sexta-feira, 11 de março de 2011

Crítica de filme: Rango

Sob qualquer ponto de vista, Rango foi uma aposta arriscada dos produtores, dentre eles ninguém menos que a ILM de George Lucas e a Nickelodeon Movies e da distribuidora Paramount. Esse desenho de computação gráfica dirigido por Gore Verbinski é tudo menos "bonitinho". Muito ao contrário, seus personagens, animais antropormofizados (se é que essa palavra existe) são, todos eles - inclusive o personagem título - feios, asquerosos mesmo. O roteiro, com questões filosóficas clássicas, não é, também, algo que se encontra fácil nesse tipo de obra. A fotografia, cheia de ângulos inusitados, da mesma maneira não se encaixa na cartilha hollywoodiana de como se fazer um desenho animado.

Mas, por isso tudo, Rango é um filme sensacional.

Gore Verbinski jogou pela janela os olhões amendoados dos personagens animados clássicos que vemos em filmes da Disney ou, de maneira ainda mais chamativa, nas animações orientais. No lugar disso, focou em olhos pequenos, quase invisíveis, mesmo no personagem principal, um camaleão. É só fazer a comparação entre Rango e outro camaleão animado muito recente, usado como personagem coadjuvante em Enrolados, para ver que Verbinski quis fugir do lugar comum. Saem animais de plumagem pela e rostinhos que atraem suspiros e gritos de "que fofo!" e entram lagartos, cobras, tatus, morcegos, ratos e outros animais menos nobres retratados quase como se o diretor apenas tivesse colocado roupas nos animais verdadeiros.

No entanto, a animação que vemos é uma das melhores dos último tempos em termos de computação gráfica. Perfeita até a última escama ou pelo, o que é ainda mais difícil de se imaginar quando os animadores não puderam recorrer a elementos gráficos (ou "bengalas gráficas") que o público está acostumado a ver em desenhos animados. Mesmo a figura humana que aparece no filme - em mais do que evidente alusão ao Homem Sem Nome e, mais do que isso, ao ator que "deu nome" a esse personagem - é feita de uma maneira tal que acreditamos estar vendo bonecos animados de Frank Oz ou do saudoso Jim Henson, só que feitos em computação gráfica. Talvez esteja exagerando, mas não me lembro de ter ficado maravilhado assim com o uso de CGI em desenhos animados desde o Toy Story original. Só por isso o filme já merece ser visto.

O roteiro é algo que também merece aplausos pela coragem. Ele não é particularmente original ou intrigante mas diria que, para um desenho animado, ele é tão complexo como Up e outros dessa natureza mas sem o fator "fofura" que sempre acompanha as outras obras. Em outras palavras, o roteiro, em Rango, torna-se um fator que agrega à toda atmosfera "feia" do filme.

Rango conta a estória de um camaleão caseiro que, em uma mudança, acaba se perdendo no meio do deserto americano e vai parar em uma cidade típica de filmes de cowboy. Meio que sem identidade (um camaleão sem identidade, sacaram?), nosso herói, que sempre viveu literalmente em uma redoma de vidro, adota uma identidade e um nome compatíveis com o local e incorpora a persona de um pistoleiro destemido, sem saber o tamanho da encrenca que está se metendo e que envolve políticos corruptos, roubo de água e muito tiroteio.

É bem verdade que essa questão da identidade de Rango é martelada de maneira obsessiva pelo roteiro, culminando com o tal encontro do camaleão com o personagem de Clint Eastwood em uma cena muito parecida com aquela cena de "outra realidade" no terceiro Piratas do Caribe (não por coincidência, do mesmo diretor). Talvez o roteiro pudesse ter sido aparado para evitar esses excessos mas, no final das contas, ele acaba funcionando muito bem.

Já a fotografia, estilizada ao máximo pelo diretor, peca um pouco pelo exagero do "inusitado", um pouco na linha do que Danny Boyle fez em 127 Horas. É câmera virada, fotografia por detrás de superfícies opacas e por aí vai, tudo talvez sem propósito.

Acontece que todos esses fatores - alguns falhos, é verdade - acabam contribuindo para o resultado que acho foi o desejado por Verbinski: recriar, em desenho, a atmosfera altamente estilizada dos westerns spaghetti de Sergio Leone e outros mestre do gênero. E nisso, novamente, o diretor triunfa. Como fã inveterado de Leone, ouvir acordes claramente "chupados" de imortais como Ennio Morricone foi incrível e olha que, em nenhum momento, a música e a atmosfera criadas soam ou parecem forçadas. Rango, dentre outros méritos, é uma emocionante homenagem ao gênero e, talvez muito especialmente, aos três maiores responsáveis por sua solidificação: Leone, Morricone e Eastwood.

Ainda sobre a música, achei que não veria um nome muito importante no crédito da trilha sonora apenas para surpreender-me com Hans Zimmer por lá. Um dos grandes compositores cinematográficos de hoje fazendo, basicamente, uma homenagem ao gênero do cowboy sem muito pudor - ainda bem! - de usar acordes de obras conhecidas (ou o mais próximo possível disso).

E olha que a maior surpresa foi mesmo ver que Gore Verbinski consegue fazer algo realmente muito bom. Perdoem-me os fãs da trilogia Os Piratas do Caribe, nada que o diretor havia feito até então tinha me impressionado. Rango me fez mudar de idéia.

Mas fica um aviso: o desenho não é exatamente para crianças. As crianças com mais de 9 anos, creio, acabarão gostando mais mas, para os bem pequenos, os "bichos esquisitos" de Rango combinados com a estória mais para o lado filosófico podem aliená-los.

Ah, acabei vendo dublado em português por causa de minhas filhas e posso dizer que a dublagem está muito bem feita, bem acima da média. No entanto, o original tem Johnny Depp no papel título, além de Ned Beatty,  Alfred Molina, Bill Nighy, Harry Dean Stanton, Timothy Olyphant e Ray Winstone. Conclusão: terei que rever Rango!

Mais sobre o filme: IMDB, Rotten Tomatoes, Box Office Mojo e Filmow.

Nota 9,5 de 10

Um comentário:

  1. Pô, rapaz, valeu pelo prestígio aqui no Cinebulição.

    Acessei teu perfil e vi que você tinha um blog, e qual não foi a minha surpresa em ver "Rango" por aqui também! Essa animação é realmente incrível, e teu texto traz algo que eu sequer havia cogitado em escrever sobre: a oposição da feiura X o fofuchismo das animações mais comuns. Ótima abordagem!

    Abraços

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Pensem antes de escrever para escreverem algo com um mínimo de inteligência. Quando vocês escrevem idiotices, eu apenas me divirto e lembro de Mark Twain, que sabiamente disse "Devemos ser gratos aos idiotas. Sem eles, o resto de nós não seria bem sucedido."