sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Crítica de filme: Warrior (Guerreiro)

É difícil barrar filmes de "esporte" como veículos para excelente estórias de superação de obstáculos aparentemente intransponíveis. Dentro desse nicho, diria que os filmes de "luta" são ainda mais propícios para essa lição, já que os lutadores não dependem de uma equipe, apenas de sua própria força de vontade e, dependendo do filme, de seu treinador e/ou sua família mais próxima. Guerreiro é o mais novo filme nessa linha e, para minha gratíssima surpresa, talvez o melhor (sim, isso mesmo, o melhor).

O filme, porém, passou quase que de maneira invisível pelos cinemas nos Estados Unidos e, no Brasil, ainda não foi  lançado e, se for, provavelmente será relegado a um lançamento diretamente em vídeo. Um verdadeiro pecado.

Seja como for, Guerreiro vale muito ser visto. Para aqueles que não conseguem ver sangue, fiquem tranquilos: apesar de ser um filme de luta, não há uma gota de sangue. E nem precisa. A direção de Gavin O'Connor é segura e consegue engajar o espectador sem apelar para sanguinolência.

Tommy Conlon (Tom Hardy), um ex-Marine veterano de guerra, retorna para a casa de seu pai, Paddy (Nick Nolte), um ex-lutador de boxe, para pedir que ele o treine para um vindouro campeonato mundial de MMA (Mixed Martial Arts) chamado SPARTA. Acontece que Tommy não via o pai há 14 anos pois saiu de casa com sua mãe ainda garoto já que Paddy era um bêbado violento, que batia na mãe e que destruiu a família. Tommy culpa o pai - com boa dose de razão - por tudo de errado e ruim que aconteceu em sua vida e sua volta a ele se dá unicamente por razões profissionais como ele deixa claro desde o início.

Paddy, por sua vez, já não bebe uma gota de álcool há alguns anos e fica imensamente feliz com a oportunidade de se reaproximar de sua família. Sua felicidade é tanta que ele corre para ver Brendan (Joel Edgerton), seu outro filho e irmão mais velho de Tommy, que mora com a mulher e duas filhas no local mais longe que pode do pai, mas dentro do mesmo estado. A recepção de Brendan é destruidora: o pai somente pode se comunicar com ele via correio ou pelo telefone. Afinal de contas, apesar de ter feito escolhas diferentes na vida em razão de sua paixão por sua então namorada, hoje esposa (Tess, vivida pela bela Jennifer Morrison), Brendan culpa o pai igualmente pela dissolução da família. No entanto, Brendan também está a caminho do campeonato SPARTA, ainda que por outras vias e não demora até que os caminhos dos dois irmãos se cruzam.

O diretor, que também co-escreveu o roteiro, optou por estruturar o filme como duas estórias paralelas até o começo do campeonato. Vemos a relação de Tommy com Paddy de um lado, percebendo vagarosamente que Tommy tem um passado sombrio (além da questão do pai) e a luta inglória de Brendan, um professor de física, para conseguir voltar à forma para reerguer financeiramente a família, já que uma doença coronária na filha mais nova quase o levou à bancarrota. Sem dúvida, a primeira metade do filme pode ser considerada lenta e desconexa mas é que O'Connor usa essa parte para vagarosamente construir de maneira muito crível as personalidades do trio principal de personagens. Da segunda parte em diante, vemos o lado inevitavelmente formulaico dos filmes de luta, com os personagens galgando espaço luta a luta. É um festival de clichês, mas todos eles muito bem feitos e que criam todo o suspense que estamos acostumados a ver nos melhores filmes de luta.

Mas a primeira parte do filme e a luta final, além das atuações de Hardy, Edgerton e Nolte, é que alçam esse filme ao panteão de um dos melhores, senão o melhor filme de "luta" já feito, ultrapassando até mesmo o clássico Touro Indomável e os recentes O Lutador e O Vencedor. Hardy faz o papel do herói durão, que não dá o braço a torcer nem mesmo para o irmão. Edgerton é mais o herói familiar, com quem nós temos mais facilidade de nos identificar. São personalidades bem diferentes mas igualmente complexas, contando com igualmente boas atuações. Já Nick Nolte é um show a parte. Seu Paddy Conlon é um corroído pai de família que já não tem muitas esperanças na vida. Fica feliz só de ver parcialmente a neta que nunca conheceu ao longe, na porta da casa de seu filho. Seu olhar de arrependimento, frustração e de amor para seus filhos, que retornam cada uma de suas palavras com violência e desdém, é de rachar o coração de qualquer um.

E essas atuações incríveis convergem para a luta final. Sem explicar muita coisa para não estragar o prazer de ver esse filme, basta dizer que Tommy, Brendan e Paddy precisam ir até o inferno para terem alguma chance de redenção e, mesmo assim, o custo pode ser impagável. Nesses momentos, magistralmente filmados por O'Connor, vemos uma luta de MMA que vai muito além de uma pessoa lutando contra outra por dinheiro, muito além de uma mera briga de superação ou de um lutador desacreditado contra outro invencível. É nesse momento que vemos claramente que esse filme vai além dos outros que o antecederam e é nesse momento que é impossível - mais do que normalmente - não agarrarmos a ponta das cadeiras ou não mordermos os lábios em antecipação e aflição pelo que está para acontecer. Torcer para alguém ganha um novo - e muito mais complexo - contorno em Guerreiro e perder esse filme é perder Cinema em uma das sua melhores manifestações.

Guerreiro concorre a (injustamente apenas) um Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Nick Nolte)    

Mais sobre o filme: IMDB, Rotten Tomatoes, Box Office Mojo e Filmow.

Nota: 10 de 10

7 comentários:

  1. Bem, não vi Guerreiro ainda, embora tenha sido muito bem falado. Mas, desde já, acho a comparação com Touro Indomável e O Lutador deslocadas, mesmo porque, ambos fogem de todos os clichês do gênero, sendo das maiores obras-primas deste. Um dia vejo Warrior...

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  2. Um octógono, uma família em ruínas e três homens em busca da redenção. Filme primoroso! De longe o melhor filme do ano na minha opinião.
    Como você disse, é uma grande injustiça "Guerreiro" ser indicado em apenas uma categoria no oscar. Mas vou ficar aqui na torcida pelo Nick Nolte que foi magnífico na sua atuação.

    Gostei muito do "O Lutador" e do "O vencedor", mas Warrior está um nível acima do primeiro e dois do segundo.

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  3. @ Julio: Pode ser que tenha exagerado em colocar Touro Indomável e O Lutador no mesmo patamar mas, sinceramente, eu acho que não. A primeira metade de Guerreiro e a luta final são despidas de clichês e conseguem superar, no total esses dois outros filmes. Mas veja e tire você mesmo suas conclusões e, depois, volte aqui para discutirmos. Obrigado por prestigiar o blog.

    @ Nails: Não sei se é o melhor filme de 2011 mas fica certamente no top 10. Obrigado por ler o blog.

    Abraço.

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    1. Fantástico o filme.
      A carga dramática é incrível.
      Realmente um dos melhores filmes que já vi sobre o assunto.
      Gostei tanto que já o assisti umas 5 vezes...

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  4. Excecelente crítica, captou com maestria o cerne do filme, concordo com cada palavra, ótimo filme, marcou minha vida, não falava com meu pais há meses, por motivos parecidos com os dos irmãos, o arrependimento do pai, e a relação com os filhos me fez ver meu pai de uma maneira diferente,e hoje o amo e o perdoei e vivo muito melhor, esse filme mudou minha vida, falo como cinéfilo, filho e lutador de mma, obrigado!

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  5. Curti muito esse filme. É um excelente filme no qual mostra os dramas, dilemas, altruísmo, traumas e superação de cada personagem. Porem na minha opinião, a forma q fora focadas as lutas do Tommy e as do Brendan deu um "ar fictício" no final . Sparta é o nome dado ao torneio, no qual tinha 16 lutadores e era quase uma luta atras da outra. As lutas de Tommy era rápidas, concisas e objetivas e os oponentes eram literalmente massacrados sem ao menos acertar um golpe. Já as lutas de Brendan, eram longas, cheias de altos e baixos, sofridas, pesarosas e seus oponentes dando muito trabalho até serem vencidos. OK, resumindo e indo direto ao ponto. LUTA FINAL: Tommy(invicto com vitórias fáceis e rápidas, INTACTO e SEM TOMAR UM GOLPE SEQUER) vs Brendan ( invicto com vitórias extremamentes sofridas, PÓ DA RABIOLA e TER APANHADO MAIS DO Q GATO NO SACO). Quais as possibilidades de vitória do Brendan tendo em vista um campeonato como aquele, onde não há tempo para a recuperação física do atleta ???

    Mas tirando isso, o filme é perfeito !!!!

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  6. Nails..... negativo...não é um octógono e sim hexágono, repare bem que só tem 6 lados.

    Devem ter feito isso para não terem problemas com direitos autorais ou coisas do tipo.

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Pensem antes de escrever para escreverem algo com um mínimo de inteligência. Quando vocês escrevem idiotices, eu apenas me divirto e lembro de Mark Twain, que sabiamente disse "Devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles, o resto de nós não seria bem sucedido."