se concentrado no atentado apenas.

E Cruise como o personagem título, como está? Bem, Tom Cruise é Tom Cruise. O cara é tão famoso que fica difícil para os espectadores se abstraírem da persona de Tom Cruise e verdadeiramente acreditarem que ele é von Stauffenberg. Facilita um pouco o fato do personagem ter algumas características marcantes como um tapa olho, uma mão a menos e 3 dedos a menos na outra mão. Tudo isso permite que vejamos um vislumbre de von Stauffenberg por detrás de Ethan Hunt ou de Maverick, mas é só. Os demais atores - bem veteranos - estão excelentes em seus respectivos papéis, com destaque para Bill Nighy (ele é sempre muito bom) e Tom Wilkinson. 

O maior defeito do filme, porém, é não deixar às claras as motivações das pessoas por detrás da Operação Valquíria. É lógico que todos eles concordavam que Hitler tinha que sair do poder de um jeito ou de outro e é claro que eles queriam acabar com a guerra. No entanto, essa tentativa de assassinato se deu apenas em 1944, quando a Alemanha nazista já estava moribunda. Fica bem mais "fácil" tentar um golpe quando o rumo da guerra já não está mais sendo aquele que se imaginava. Não estou aqui dizendo - até porque não sou especialista em história - que o grupo liderado por von Stauffenberg não tinha motivos nobres. Até deveriam ter mas não posso crer que os principais (von Stauffenberg, Beck e Olbricht pelo menos) eram tão rasos ao ponto de não terem conflitos internos. O que quero dizer é que os roteiristas e o diretor, talvez exatamente para não passar qualquer mensagem de ambiguidade, apagaram dos personagens qualquer contradição ou dilema moral. Também não estou dizendo que von Stauffenberg não foi um herói - claro que foi - mas ele fica parecendo um super-herói nas mãos de Singer, na linha do seu Superman, e a falta de dimensão do personagem distrái muito. 

No entanto, posso estar falando besteiras enormes sobre a ambiguidade moral e tenho que dar, portanto, um desconto a Singer. O filme é bom. Poderia ser melhor? Claro que sim, mas o que temos é um trabalho competente, que consegue criar suspense mesmo em uma situação que, em mãos mais inábeis, tornar-se-ia um filme com tom de documentário.

Nota: 8 de 10

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Crítica de DTV: Next Avengers

Lançamentos DTV (direct-to-video ou, em português, direto para vídeo) nunca estiveram tão quentes nos Estados Unidos. Essa onda começou com a Disney lançando continuações de seus clássicos diretamente em DVD, como Cinderella 2 e 3, Pocahontas 2 e outros vários. Aos poucos, essa onda foi pegando pois a produção é mais barata e, portanto, com chances de ser mais lucrativa. Hoje temos coisas desnecessárias como Lost Boys 2 e até o vindouro S. Darko, uma escabrosa continuação de Donnie Darko (o trailer, por si só, é horrendo).

Mas não estou aqui para falar de uma continuação mas sim de mais um desenho direto para vídeo da Marvel: Next Avengers. Não se trata de uma adaptação de uma HQ mas sim de um conceito e personagens completamente novos. Por favor, entendam "novos" aqui como não existentes em HQ, não como algo original ou sem paralelo pois Next Avengers, apesar de agradar, está muito longe disso.

O desenho, de 78 minutos de duração, se passa no futuro, quando os Vingadores (Avengers), tendo derrotado todos os seus inimigos, passaram a cuidar de suas vidas particulares gerando, com isso, filhos. No entanto, a paz dos Vingadores acaba quando o robô Ultron retorna e mata o Capitão América, a Viúva Negra, o Pantera Negra, a Vespa e Hank Pym (o Gigante ou Golias). Tony Stark pega as crianças e se refugia em local secreto, onde as cria para serem quase que cópias de seus respectivos pais. São eles James Rogers, filho do Capitão América com a Viúva Negra; Azari, filho do Pantera Negra; Pym, fiho da Vespa e Hank Pym e Torunn, filha de Thor. Uns 12 anos se passam e alguns problemas levam as crianças a um embate direto com Ultron, que já dominou metade da Terra, eliminando todos os seus heróis.

O desenho é divertimento descompromissado, com um roteiro com pontas soltas o suficiente para exigir uma parte 2 ou, talvez até, um série de televisão. Há material ali realmente interessante para quem gosta dos Vingadores. 

Nota: 7 de 10

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A cerimônia do Oscar repaginada: meus comentários


Com a audiência diminuindo a cada ano, os organizadores da cerimônia de entrega dos Academy Awards (Oscar) decidiram tentar algo novo esse ano e eu achei que eles conseguiram.

Primeiro, colocaram um grande astro para apresentar (Hugh Jackman) e não mais apresentadores de Talk Shows. Jackman é um cara super flexível pois, além de fazer filmes em que seu personagem, via de regra, é durão, já atuou em musical da Broadway fazendo papel de homossexual. Em outras palavras, Jackman está acostumado com o palco e, com isso, comandou um show interessante, em que participou de dois musicais, um de abertura e outro celebrando os musicais. O primeiro foi bem bacana e dinâmico mas o segundo foi bem desnecessário.

Outra alteração que achei interessante foi a entrega dos prêmios de acordo com a fase de criação de um filme, começando no roteiro e acabando na pós-produção. Ficou bem legal e didático. Não entendi, porém, porque eles mudaram a ordem de entrega dos prêmios de diretor e ator/atriz. Normalmente, diretor vem logo antes de filme mas, dessa vez, resolveram colocar o prêmio antes dos de atriz e de ator para, em seguida, apresentar o de melhor filme. Nada que comprometa o show mas achei estranho.

Uma modificação que não gostei muito foi a entrega dos prêmios de ator/ator coadjuvante e atriz/atriz coadjuvante por meio de 5 atores ou atrizes que já ganharam os respectivos prêmios. Cada ator/atriz falou sobre um dos candidatos e isso ficou arrastado.

Outro ponto que vale menção é a manutenção de alguns atores para a entrega de vários prêmios seguidos. Will Smith, por exemplo, entregou direto os de montagem, edição de som, mixagem de som e efeitos visuais. Isso tornou o programa bem mais célere.

Por fim, gostei também da integração entre palco e platéia, com percussionistas no meio da platéia, Hugh Jackman puxando Anne Hathaway para o meio do palco etc. Ficou bem dinâmico, apesar de nada daquilo ter sido improviso.

Sobre as entregas dos prêmios, não houve surpresa alguma nas categorias principais. Slumdog papou todas as estatuetas e Benjamin Button ficou só com 3 prêmios técnicos, o que foi bem justo. Foi bonito ver a família de Heath Ledger subir no palco para agradecer o prêmio póstumo ao seu filho e as lágrimas nos olhos dos atores na platéia e foi divertido ver todo mundo de Slumdog - até papagaio e periquito - invadir o palco para receber o prêmio de melhor filme.

Aprovadas as alterações!

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Corrida do Oscar: a lista completa de indicados e ganhadores [ATUALIZADO]

Segue a lista abaixo todas as indicações do Oscar e um asterisco em que eu acho que deveria ganhar, em minha modesta opinião, e dois asteriscos em quem eu acho que vai ganhar e mais alguns comentários sobre quem ficou de fora (nas categorias em que posso dar pitaco, claro). Sobre previsões, aviso logo que sou péssimo mas mesmo assim eu tento. Depois da cerimônia, eu atualizo com os ganhadores.

[Atualizado: Marquei em vermelho os ganhadores. Não houve surpresas. Slumdog Millionaire, como já esperado, foi o grande vitorioso da noite, com 8 estatuetas. levou todos os prêmios que concorreu, com exceção de um técnico. Benjamin Button chegou em um distante segundo lugar, com 3 prêmios mas todos técnicos. Milk e The Dark Knight ganharam 2 Oscars cada um. Das 19 previsões que fiz, acertei 15. Nada mal.]

Melhor Filme
Quem Quer Ser Um Milionário? * **
Frost/Nixon
O Curioso Caso de Benjamin Button
Milk - A Voz da Liberdade
O Leitor
Ficaram de fora injustamente: The Dark Knight, Revolutionary Road e The Wrestler. Diria, ainda, que Wall-E merecia uma vaga aqui e não só em melhor animação.
Melhor diretor
David Fincher - O Curioso Caso de Benjamin Button
Ron Howard - Frost/Nixon *
Gus Van Sant - Milk - A Voz da Liberdade
Stephen Daldry - O Leitor
Danny Boyle - Quem Quer Ser Um Milionário? **
Ficaram de fora injustamente Darren Aronofsky por The Wrestler, Sam Mendes por Revolutionary Road e Chris Nolan por The Dark Knight
Melhor ator
Mickey Rourke - O Lutador **
Sean Penn - Milk - A Voz da Liberdade
Frank Langella – Frost/Nixon *
Brad Pitt - O Curioso Caso de Benjamin Button
Richard Jenkins - The visitor
Melhor atriz
Meryl Streep – Dúvida
Kate Winslet – O Leitor * **
Anne Hathaway – O Casamento de Rachel
Angelina Jolie – A Troca
Melissa Leo - Rio Congelado
Kate Winslet concorre nessa categoria pelo filme errado. Deveria ser por seu papel em Revolutionary Road.
Melhor ator coadjuvante
Heath Ledger - Batman – O Cavaleiro das Trevas * **
Josh Brolin - Milk - A Voz da Liberdade
Robert Downey Jr. - Trovão Tropical
Philip Seymour Hoffman - Dúvida
Michael Shannon - Foi Apenas um Sonho
Melhor atriz coadjuvante
Amy Adams - Dúvida
Penélope Cruz - Vicky Cristina Barcelona
Viola Davis - Dúvida
Taraji P. Henson - O Curioso Caso de Benjamin Button **
Marisa Tomei - O Lutador *
Melhor Animação Longa-Metragem
Bolt - Supercão
Kung Fu Panda
Wall-E * **
Melhor Roteiro Adaptado
O Curioso Caso de Benjamin Button
Dúvida
Frost/Nixon *
O Leitor
Quem Quer Ser Um Milionário? **
Melhor Roteiro Original
Rio Congelado
Simplesmente Feliz
Na Mira do Chefe
Milk - A Voz da Liberdade **
Wall-E *
Acho que The Wrestler deveria ter entrado aqui também.
Melhor Direção de Arte
A Troca *
O Curioso Caso de Benjamin Button **
Batman – O Cavaleiro das Trevas
A Duquesa
Foi Apenas um Sonho
Melhor Fotografia
A Troca *
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman – O Cavaleiro das Trevas
O Leitor
Quem Quer Ser Um Milionário? **
Melhor Figurino
Austrália
O Curioso Caso de Benjamin Button * 
A Duquesa **
Milk - A Voz da Liberdade
Foi Apenas um Sonho
Melhor Filme Estrangeiro
The Baader Meinhoff Complex (Alemanha)
Entre os Muros da Escola (Entre les Murs - França)
Okuribito (Japão)
Revanche (Áustria)
Waltz with Bashir (Israel) **
Melhor Documentário
The Betrayal (Nerakhoon)
Encounters at the End of the World
The Garden
Man on Wire
Trouble the Water
Melhor Documentário Curta-Metragem
The Conscience of Nhem En
The Final Inch
Smile Pinki
The Witness
From the Balcony of Room 306
Melhor Montagem
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman – O Cavaleiro das Trevas
Frost/Nixon *
Milk - A Voz da Liberdade
Quem Quer Ser Um Milionário? **
Melhor Maquiagem
O Curioso Caso de Benjamin Button * ** 
Batman – O Cavaleiro das Trevas
Hellboy II - O Exército Dourado 
Trilha Sonora Original
O Curioso Caso de Benjamin Button
Defiance
Milk - A Voz da Liberdade
Quem Quer Ser Um Milionário? * **
Wall-E
Melhor Canção Original
"Down to Earth" - Wall-E * **
"Jai Ho" - Quem Quer Ser Um Milionário?
"O Saya" - Quem Quer Ser Um Milionário?
Melhor Curta Animado
La Maison en Petits Cubes
Lavatory - Lovestory
Oktapodi
Presto
This Way up
Melhor Curta Live-Action
Auf Der Strecke (On the Line)
Manon on the Asphalt
New Boy
The Pig
Spielzeugland (Toyland)
Melhor Edição de Som
Batman – O Cavaleiro das Trevas
Homem de Ferro * 
Quem Quer Ser Um Milionário? **
Wall-E
O Procurado
Melhor Mixagem de Som
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman – O Cavaleiro das Trevas
Quem Quer Ser Um Milionário? **
Wall-E *
O Procurado
Efeitos Visuais
O Curioso Caso de Benjamin Button **
Batman – O Cavaleiro das Trevas
Homem de Ferro *
Faltou Incredible Hulk aqui. 

Corrida do Oscar: Frost/Nixon

Já tive boas surpresas antes no último filme que vi da lista de concorrentes ao Oscar de Melhor Filme. Lembro-me nitidamente quando fui muito a contra gosto assistir Field of Dreams (Campo dos Sonhos) com Kevin Costner, achando que seria uma porcaria e acabei achando-o o melhor concorrente de 1989 (os outros eram Driving Miss Daisy, que acabou ganhando injustamente, Born on the Fourth of July, Dead Poets Society e My Left Foot). 

Algo semelhante aconteceu agora com Frost/Nixon. Sabia que era um filme sobre política, sabia que era um filme dirigido por Ron Howard, um competente mas muito burocrático diretor, que nos trouxe o péssimo The Da Vinci Code e os tecnicamente bons mas não excepcionais Cinderella Man, Apollo 13, Ransom e A Beautiful Mind. Assim, estava esperando um filme fraco, documental, sem nenhum "tchan".

No entanto, acabei encontrando outro Field of Dreams.

Não que os filmes sejam semelhantes. Longe disso. Frost/Nixon é, de fato, um filme fortemente político, dependente de longos diálogos e um certo grau de conhecimento do governo de Nixon, especialmente do escândalo Watergate, que acabou levando-o a renunciar. Trata-se da estória da histórica entrevista que Nixon concedeu ao repórter David Frost, em 1977. Frost era um "show man", responsável por um programa televisivo na Austrália tão raso quanto piscina Tony. Algo clicou na cabeça dele algum dia e ele resolver correr atrás de uma longa entrevista de 4 dias com o ex-presidente Richard Nixon. Muito lutou e acabou conseguindo (mas não foi de graça já que Nixon cobrou regiamente por isso).

A estória tinha tudo para se arrastar desesperadoramente nas mãos de Ron Howard mas creio que o diretor achou sua verve e criou uma obra sensacional, que torna as entrevistas verdadeiros shows de suspense e tensão. Frost, completamente desacreditado e basicamente sem nenhum suporte financeiro para bancar o programa, inicia um embate épico com Nixon, pessoa extremamente inteligente, capaz de manipular cabeças. O que começa sendo um passeio no parque para Nixon, toma contornos mais complexos adiante.

David Frost é vivido por Michael Sheen, que viveu o Tony Blair em The Queen. Ele está muito bem como o repórter fanfarrão que se torna um entrevistador de grande naipe. No entanto, o filme é de Frank Langella, que faz o ex-presidente. Ele tem uma atuação sensacional, uma das melhores que vi nos últimos anos: primeiro, consegue espelhar Nixon sem ser caricato e, segundo, consegue dar nuances ao papel que, mesmo sem falar, passa o sentimento que quer passar. Sua maneira de andar, seus trejeitos, sua voz, tudo conspira para mostrar um grande ator em movimento. Por incrível que pareça, Langella nunca concorreu ao Oscar. Essa é a primeira vez e definitivamente merece.

Ron Howard caprichou nos close-ups, na câmera perfeitamente colocada e nas transições. Criou um filme do nada basicamente (era uma peça de teatro no original), algo que efetivamente deixa o espectador suando de tensão em sua cadeira (ok, talvez isso seja um exagero mas vocês entenderam o que quero dizer, não?). Será que Nixon vai "jantar" Frost? Será que Frost tem algo na manga para colocar o presidente de joelhos? Mesmo quem conhece a entrevista e quem sabe o que aconteceu vai ficar surpreso como Howard nos manipula e nos deixa vidrados na tela. Palmas para ele!

Ah, esqueci de dizer que Frost/Nixon concorre a 5 estatuetas douradas: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor Ator (Langella) e Melhor Roteiro Adaptado.

Nota: 9 de 10

Corrida do Oscar: The Wrestler (O Lutador)

O que raios está acontecendo com a Academia esse ano? Os filmes realmente bons ficaram de fora da corrida principal para dar lugar a filmecos que tratam de assuntos politicamente corretos como holocausto e homossexualidade? Não estou sendo radical. Esses assuntos são realmente importantes mas isso não justifica a lista de filmes medíocres para o prêmio máximo.

The Wrestler, dirigido pelo brilhante Darren Aronofsky (de Pi, Requiem for a Dream e The Fountain), só concorre aos prêmios de Melhor Ator (para Mickey Rourke) e Melhor Atriz Coadjuvante (para Marisa Tomei que já ganhou nessa categoria por My Cousin Vinny). Cadê as indicações de Melhor Filme e Melhor Direção???

Junto com Revolutionary Road e The Dark Knight, The Wrestler forma a trilogia dos esquecidos.

Mas aqui estou eu reclamando novamente...

The Wrestler conta a estória de Randy "The Ram" Robinson, um lutador de luta livre fictício dos anos 80. Passados 20 anos do auge de sua carreira, The Ram continua fazendo o que sabe fazer: lutas daquelas "armadas" que só americano gosta. Ao final de uma luta particularmente sangrenta (tem até grampeador na testa), o lutador tem um infarto e sofre uma operação. O médico diz que ele tem que parar com os anabolizantes e, principalmente, com as lutas. The Ram, então, passa a tentar reconstruir os cacos de sua vida deplorável com uma tentativa de reaproximação de sua filha e com a conquista de uma stripper que ele gosta (Cassidy, vivida por uma belíssima Marisa Tomei). É claro, porém, que vem aí uma última luta que "The Ram" não pode perder.

O filme não perdoa e massacra o espectador. Mostra os detalhes das lutas em cenas particularmente realistas e constrói os personagens de maneira franca e verdadeira, sem rodeios. The Ram é um homem corroído por dentro, tanto pelas drogas para ficar parrudo quanto pela distância de sua filha, que o odeia (ou tenta odiá-lo). Ver The Ram costurar os retalhos de 20 anos de abuso é torturante (no bom sentido).

Mickey Rourke está muito bem no papel. No entanto, tenho dúvidas se ele realmente está atuando ou vivendo ele mesmo. Em determinados momentos do filme, especialmente no discurso final do personagem, o ator e o personagem se confundem. Certamente foi essa a intenção de Aronofsky, já que isso traz ao filme uma forte sensação de realidade quase documental. The Ram e Rourke buscam a redenção, cada um de sua maneira.

Mas o que realmente brilha nesse filme é a direção. Darren Aronofsky mais uma vez prova que veio para ficar. Utilizando câmera na mão, ele parte para destrinchar a vida e os sentimentos do personagem título. Há uma sequência, depois do infarto, em que The Ram está em seu primeiro dia de um trabalho fixo em um balcão de frios de supermercado que é de fazer chorar: Aronofsky foca no personagem se preparando para o  trabalho e a câmera o segue por todos os corredores, até sua entrada no local de trabalho. Ao fundo, o diretor inseriu, baixinho, aquele burburinho que os fãs fazem quando entra um lutador no ringue. A cena é magnífica, inovadora e deveria ganhar o Oscar por si só. No entanto, Aronofsky não para com sua câmera naturalista e provoca inacreditáveis sensações na platéia com isso.

O filme não é perfeito, porém. Com o objetivo de se aprofundar nos personagens, o diretor não pega atalhos. Mostra reações dando tempo ao tempo e isso, às vezes, torna o filme um pouco arrastado. Apesar disso, trata-se de uma preocupação menor já que nós somos brindados com muitos momentos de brilhantismo.

Nota: 9 de 10

Crítica de filme: Milk


Milk é o quarto filme que concorre ao Oscar de Melhor Filme que assisto e minhas esperanças de encontrar algo realmente singular, que salve essa premiação, estão desaparecendo. Slumdog Millionaire, até agora, está ganhando de lavada.

Milk concorre aos prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção (Gus Van Sant, que nos trouxe o excelente e experimental Paranoid Park e o sério e emotivo Good Will Hunting), Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem, Melhor Ator (Sean Penn, no papel título), Melhor Ator Coadjuvante (Josh Brolin), Melhor Trilha Sonora e Melhor Figurino.

O filme conta a estória real, passada na década de 70, do primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos: Harvey Milk. Ele, chegando aos 40 anos e concluindo que nunca fez nada que se orgulhasse na vida, parte de Nova Iorque para San Francisco com seu namorado Scott Smith (James Franco) para tentar uma vida nova. Lá, consegue se tornar um lider de seu bairro (o famoso bairro Castro) e parte para tentar ser eleito Supervisor da cidade (algo como um vereador, imagino). Depois de tentar muitas vezes, ele acaba sendo eleito e parte para brigar pelos direitos dos homossexuais. Sua história é notória pois Harvey foi assassinado junto com o prefeito de San Francisco (não é spoiler pois isso é dito com 10 segundos de filme). O importante no filme é a ascensão desse líder e a inspiração que parece ter trazido.

Acontece que o filme é burocrático e arrastado. Nem parece um filme de Gus Van Sant. Falta vida à subida de Milk ao "poder" e muito do filme fica dependente da atuação de seus astros.

Sobre esse ponto, vale, de fato, o destaque para Sean Penn (que já ganhou o Oscar de Melhor Ator por Mystic River) que encarna um homossexual bem assumido ao ponto de eu ter saído convencido que Penn saiu do armário... Mas, falando sério, o cara está muito bem em seu papel e carrega o filme nas costas. No entanto, mesmo essa ótima atuação, ajudada pelos atores coadjuvantes, especialmente James Franco e Josh Brolin (esse último vive Dan White, que viria a ser o assassino), não é suficiente para salvar o filme de um lugar comum que incomoda. 

Outro ponto que não ajuda muito é que o movimento pró-gay parece que existiria apesar de Milk, ou seja, se o que estiver no filme for efetivamente a verdade, a atuação de Milk me pareceu reduzida, de menor importância no contexto geral. Essa característica esvazia o filme de qualquer força que poderia ter.

Definitivamente, com a exceção da atuação de Sean Penn, Milk não é material para o Oscar.

Nota: 6,5 de 10 

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Corrida do Oscar: Doubt

Doubt concorre a 5 Oscars: Melhor Atriz (Meryl Streep pela 100ª vez...), Melhor Atriz Coadjuvante (Amy Adams e Viola Davis), Melhor Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman) e Melhor Roteiro Adaptado.

Como se pode ver pelas indicações, o filme é um desfile de intepretações. Depois do show de horrores que foi vê-la em Mamma Mia (tenho pesadelos até hoje), é legal saber que Meryl Streep voltou a papéis na linha do que ela está acostumada. Não gosto muito dela em geral pois acho que Streep é a típica "one  trick pony", ou seja, uma atriz que só sabe fazer bem um papel, a de mulher sofrida. Em Doubt, ela é uma freira linha dura, reitora de uma escola católica nos Estados Unidos dos anos 60. Ela resolve pegar no pé do coitado do padre (Hoffman, sempre naturalmente excelente em seus papéis) por desconfiar que ele vem tendo "condutas impróprias" com o único menino negro da escola. Essa desconfiança aumenta quando uma das noviças, vivida magistralmente por Amy Adams, põe, sem querer, lenha na fogueira. Viola Davis faz a mãe do garoto e também está excelente no papel. Agora que o parágrafo está acabando, vou até dar um desconto: Meryl Streep está ótima no papel de uma pessoa odiosa, intolerante, amargurada e recalcada.

Não interessa ao filme se o padre está mesmo molestando o garoto. O importante é, como o título deixa às claras, a dúvida e a consequente reação das pessoas: enquanto o personagem de Streep quer impalar o padre em praça pública, o personagem de Adams se arrepende do processo que catalizou. 

Falando sobre o título, sempre disse que costumo detestar filmes com títulos que são desnecessariamente repetidos no desenrolar da trama. Nesse quesito, Doubt começa muito mal pois o primeiro sermão que ouvimos é sobre (surpresa, surpresa!) "dúvida". Como se isso não bastasse, o roteirista e o diretor resolveram concluir que todos os espectadores são completos idiotas e, pegando o exemplo do primeiro sermão, utiliza as "idéias de sermão" do padre quase que para explicar em detalhes o que está acontecendo no filme e na cabeça dos personagens. A idéia é colocada de forma velada somente para, 5 minutos depois, ela ser descrita verbalmente pelo padre. Para ilustrar, em determinada cena (duas na verdade), Meryl Streep faz um discurso em que discorda do uso de esferográficas pois destrói a caligrafia e de torrões de açúcar, por adoçarem a vida. Qualquer mentecapto consegue perceber que o assunto gira em torno da intolerância. No entanto, não é que o infeliz do diretor faz o padre dizer que teve a "idéia" de fazer um sermão sobre a intolerância e ainda o mostra escrevendo isso em seu caderninho? E a coisa não para por aí: o sermão é mostrado na íntegra na cena seguinte... 

Alguém tem que avisar o diretor (John Patrick Shanley que, antes disso, só dirigiu o imbecil Joe versus the Volcano) que um filme é composto primordialmente de imagens e que são elas que devem passar as idéias. As falas devem ser incidentais e não explicativas, a não ser que ele esteja dirigindo um documentário.

Nota: 6 de 10

Corrida do Oscar: Slumdog Millionaire

Slumdog Millionaire (Quem quer ser um milionário?), dirigido pelo britânico Danny Boyle, que nos trouxe Shallow Grave, Trainspotting, 28 Days Later e Sunshine, concorre a um festival de estatuetas douradas nesse domingo, quais sejam:

1. Melhor Filme
2. Melhor Diretor
3. Melhor Roteiro Adaptado
4. Melhor Edição
5. Melhor Fotografia
6. Melhor Trilha Sonora
7. Melhor Música (2 vezes)
8. Melhor Som
9. Melhor Edição de Som

Não é o filme que mais concorre a Oscars esse ano (essa honra dúbia ficou com The Curious Case of Benjamin Button) mas é, certamente, por todo hype criado, o que tem mais chances de levar os prêmios mais importantes. 

O filme começa com Jamal Malik apanhando da polícia pois há uma forte desconfiança de fraude no ar já que ele, um "mero favelado", nunca poderia estar a apenas uma pergunta de ganhar o prêmio máximo do show "Quem quer ser um milionário?". O delegado quer porque quer saber como é que o garoto conseguiu responder as perguntas corretamente. Desse ponto, então, Danny Boyle nos leva à uma viagem pela vida do garoto, em que ele vai, aos poucos, nos dando as informações que o delegado quer (na verdade, que NÓS queremos). Sua vida sofrida numa Índia muito pobre é descortinada.

O filme, apesar de ser muito pesado em alguns momentos, com demonstrações estraçalhantes da maldade humana, tem uma mensagem que tenta ser a mais positiva possível e, para isso, o diretor se utiliza de diversos artifícios tais como cores primárias fortes, câmera saturada, edição frenética e, sobretudo, uma forte, viva e sempre presente trilha sonora, que empolga o espectador e funciona quase que como um personagem a parte. 

Para nós, brasileiros, a primeira meia hora de filme lembrará muito Cidade de Deus mas, na realidade, os dois filmes são muito diferentes. Cidade é um filme sobre crescer na favela e o impacto que isso pode ter. Slumdog é um filme de amor, uma verdadeira fantasia calcada na realidade nua e crua do dia-a-dia dos indianos de casta mais baixa. Como pode o amor sobreviver à uma sociedade em que o casamento é determinado primeiro pela condição econômico-social dos noivos e os casais são escolhidos não por alguma atração, mas sim pela família? Slumdog e Cidade somente se parecem na estética de filmagem do começo do primeiro filme, mais nada.

A mensagem de esperança de Slumdog deixa um sorriso no rosto. É, certamente, o "feel good movie" de 2008 e merece o destaque que vem tendo. O problema de Slumdog, talvez, é sua grande dependência do suspense sobre o que vai acontecer ainda que cada passo do filme seja telegrafado com bastante nitidez logo no começo (um mínimo de experiência com cinema permite quase que escrever o roteiro do filme depois que 10 minutos foram vistos). Talvez Danny Boyle tenha percebido isso e carregou os sentidos de informações cromáticas, fortes imagens, cortes naõ exatamente cronológicos e música, muita música.

Dentre os filmes que já assisti e que concorrem a Melhor Filme (The Reader e Benjamin Button são os outros dois), Slumdog é certamente o melhor. Só não sei se ele é, efetivamente, o "melhor de 2008" como um todo. Mas vou contar um segredo: o Oscar nunca foi necessariamente de escolher os efetivamente melhores do ano. Às vezes eles acertam, mas muitas vezes erram. É só lembrarmos que, por exemplo, Shakespeare in Love, The English Patient, Chicago e Crash ganharam o prêmio máximo. Se não fosse assim, na verdade, não teria graça.

Nota: 9 de 10

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Corrida do Oscar: Revolutionary Road

Revolutionary Road ("Foi Apenas Um Sonho", mais um título infeliz em português), o mais recente filme do aclamado diretor Sam Mendes (American Beauty, Road to Perdition) concorre a 3 Oscars: Ator Coadjuvante (Michael Shannon), Figurino e Direção de Arte. 

Trata-se, na verdade, de grande injustiça. Esse filme deveria concorrer também, pelo menos, a melhor atriz (Kate Winslet) e melhor ator (Leonardo DiCaprio), isso sem contar com melhor filme e melhor direção. Não sei o que a Academia tem na cabeça ao prestigiar o bem "mais ou menos" The Reader (comentado abaixo) e deixar Revolutionary Road de fora.

Ora bolas, se era para escolher um papel de Kate Winslet para concorrer a melhor atriz, então que tivesse sido o papel de April Wheeler, não o de Hanna Schmitz de The Reader, em que ela teve sua atuação reduzida por uma horrenda maquiagem amadora. 

E DiCaprio? A Academia tem problemas com o garoto? Deram o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Anna Paquin (!!!) pelo seu primeiro papel no cinema (em The Piano) e ficam empurrando DiCaprio com a barriga... Não faz sentido. O cara já provou que é bom em várias ocasiões. Lembram-se de The Departed? De Blood Diamond? Vão esperar para dar um prêmio pelo "conjunto da obra" daqui a 30 anos? 

Bom, deixa para lá, só estou reclamando e isso não é construtivo. Vamos ao filme.

Revolutionary Road se passa nos anos 50 e retrata a vida de um jovem casal - Frank e April Wheeler - vivido por DiCaprio e Winslet, dois atores confirmando a química perfeita entre eles, já demonstrada em Titanic. Apesar da estória começar no começo, mostrando como os dois se conheceram, Sam Mendes não perde muito tempo e pula logo para o meio da tempestade, quando a vida pacata do casal, já com dois filhos, está degringolando. Frank tem um trabalho que detesta e April é uma dona-de-casa frustrada. Os dois sentem falta de viver pois suas vidas suburbanas em Connecticut, com as casinhas branquinhas bonitinhas, são tudo menos vidas, são meras existências. Vendo-se presa em seu lar e notando as paredes se fechando ainda mais ao seu redor, April sugere que a família faça uma loucura e se mude para Paris, lugar que Frank visitou - e amou - quando serviu na 2ª Grande Guerra. 

Um filme como esse, claro, não poderia acabar bem mas isso já é esperado logo no começo (e tendo Sam Mendes como diretor, isso é quase uma regra). O importante é que talvez esse filme descortine muitas vidas de pessoas aparentemente felizes. Será que vale viver da forma como a sociedade dita, abrindo mão de seus verdadeiros desejos? 

A direção de Sam Mendes é brilhante, contrapondo os dois atores o tempo todo, com um itneligente jogo de câmeras. Da mesma forma, ele escolheu retratar a casa dos Wheeler da forma mais asséptica possível. O casal tem dois filhos pequenos mas não há nada na casa que indique isso. Os filhos mesmo só aparecem em momentos chave, para passar uma mensagem específica. O foco é o casal e seus conflitos.

Entra então na vida dos dois um louco de sanatório, filho da corretora (Kathy Bates em um papel que lembra muito o de Misery), vivido por Michael Shannon. As duas ou três cenas com ele são suficientes para fazer esse ator brilhar. Muito merecida a indicação por ator coadjuvante. O louco é o único que enxerga com clareza solar o que se passa com o casal. É um verdadeiro terapeuta sem freios, falando o que dá na telha. Exatamente essa capacidade de enxergar - e falar - o óbvio é que o caracteriza como louco pois, afinal de contas, não é possível que as convenções da sociedade estejam erradas, não é mesmo?

O filme é duro, não perdoa ninguém e não tem mensagenzinha bonitinha não. É, basicamente, a vida como ela é e funciona como um alarme para todos nós evitarmos o marasmo, brigarmos contra as convenções e fazermos, pelo menos algumas vezes, o que realmente queremos. 

Nota: 9 de 10

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Club du Film - Ano IV - Semana 08: Amarcord


Há três anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como Club du Film. Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São, novamente, mais 100 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo (com pseudônimos, claro).

Filme: Amarcord

Diretor: Federico Fellini

Ano de lançamento: 1973

Data em que assistimos: 17.02.2009

Crítica: Amarcord é um filme que eu sempre soube que era um clássico mas nunca tinha assistido. Tenho pouca experiência com Fellini, tendo apenas visto Noites de Cabíria, La Dolce Vita e 8 1/2. O diretor parece se "citar muito", fazendo filmes baseados em suas experiências pessoais. Todos os filmes que vi de Fellini são agradáveis ainda que de complicada digestão.

Evidentemente que isso não é, por si só, algo negativo. Essa complicação certamente se origina da pessoalidade de seus filmes e da mistura da fantasia (dos personagens? do diretor?) com a realidade, ao menos a realidade segundo Fellini. Amarcord é um pouco diferente das demais obras citadas pois, apesar de ele seguir um ano de uma pequena cidade na Itália, em um perfeito círculo, mostrando que a vida continua, talvez da mesma forma, talvez com alterações, conta estórias aparentemente soltas mas protagonizadas por basicamente os mesmos personagens. Essas estórias parecem mais espasmos da memória, como se você estivesse contando momentos de seu passado a um amigo, sem seguir uma cronologia ou ordem lógica. 

Não estou inventando isso. O título do filme já entrega o ouro pois significa "Eu me lembro". Toda a trama (ou falta de trama) tem como protagonista (se é que se pode chamar o personagem de protagonista) o menino Tita, em plena transição de menino para homem. O filme se passa nos anos 30 em uma vila que ecoa a cidade onde nasceu Fellini e o personagem Tita parece ser o próprio Fellini. Há, ainda, um destaque para a família de Tita, tipicamente italiana, quase um estereótipo: pai brigão, mãe mais brigona ainda e uma pancadaria a cada refeição em conjunto. Vale destaque a mãe de Tita, vivida pela atriz Pupella Maggio, que depois viria fazer Cinema Paradiso.

Assim, em capítulos, vemos Tita e seus amigos pregarem peças em seus professores; Tita tendo sonhos eróticos com a musa da cidade, Gradisca; Tita e sua família viajando com seu tio maluco ao campo; os moradores da cidade ficando embasbacados pela passagem de um transatlântico e diversas sequencias puras de sonho, com destaque para a do Xeque Árabe e seu harém de 30 mulheres.  

E como se isso não bastasse, há críticas sociais e políticas fortes pela forma com que Fellini retrata os fascistas, sempre como histriônicos personagens retirados de um folhetim cômico. E, como uma cereja no bolo, Fellini ainda encaixa dois narradores, um professor (chamado de advogado) que fica falando sobre fatos históricos (irrelevantes?) da cidade e um contador de estórias louco.

Essa conjunção de peças diferentes de um mesmo quebra-cabeça, sem seguir um ordem específica (a não ser a das estações do ano), dão ao filme um caráter bastante folclórico e, em minha opinião, de difícil apreciação por quem não conhece ou estudou a vida do diretor. É claro que a fotografia - belíssima - e o carinho evidente do diretor por esse filme, o torna uma peça rara, passível de apreciação por todos.

Notas:

Minha: 7 de 10
Klaatu: 7 de 10
Barada: 7 de 10
Nikto: 7,5 de 10

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Crítica de TV: Battlestar Galactica Season 4.0

Estamos na última temporada da melhor série de ficção científica jamais feita. Na verdade, BSG é uma séria dramática que por acaso se passa em um ambiente de ficção científica. Diria que, em termos dramáticos e de narrativa, ela está lado-a-lado com The Wire.

Lembro que, em 2003, quando morava nos Estados Unidos, soube que um remake do seriado setentista aconteceria e fiquei ligado no lançamento. Nossa, como me desapontei quando assisti a minisérie na televisão. Tudo aquilo que gostava na série original tinha sido jogado fora: os capacetes dos pilotos de Vipers não tinham aparência egípcia, em clara alusão à 13ª Colônia (a Terra); os Cylons eram clones dos humanos, não robôs; Baltar não era mal, mas sim um idiota controlado pelos Cylons. Starbuck não era homem! Apollo era completamente sem graça!

Bom, eu fui um idiota completo pois posso garantir que a "re-imaginação" dessa série é sensacional, com impressionantes ingredientes políticos, religiosos e sociais. 

Para quem não sabe, os Cylons atacaram os 12 planetas das colônias humanas e os destruíram. Apenas um punhado de humanos, em variadas naves, sobreviveram e, agora, encontram-se sob a proteção da única astronave de combate: Galactica. Comandada com pulso de ferro por Bill Adama (Edward James Olmos), esse grupo de humanos tentam sobreviver aos ataques dos Cylons. O grande problema, porém, é que os Cylons são como os humanos, robôs ultra-sofisticados que em tudo se parecem conosco. Eles estão entre nós. A paranóia impera. O objetivo dos sobreviventes é encontrar a folclórica 13ª Colônia, o planeta Terra.

Sem listar spoilers, vale um resumo de cada temporada:

1ª Temporada - Fuga caótica das colônias e adaptação à vida no espaço dão a tônica dessa temporada. Ao longo dela, os humanos descobrem que os Cylons são, agora, iguaizinhos aos humanos e têm de aprender a lidar com essa desconfiança.

2ª Temporada - Vários Cylons são revelados (são 12 modelos no total) e muito da série se passa em Caprica, pois Starbuck volta para resgatar alguns sobreviventes. Outro momento importante da série é o aparecimento da astronave de combate Pegasus, comandada pela Almirante super linha dura Cain. O final da temporada é de cair o queixo.

3ª Temporada - Muito da série se passa em terra (não vou explicar o que acontece mas tem relação com o final da temporada anterior) e os Cylons mudam de estratégia: no lugar de quererem acabar com os humanos, passam a querer doutriná-los e dominá-los. O tom da série passa a ser fortemente religioso. Ao final, 4 novos modelos de Cylons são revelados (11 até esse momento, faltando apenas o 12º modelo).

Muito do que eu imaginava que poderia acontecer na 4ª Temporada inteira acontece na sua metade. Cada episódio dos 10 primeiros é essencial para o desenrolar da trama. Nada se perde. Certamente os produtores, sabendo que essa é a temporada final, decidiram amarrar todas as pontas. Assim, perder um episódio é perder o fio da meada. 

O mote dessa temporada é claramente a religião. São os deuses das antigas 12 colônias versus o deus único dos Cylons, pregado apaixonadamente por Baltar e seus seguidores. Há "anjos", mensagens divinas e diversos outros aspectos religiosos que criam um interessante choque com o ambiente de ficção científica ao redor. A religião também serve de pano de fundo para discussões sobre a intolerância, mortalidade e outros assuntos polêmicos. Outro tema bastante central à trama é a política, algo que costumeiramente anda de braços dados com a religião. Há disputas políticas permeando toda a estória.

No final do décimo episódio, todos já têm conhecimento de 11 dos 12 modelos de Cylons e a revelação de quem é quem é chocante, com reverberações fortes por todos os demais personagens. Falta, agora, somente o 12º Cylon (a alusão aos 12 apóstolos é clara, não?). Além disso, a metade da temporada acaba quase que de forma definitiva, em uma virada de mesa de fazer chorar, ainda que dê para pressentir que algo assim iria acontecer. 

Não consigo imaginar o que vai ocorrer nos 10 últimos episódios. Não acompanho na TV, não baixo pirata e, portanto, não tenho alternativa que não esperar pelo lançamento da parte final em DVD. 

Já estou sentindo falta de Battlestar Galactica.

Nota: 10 de 10

Crítica: Coraline

Tem muita gente que acha que o diretor de The Nightmare Before Christmas (O Estranho Mundo de Jack) é o aclamado diretor Tim Burton. Pois é: tem muita gente errada. 

O diretor do mais famoso desenho animado em stop-motion (técnica de animação com bonecos que são movimentados à mão, quadro-a-quadro) é, na verdade, Henry Selick. Tim Burton produziu Nightmare apenas. O que ele dirigiu foi Corpse Bride (Noiva Cadáver). Independente disso, é fato que tanto Nightmare quanto Corpse Bride são primores do stop-motion.

No entanto, Coraline consegue, talvez, ser ainda melhor que os outros dois. Mérito de Henry Selick que novamente insistiu na técnica que o deixou famoso. Não sei exatamente explicar o que diferencia o stop-motion da computação gráfica estilo Pixar sob o ponto de vista do espectador mas há diferenças. Talvez saber que um filme foi feito em stop-motion nos faça dar mais valor a ele pois, afinal de contas, cada segundo do filme gerou a movimentação dos bonecos e do cenário 24 vezes. Façam as contas e vejam quantas vezes a câmera parou para os técnicos movimentarem os bonecos e imaginem o pesadelo logístico que deve ser isso. Filmes bons em stop-motion merecem todos os elogios e apoio dos espectadores. Não é à toa que Nightmare é reprisado todos os anos nos cinemas americanos, na semana do Halloween.

Coraline vai dois passos além em comparação com seus antecessores: é o primeiro stop-motion filmado diretamente em 3D e é baseado em obra literária (que depois foi adaptada para quadrinhos) de ninguém menos que Neil Gaiman. 

Sobre o 3D, essa técnica está ficando cada vez mais importante para a narrativa dos filmes mais sérios. Bolt e U23D são dois bons exemplos disso. Em Coraline, o 3D é ajudado para enriquecer a narrativa e nos ajudar a efetivamente entrar em seu colorido mundo alternativo. Talvez seja o melhor uso de 3D que vi até agora no cinema.

Sobre Neil Gaiman, ele é o criador de estórias sensacionais, conhecido por Sandman, o psicodélico "super-herói" dos sonhos e, no cinema, por Stardust e MirrorMask, dois ótimos filmes, especialmente o segundo. 

O filme conta a estória de Coraline, uma menina que se muda com os pais para um casarão rosa. Eles são durões e trabalham o tempo todo escrevendo livros de jardinagem, apesar de não gostarem de jardins. Eles têm pouco tempo para a menina. Coraline sai explorando o terreno e a casa e acaba encontrando um garoto estranho que é neto da proprietária da mansão e, também, os 3 outros inquilinos: duas senhoras que outrora foram atrizes de teatro e que, hoje, vivem do passado junto com seus dois cães Terrier (e vários outros empalhados como se fossem anjinhos de presépio) e um malabarista louco que tem um circo de camundongos saltadores mas que ele não mostra para ninguém. 

Nesse ambiente, Coraline acaba se sentindo sozinha e esbarra em uma porta secreta que se abre para outro mundo, em que seus  pais alternativos só dão atenção à ela e seus vizinhos são, digamos, mais coerentes. O único probleminha é que, nesse mundo, todas as pessoas, inclusive seus pais, têm botões no lugar dos olhos. Coraline então descobre que nem tudo são flores e sua aventura começa a ficar perigosa.

O filme, apesar de ser infantil, não é para os bem pequenos. Só o conceito de botões no lugar de olhos - tal qual bonecas antigas - já é bastante "creepy", bem no estilo de Neil Gaiman. Fora isso, alguns ambientes escuros, crianças-fantasmas, gatos pretos, a bruxa assustadora e a facilidade com que as crianças têm de se identificar com Coraline, torna o filme um pouco mais adulto, recomendável para crianças acima de uns 7 ou 8 anos apenas.

Mas a estória, com mensagem importante (dê valor ao que você tem!) e roteiro impecável, somada à absurda qualidade do stop-motion e com o 3D sendo a cereja em cima do bolo, torna Coraline um grande filme para todas as gerações. 

Nada a reparar ou alterar. Merece ser visto e revisto diversas vezes.

Nota: 10 de 10

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Corrida do Oscar: The Reader

Já comentei The Curious Case of Benjamin Button mais abaixo, o filme com maior número de indicações ao Oscar esse ano, incluindo melhor filme (13 no total). Agora é a vez de The Reader (O Leitor, em português). Tentarei, até o dia da entrega dos prêmios, comentar ao menos todos os candidatos a melhor filme.

The Reader concorre às estatuetas de Melhor Filme, Melhor Diretor (Stephen Daldry), Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz (Kate Winslet).

O filme abre com Michael Berg adulto, vivido por Ralph Fiennes que, em flashback, nos conta a estória da perda de sua inocência. Aos 16 anos, em 1958 na Alemanha, ele se apaixona por uma misteriosa trocadora de bonde chamada Hanna (uma Kate Winslet quase feia), bem mais velha que ele. Ela ensina para ele os segredos do sexo e parece genuinamente gostar do garoto. Antes ou depois do sexo, ela apenas pede que Michael leia livros para ela, o que ele faz com grande prazer, mantendo até um "log" do que foi lido para a "namorada". Esse amor de verão logo acaba e Hanna desaparece. Anos depois, quando Michael está estudando direito, ele assiste a um julgamento de soldados nazistas e tem um choque ao descobrir que Hanna havia sido um e estava sendo julgada por seus crimes. 

O filme é aflitivo nas reações tanto de Michael quanto de Hanna ao desenrolar dos fatos. Ela pouco se defende e ele fica com um enorme dilema entre ajudá-la ou ficar calado, tudo em prol, aparentemente, do tal segredo que é colocado em letras garrafais no poster acima, como se fosse um filme de detetive. No entanto, o tal segredo é óbvio e não tão importante assim para a trama que não pede ao espectador para "descobrir o segredo" mas sim para tentar entender o que se passa na cabeça dos personagens em momentos delicados. O filme trata não só da perda da inocência de um garoto como, também, de como as pessoas lidam com o peso da culpa.

A atuação de Kate Winslet é realmente sensacional mas, na segunda metade do filme, com ela envelhecida, sua maquiagem acaba atrapalhando sua atuação. É, definitivamente, uma das piores maquiagens que vi no cinema e isso me distraiu muito e reduziu o choque da atuação de Kate. Poderiam ter se esforçado um pouco mais nesse departamento.

De toda forma, o filme é um pouco arrastado a partir do momento em que Michael descobre que Hanna foi um soldado do regime nazista. Da mesma forma que em The Pianist, não consegui engolir a reação do personagem principal masculino, que toma decisões equivocadas todo o tempo. Tais decisões, ao menos, têm consequências psicológicas fortes nesse filme, o que aparentemente não ocorre em The Pianist, e Michael se vê distanciado do mundo e até mesmo de sua própria filha.

É um filme pesado mas que não flui muito facilmente, por vários problemas na direção e na maquiagem. Poderiam ter escolhido um candidato melhor ao Oscar de melhor filme.

Nota: 6 de 10

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Club du Film - Ano IV - Semana 07: Bring me the Head of Alfredo Garcia (Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia)


Há três anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como Club du Film. Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São, novamente, mais 100 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo (com pseudônimos, claro).

Filme: Bring me the head of Alfredo Garcia

Diretor: Sam Peckinpah

Ano de lançamento: 1974

Data em que assistimos: 10.02.2009

Crítica: Nunca nem tinha ouvido falar de Bring me the head of Alfredo Garcia. Claro que conhecia o diretor, Sam Peckinpah, autor de sensacionais obras como The Wild Bunch, Straw Dogs e Cross of Iron.

O conhecimento do diretor e o intrigante título, nos fez querer assistir logo a esse filme. Foi uma surpresa total. Certamente esperávamos algo violento, bem no estilo do diretor. No entanto, acabamos nos deparando com uma obra rara, gutural, quase Neanderthal de tão crua, e isso tudo no sentido bom. 

O filme conta a estória de um mexicano rico cuja filha engravida de Alfredo Garcia. Ato contínuo, e como não poderia deixar de ser, o pai coloca a cabeça do sujeito a prêmio e caçadores de recompensa saem ao seu encalço. Essa estória chega aos ouvidos de Bennie (Warren Oates), um pianista de um bar/prostíbulo. Ele investiga aqui e ali e acaba descobrindo que Garcia havia morrido em um acidente e ele acaba se oferecendo - mediante recompensa, claro - a literalmente trazer de volta a cabeça do coitado. Ele parte em viagem com sua namorada Elita - uma prostituta - pelo interior do México, até a sepultura de Alfredo Garcia. Trata-se, na verdade, de uma viagem ao inferno, onde Bennie acaba aprendendo muita coisa sobre si e sobre o que sente pela mulher que o acompanha. Bennie é imbuído de um ímpeto enorme para completar sua missão e, para isso, não poupa ninguém, nem a si próprio.

Um dos pontos altos do filme é a cena preparatória do estupro da namorada de Bennie por dois motoqueiros, um deles vivido por um jovem Kris Kristofferson. Sem saída, Bennie não pode reagir e, com receio de perder Bennie, Elita concorda em ser estuprada pois, para ela, esse caminho é mais fácil. É duro ver o quanto os personagens do filme tem a perder e o quanto eles sacrificam de si próprios, mesmo que de forma sinuosa. 

Outra cena sensacional é a de abertura do filme, com uma bucólica cena no interior do México, em que a moça grávida aparece à beira de um lago e os capangas do pai a chama. Tudo nos leva crer que o filme seria um western passado no século XIX  mas, numa surpreendente "troca de marcha", Peckinpah nos coloca nos anos 70, mostrando que pouco mudou em um século. Um momento como esse, de um brilhantismo cintilante, é suficiente para nos prender ao filme.

Não dá para dizer que esse filme é um clássico Peckinpah pois é uma obra diferente. Como salientei acima, ela é crua, de um realismo impressionante. Alfredo Garcia, um morto, é um dos mais sensacionais McGuffins que já vi, ao lado do Falcão Maltês do filme que carrega esse nome. A violência, a sujeira, o sexo, tudo é mostrado da forma mais simples e, por isso mesmo, mais às claras possível. Em determinados momentos, a obra leva à risos e gargalhadas, tamanho é o desconforto que sentimos. Peckinpah não teve medo de errar e acabou fazendo um filme pessoal e extremamente autoral. 

Esses, no meu entendimento, são os elementos de uma grande obra.

Notas:

Minha: 9 de 10
Klaatu: 8 de 10
Barada: 8 de 10
Nikto: 5 de 10