sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Club du Film - 4.31 - Hotaru no haka (Grave of the Fireflies ou Túmulo dos Vagalumes)

O 31º filme do ano IV do Club du Film foi Grave of the Fireflies (Túmulo dos Vagalumes), assistido em 05.11.09. Trata-se de um desenho animado japonês (anime), dirigido e escrito por Isao Takahata, em 1988.

O desenho conta a estória da luta pela sobrevivência de Setsuko e sua irmã pequena Seita em um japão devastado pela Segunda Guerra Mundial. A mãe das crianças morre em um bombardeio e elas vão para a casa de parentes que os consideram um fardo. Depois de muitas brigas, eles acabam se mudando para um abrigo de bombas abandonado e fazem de tudo por comida, inclusive roubar cidades que são esvaziadas logo antes de algum bombardeio. Com o tempo, porém, a fome e o desespero se instalam e os dois encontram algum consolo na luz dos vagalumes que eles capturam para iluminar suas noites.

Trata-de de um filme muito triste, com forte mensagem antibelicista. Mostra o efeito nefasto que uma guerra tem sobre as pessoas. Sentimentos como egoísmo, inveja e ingratidão afloram e nem mesmo as crianças são polpadas. É o horror da guerra mostrado em suas minúcias e em momentos não propriamente bélicos, ou seja, em momentos entre um bombardeio e outro e relacionados com uma guerra que só se vê e ouve falar à distância.

O horror pelo que as duas crianças passam, com o lento, horrível e inevitável caminho para a morte por inanição, faz qualquer um ficar desesperado vendo esse desenho. Não é definitivamente algo feito para crianças. Ao contrário, é uma das mais eficientes mensagens contra guerras que já vi em filmes, exatamente por ser sutil, lenta e afetando diretamente crianças. Há, claro, outros filmes que lidam com o efeito da guerra em crianças e Império do Sol de Spielberg me vem logo à mente. No entanto, o horror de Jamie em Império do Sol é abafado pela trama marcadamente melodramática do diretor. Em Grave of the Fireflies, Isao Takahata se baseou nas memórias de Akiyuki Nosaka para extrair sentimentos fortes e verdadeiros que fogem muito do tom Spielberguiano de ser. Grave of the Fireflies fica lá no fundo da mente como algo marcante, terrível, que não queremos mais ver.

Infelizmente, porém, vemos o horror da guerra todos os dias.

Vale apenas um esclarecimento sobre a enorme discrepância de notas para esse filme. Acontece que Barada interpretou esse filme como sendo um comentário especificamente sobre a Segunda Guerra Mundial, mostrando como os japoneses eram "bonzinhos" e os americanos "maus", bombardeando cidades sem nenhuma explicação. Barada tem direito à sua interpretação mas não há como concordar com ela pois o filme é atemporal e poderia se passar até mesmo no universo de Guerra nas Estrelas. O efeito devastador seria o mesmo.


Sobre o Club du Film:

Há quase quatro anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como "Club du Film". Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São mais 102 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo.


Notas:

Minha: 8 de 10
Barada: 0 de 10
Nikto: 8 de 10

Club du Film - 4.30 - Say Anything (Digam o que Disserem)

O 30º filme do ano IV do Club du Film foi Say Anything (Digam o que Disserem), assistido em 29.10.09. Trata-se de um filme bastante cultuado, dirigido pelo ótimo Cameron Crowe (Jerry Maguire, Almost Famous e Vanilla Sky), em 1989 e estrelado pelo então bem jovem John Cusack.

É fácil entender porque todo mundo adora Say Anything. É um filme de adolescentes no estilo da época em que foi concebido, ou seja, com muita música, romance e amizade, mas sem ser só isso. O filme vai um passo além e apresenta personagens diferentes e que não se encaixam no estereótipo de "filme de adolescente".

John Cusack vive Lloyd Dobler, um rapaz que está prestes a se formar. Ele não é nem o nerd nem o garoto cool que nos acostumamos a ver em filmes como esse. Ele é apenas ele mesmo: um rapaz que vive a vida cada dia de uma vez e que não tem a menor pretensão de ser nada no futuro que está pela sua frente. Ele tem uma irmã, Constance (vivida pela irmã verdadeira de John, Joan Cusack, em papel sem crédito), que tem um filho (provavelmente sem querer). Ele adora o garoto e se sente, ele próprio, um garoto. Mas Lloyd tem uma paixão escondida: Diane Court (vivida pela estranhamente bela Ione Skye). A menina, diferentemente do que se pode esperar, é uma adolescente super estudiosa, tipo nerd, oradora da formatura mas que, apesar de bonita, nunca foi popular entre os colegas. Na verdade, eles mal a conhecem. Seu pai, James (o ótimo John Mahoney) incutiu na cabeça dela que ela tem que ser a melhor e só pensar no futuro. Lloyd, depois da formatura, decide chamar Diane para sair e ela tem uma ótima noite em que finalmente vem a conhecer seus colegas de turma. A isso se segue um romance conturbado pois, de um lado, o pai de Diane vê a falta de ambição de Lloyd como algo que vai atrapalhar a vida da filha e, por outro, Diane não consegue se esquecer do rapaz que a fez conhecer o lado leve e despreocupado da vida.

Mesmo com essa trama interessante (ainda que lá no fundo um pouco cliché), Cameron Crowe, também responsável pelo roteiro, criou uma sub-trama que trata do caráter do pai de Diane. Para dar de tudo para sua filha, James vinha há anos se aproveitando do falecimento dos idosos que vivem em sua casa para idosos, para tomar todos os seus bens. Apesar do crime ser pesado e horrível, Crowe consegue trabalhar de forma tal a nos deixar compadecidos pela luta de James.

Como se pode ver, não é o filme de adolescente comum. Há muito mais do que a superfície deixa ver e, aliado à isso, temos a ótima atuação de John Cusack que realmente nos faz acreditar - e querer - essa vida em que o futuro não passa pela cabeça e que os dias devem ser vividos sem preocupação. É tudo uma utopia, claro, mas utopia boa de ser, ainda que por apenas 100 minutos.


Sobre o Club du Film:

Há quase quatro anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como "Club du Film". Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São mais 102 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo.

Notas:

Minha: 7 de 10
Nikto: 7 de 10

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Club du Film 4.29 - Du Rififi Chez Les Hommes (Rififi)

O 29º filme do ano IV do Club du Film foi Du Rififi Alien Chez Les Hommes (Rififi), assistido em 20.10.09. Trata-se de um clássico filme noir francês dirigido por Juules Dassin (Topkapi) em 1954 e estrelado por Jean Servais.

Rififi faz dupla com Bob, Le Flambeur como os filmes que basicamente deram forma a filmes de assaltos complicados (se é que esse gênero existe). Rififi é lembrado por uma seqüência sem trilha sonora e sem fala (apenas com os sons de leves marteladas, cortes e alguns grunhidos) de 28 minutos que é o ponto alto do filme. De fato, essa cena é magistral e parece que Jules Dassin primeiro a imaginou e, depois, fez um filme em volta. A cena envolve os personagens principais, todos ladrões, praticando um assalto a uma joalheria no térreo a partir do andar imediatamente acima, onde vive um casal de idosos. Dassin nos envolve na cena pois na joalheria há alarme que detecta barulhos e vibrações, pelo que os ladrões não podem conversar e tem que fazer tudo muito vagarosamente. Não há erros na seqüência e toda ela parece verdadeiramente uma lição de como se assaltar uma joalheria.

Terminada essa cena, os ladrões, chefiados por Tony (Jean Servais) partem para dividir o espólio. Um dos ladrões, porém, exagera nos gastos e logo um outro ladrão, que não participou do roubo, começa a cobiçar o tesouro. Começa, então, a caçada dos ladrões não pela polícia mas por outro grupo de ladrões, mais truculentos e virulentos.

Tony adora seu afilhado e isso leva a uma cena de seqüestro do garoto e o resgate. Trata-se de um filme selvagem, em que o próprio herói tem moral muito dúbia: maltrata severamente uma amante logo no começo do filme e espanca um policial na cena da fuga. Seu único esteio moral parece ser o garoto e, por ele, parece disposto a se sacrificar.

Desnecessário dizer que o filme está longe de ser simpático.  Todo o bem orquestrado plano vai para o ralo e começa a azedar no minuto em que o roubo acaba. Paris é mostrada como uma cidade triste, suja e cheia de bandidos, muito diferente da imagem romântica que temos da cidade. A fotografia em preto e branco é linda e se utiliza bem dos reflexos e das ruas molhadas para o melhor efeito.

O filme, porém, com seus muitos clímax, parece se arrastar um pouco, tornando-se talvez até chato mais para o final, quando o desfecho dos personagens é óbvio. No entanto, Rififi é, sem dúvida, um marco na história do cinema e precisa ser visto por qualquer amante do cinema.

Nota:

Minha: 7,5 de 10
Barada: 7,5 de 10
Nikto: 6,5 de 10

Club du Film 4.28 - Alien (Alien - O 8º Passageiro)


O 28º filme do ano IV do Club du Film foi Alien (Alien - O 8º Passageiro), assistido em 14.10.09. Trata-se de um clássico filme de ficção científica de horror, dirigido por Ridley Scott (Blade Runner e Gladiator) em 1979 e estrelado pela então quase estreante Sigourney Weaver no papel da heroína Ripley.

Alien é um filme de ficção científica que redefiniu os filmes de ficção científica. Foi em Star Wars que o conceito de "tecnologia envelhecida" foi utilizado mais largamente, ou seja, acabou com aquela estória de as naves serem limpinhas e branquinhas, sem nenhum arranhão. Alien, porém, elevou esse conceito à 10ª potência pois nos apresentou uma nave (Nostromo) e equipamentos que pareciam usados há anos e, ao mesmo tempo, com aparência de algo que efetivamente pudesse ter sido feito por nós, terráqueos. Além disso, por serem apenas sete passageiros, a sensação de solidão e abandono é palpável durante todo o filme e os corredores mal iluminados e cheios de goteiras de Nostromo formam, efetivamente, um personagem na estória. Sem a atenção a esses detalhes, Alien seria mais um filme de monstro.

Aliás, o próprio monstro é um triunfo do design. Criado pelo brilhante artista H.R. Giger (que também criou design da Nostromo), o alienígena se tornou o padrão para os monstros que vemos hoje em dia. O filme já mereceria ser visto apenas por seu design mas ele tem muito mais a oferecer.

A estória todos que não viveram os últimos 30 anos em uma caverna conhecem bem. Sete passageiros de uma nave de mineração são despertados de um sono criogênico e acabam descendo em um planeta em que um deles é atacado por um bicho esquisito (carinhosamente chamado de "face hugger"). O tal bicho, na verdadeira, coloca um "ovo" de Alien na barriga da vítima e o monstrinho simpático, ao sair, faz, digamos, uma certa bagunça intestinal... E o bichinho cresce, claro, e vai pegando cada um dos tripulantes da nave espacial. A última  sobrevivente é Ripley (uma mulher heroína era quase inédito naquela época) e ela tem que se livrar da monstruosidade.

Ridley Scott aproveita para tratar de questões extremamente atuais como, por exemplo, a manipulação de grandes corporações e, sobretudo, a relação entre o ser humano e as máquinas. Há um pouco de 2001 - Uma Odisséia no Espaço no embate entre o homem e a máquina mas Scott consegue levar a briga para um patamar mais humano, mais identificável, ainda que o embate entre Dave e Hal 9000.

E o suspense do filme é muito bem construído. Apesar da obviedade do conceito de "monstro matando um por um", Scott consegue criar uma atmosfera tensa que deixa o espectador desesperado pela fuga dos personagens, mesmo já sabendo que eles não têm chance.

Em suma, Ridley Scott fez em Alien aquilo que James Cameron faz agora em Avatar: se utilizou de uma estória simples para impressionar o espectador com visuais incríveis e uma execução bem amarrada. Mas Scott ganha de Cameron pelo elemento humano que consegue capturar com suas câmeras e com o tratando do espectador de forma 100% respeitosa, sem tentar explicar, de forma didática, tudo o que está ocorrendo.

Notas:

Minha: 10 de 10
Klaatu: 10 de 10
Barada: 10 de 10

Club du Film 4.27 - Being There (Muito Além do Jardim)

O 27º filme do ano IV do Club du Film foi Being There (Muito Além do Jardim), assistido em 06.10.09. Trata-se de um conto de fadas no mundo real dirigido por Hal Ashby (Harold and Maude e Shampoo) em 1979 e estrelado pelo magistral Peter Sellers, conhecido por seu inesquecível papel do atrapalhado Inspetor Clouseau, na séries de filmes da Pantera Cor de Rosa.


A melhor forma de descrever Being There é dizer que ele é um filme mágico. Mágico na forma como encanta e prende a atenção do público; mágico como captura e incita a imaginação; mágico em sua crítica ferina e avassaladora da cultura norte-americana; mágico em sua atmosfera e, finalmente, mágico pela impressionantemente maravilhosa atual de Peter Sellers, no papel de Chance.


Chance viveu a vida todo como jardineiro da casa de um milionário. Ele nunca saiu da casa e só conhece o mundo exterior pela televisão. Chance, vale dizer, tem a idade mental de uma criança. Quando seu patrão morre, Chance é largado no mundo mas, depois de uma série de coincidências, quase todas elas baseadas na sua aparência de lorde inglês e de suas frase simples, sempre ligadas com a jardinagem mas que poderiam ser aplicadas à várias situações, Chance (chamado de Chauncey Gardner também por uma coincidência feliz) acaba na casa de um mega milionário Ben Rand (Melvyn Douglas) que está morrendo e acaba considerando Chance um gênio por suas colocações genéricas sobre plantas que Ben aplica à política e aos negócios. Ao mesmo tempo, Eve (Shirley MacLaine), esposa de Ben, se enamora de Chance.


O filme, que se passa em um época de notória dificuldade econômica nos EUA, explora o conceito de que o povo americano (ou qualquer povo na verdade) precisa de um salvador e, por isso, é capaz de "torcer" as palavras inocentes de um mero jardineiro em interpretações complexas que trazem bons augúrios. A forma como Hal Ashby manipula a imagem e o diálogo para que as conclusões tiradas sejam naturais e verdadeiras, sem nunca deixar claro para as pessoas (mas sempre para os espectadores) que Chance tem um problema mental.


Peter Sellers é um gênio no papel. Conhecido por suas comédias (os filmes da Pantera, o hilário The Party e o maravilhoso Dr. Strangelove), Sellers dá um show e não dá chance para seus colegas de trabalho. Sua performance é verdadeiramente inesquecível.


Notas:


Minha: 9 de 10
Barada: 9 de 10
Nikto: 8 de 10

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Crítica de filme: The Box

Assisti a The Box quando estive de bobeira em Londres no começo de dezembro. Trata-se do mais novo filme de Richard Kelly, diretor que em seu currículo tem apenas dois outros filmes: o cultuado Donnie Darko de 2001 e o completamente louco Southland Tales, de 2006. Apesar de ter sido originalmente anunciado para dezembro no Brasil, parece que ele só vai estrear em fevereiro de 2010.

Eu particularmente gosto muito de Donnie Darko mas me desapontei com as doideiras exageradas do segundo filme do diretor. Assim, foi com uma certa dose de precaução que fui ao cinema ver como é que Kelly conseguiu transformar em longa metragem o conto de Richard Matheson (autor de O Último Homem Sobre a Terra, recentemente adaptado mais uma vez como I Am Legend com Will Smith) que já havia sido convertido em um episódio famoso da série Twilight Zone (Além da Imaginação), sob o nome Button Button.

Posso dizer que até que Richard Kelly se saiu bem.

A estória é intrigante e se passa em 1976. James Marsden (o Cyclops de X-Men) vive Arthur Lewis, cientista e candidato a astronauta casado com Cameron Diaz (Norma Lewis). Os dois têm um filho pequeno e vivem a vida de contra cheque em contra cheque, sempre tentando esticar o dinheiro. Ao mesmo tempo em que a vida profissional dos dois começa a degringolar de vez (seria coincidência?), eles recebem a visita do misterioso e deformado Arlington Steward, vivido magistralmente pelo sensacional Frank Langella (vejam a atuação dele em Frost/Nixon). O Sr. Steward carrega uma caixa com botão protegido por uma redoma de vidro que só abre com uma chave. Se o casal apertar o botão, 1 milhão de dólares serão entregues para eles (naquela época, isso era muito mais dinheiro do que é hoje). Mas, claro, há uma "pegadinha". Ao mesmo tempo que eles se tornam milionários, alguém que eles não conhecem morrerá.


O dilema moral é evidente e, desnecessário dizer, o botão acaba sendo apertado. Segue-se uma investigação angustiante, com direito a pessoas meio "zumbis" e muita coisa sobrenatural e pouca explicação, bem no estilo Richard Kelly de ser. O final é particularmente de partir o coração.


No entanto, dos três filmes do diretor, The Box é o mais "pé no chão", se é que eu posso chamar um filme com teletransporte e controle mental como pé no chão. No entanto, as loucuras são meio que contidas nesse filme, tornando até mais coeso que o ótimo Donnie Darko. O uso de computação gráfica no filme, especialmente na deformação facial de Arlington Steward é muito bem feita. A direção mostra amadurecimento mas também mostra independência. Kelly se recusa a se conformar com os padrões hollywoodianos. Ele colocou um casal bonito nos papéis principais mas ao mesmo tempo os joga no meio de um dos piores dilemas morais já concatenados pela mente humana. Diaz, meio plastificada mas ainda considerada bela, não é um bibelô apenas. Guarda, em segredo, horrível mutilação que talvez se reflita na velocidade com que decide apertar o botão.


O filme exige bastante do espectador e não é de fácil digestão. Mas é um legítimo Richard Kelly. Tenho apenas receio que seus fracassos comerciais repetidos (The Box não fez quase nada na bilheteria) não o façam seguir o caminho mais fácil, tornando-se um diretor comum. Falta mais ousadia à Hollywood é Kelly é um dos poucos dessa raça em extinção.


Nota: 7,5 de 10

domingo, 20 de dezembro de 2009

Crítica de filme: Avatar


Depois de assistir Avatar em 3D fiquei  pensando no que eu poderia escrever que já não tivesse sido escrito aos borbotões por milhares de pessoas - críticos ou meros curiosos como eu - sobre o filme. Depois de muito pensar resolvi começar pelas duas coisas que se fixaram em minha mente na  medida em que os créditos do filme iam rolando na tela: Robert Zemeckis e Dança Com Lobos.

E vocês vão me perguntar o porquê, tenho certeza.

Vou começar por Robert Zemeckis. Eu o considero um excelente diretor, que nos brindou com obras como Uma Cilada Para Roger Rabbit, a trilogia De Volta para o Futuro, Forrest Gump e Contact. A questão é que, de 2004 para cá, Zemeckis resolveu se meter com a tecnologia conhecida inicialmente como "captura de movimento" mas que hoje se desenvolveu para "captura de performance". Essa tecnologia, usada de forma magistral na trilogia O Senhor dos Anéis diz respeito ao uso de sensores especiais colocados em atores para que o computador possa, depois, gerar um personagem 100% digital. Em O Senhor dos Anéis, Andy Serkis foi o ator que deu vida ao personagem Gollum. Em King Kong, o mesmo ator deu vida ao personagem título.

Acontece que Zemeckis é um diretor apenas, alguém que aparentemente não se enfronha na tecnologia como Peter Jackson ou James Cameron fazem. Tenho para mim que ele apenas recebe um produto pronto e faz seus filmes como o que está disponível. É por isso também que o nome de Robert Zemeckis se fixou em minha mente depois de ver Avatar: ele deve estar se contorcendo de raiva por não conseguir, depois de três tentativas seguidas, chegar aos pés do que Peter Jackson já havia conseguido antes dele e que James Cameron conseguiu elevado à décima potência com Avatar.

O Expresso Polar, Beowulf e Os Fantasmas de Scrooge não lambem as botas do que Cameron fez com seu mundo virtual em Avatar. Beowulf, por ser um filme de fantasia mas calcado em fotorealidade, talvez seja o exemplo mais gritante. O que Zemeckis conseguiu foi criar um monte de "corpos sem alma" que se movimentam pela tela. O que Cameron fez foi efetivamente criar um mundo que você acredita que existe e personagens completamente digitais com quem você efetivamente se sente confortável, como se humanos fossem. Os Na'vi de Cameron são seres que respiram como nós e atuam como os melhores atores. Sam Worthington (Jake Sully) e Zoe Saldana (Neytiri) atuam na pele de seres azuis de três metros de altura e feições felinas como qualquer outro ator atuaria normalmente. Cameron conseguiu, em um filme o que Zemeckis não conseguiu nem de longe e com muita boa vontade com três filmes (ok, James Cameron teve mais dinheiro que Zemeckis mas convenhamos que, somadas as três tentativas de Zemeckis, os dois ficam pau-a-pau em termos de orçamento).

E, repetindo, creio que a maior razão para isso ter acontecido é que James Cameron é um diretor mas também é um técnico, alguém efetivamente envolvido na tecnologia utilizada em seus filmes.

Mas vamos ao meu segundo pensamento após o fim de Avatar: Dança Com Lobos (Dances With Wolves). Esse filme, de 1990, estrelado e dirigido por Kevin Costner, e que arrebatou todos os Oscar da época, é um de meus westerns preferidos. Conta a estória de um soldado da guerra civil americana que é enviado para um posto no fim de mundo do oeste. Lá ele, relutantemente, se envolve com os indígenas, se apaixonando por uma bela nativa já prometida em casamento para o grande guerreiro da tribo. Ao longo do tempo, ele vai  se deixando envolver pela beleza da cultura da tribo e da nativa, chegando ao ponto de se voltar contra seus pares da "civilização" em defesa do grupo que o aceitou como um dos seus. Esse filme moderniza a estória de Pocahontas e John Smith, tão importante para os estadunidenses e é, basicamente, uma "estória padrão", repetida milhares de vezes em diferentes filmes.

O que James Cameron fez foi pegar Dança Com Lobos ou Pocahontas e lançá-los ao espaço. Jake Sully, ex-marine, depois do falecimento de seu irmão gêmeo cientista, lotado no planeta Pandora (nome nada sutil, aliás), o substitui no projeto Avatar. Esse projeto pode ser resumido na  transferência da mente humana para um clone de humano com Na'vi (daí a importância de se usar o mesmo DNA) para que seja possível que os humanos se infiltrem na cultura indígena do planeta e consigam negociar um acordo (o ar de Pandora é tóxico para os humanos). O que querem os humanos? Ora, um minério chamado Unobtainium (outro nome nada sutil mas que funciona) que existe em vastas quantidades exatamente onde a tribo local vive. Jake Sully, sendo um ex-marine ("ex" pois ficou paraplégico em sua última missão), consegue se infiltrar na tribo e começa a agir como um agente duplo, até que seus instintos primordiais o colocam ao lado dos nativos e de seu amor Neytiri (Zoe Saldana, a Uhura do novo Star Trek). As coincidências com Dança Com Lobos vão até mesmo no detalhe da caracterização do guerreiro nativo a quem Neytiri é prometida.

Isso é um falha?

Não exatamente mas a simplicidade do roteiro impede Avatar de ser uma obra-prima em todos os aspectos. E nem venham dizer que ficção científica altamente tecnológica é incompatível com estórias complexas. Bastam ver Matrix e, de James Cameron, The Abyss (O Segredo do Abismo) para terem uma idéia do que estou falando.

De toda forma, tenho para mim que a escolha de uma linha narrativa simples, com diálogos bem mundanos (em alguns momentos deu vontade de desligar o som) foi deliberada por parte de James Cameron. Avatar é um show de imagem e som dos mais inacreditáveis já colocados em uma tela de cinema. É algo que não se via há tempos: uma experiência cinematográfica completa. Perder Avatar no cinema é perder um importante capítulo da Sétima Arte.

Cameron não lançava um filme de ficção desde seu mega sucesso Titanic, de 1997. Como todo mundo sabe, Titanic mantém o posto de maior bilheteria mundial (não atualizada pois se for atualizada a bilheteria de E o Vento Levou leva a taça) do cinema. Titanic é, também, superlativo em tudo: custou 200 milhões de dólares, o maior orçamento da época, contou com um réplica quase exata do Titanic que Cameron teve o prazer de destruir ao final, estourou todos os orçamentos, com Cameron abrindo mão de seu salário inicial e por aí vai.

Antes de Titanic, Cameron tinha em seu currículo apenas outros seis filmes de ficção para o cinema: Piranha 2 (seu début e uma porcaria); O Exterminador do Futuro (The Terminator), um dos mais brilhantes filmes de ficção científica de todos os tempos; Aliens, outro filme que concorre ao posto de um dos mais brilhantes de ficção científica de todos os tempos; O  Segredo do Abismo (The Abyss), que eu considero uma obra prima mas que foi muito criticado, trazendo, no entanto, pela primeira vez, o uso da tecnologia digital de forma arrebatadora ao cinema; O Exterminador do Futuro 2, outro concorrente aos melhores da ficção científica de todos os tempos e o filme que introduziu de vez a computação gráfica ao cinema mainstream e True Lies, ótima comédia de ação, com o astro de Terminator. Com esse currículo invejável,  a tensão pela espera de Avatar era grande, especialmente quando o próprio Cameron, nada humilde (e, na posição dele, humildade é incompatível), declarou que seria o filme que mudaria o cinema.

Bom, Avatar não vai necessariamente mudar o cinema mas definitivamente vai mudar a forma como efeitos especiais são feitos e pensados. James Cameron sempre se esmerou em seus efeitos especiais e Avatar é o ponto alto de sua carreira nesse sentido estrito. Não é um filme melhor que os dois Terminator e Aliens mas certamente é um filme espetáculo que ataca sensorialmente o espectador de forma nunca antes vista. Feito para ser apreciado em sua plenitude em 3D, o filme envolve o espectador de maneira absoluta, fazendo-o acreditar estar em Pandora, vivendo com os Na'vi. As cores são vibrantes, o planeta respira, você vê que há coesão até mesmo biológica naquilo que foi criado (por exemplo, todos os animais selvagens têm seis pernas). As plantas são de detalhes impressionantes e os nativos são tão fotorealistas como se Cameron simplesmente tivesse filmado "em locação", com os "nativos verdadeiros".

Assim, se antes dava para criar um filme com efeitos mais ou menos aqui ou ali, depois de Avatar isso não será mais possível. Mas o destaque maior vai mesmo para a tecnologia de "captura de performance", que resolvi apelidar de "Zemeckis-killer". Como dito, os detalhes são impressionantes e nada mais justificará o uso de maquiagens extremas em atores. A "captura de performance" foi efetivamente catapultada à perfeição e não quero mais saber de filmes com essa tecnologia que não se beneficiem do que Cameron criou ao longo de seu hiato de 12 anos longe do cinema de ficção (ele desenvolveu tecnologia própria de "captura de performance" e de filmagens em 3D, consumindo, dizem, para lá de 300 milhões dólares).

Como muitos críticos disseram, se retirarmos os efeitos de Avatar, sobra um estoriazinha muito simples, rasteira e nada original. Ora, se retirarmos as piadas de The Hangover, também não sobra nada da estória. Se retirarmos a aventura de Indiana Jones, também nada resta. Acontece que o deslumbramento por Pandora e tudo que lá vive é parte tão integral de Avatar que críticas como essa não fazem o menor sentido. Cameron escolheu uma vitrine para suas criações e essa vitrine foi definitivamente a de uma loja simples, que não chama mais atenção do que está exposto. A escolha foi cirúrgica e perfeita pois o filme, apesar de seus 160 minutos, não é arrastado e não sofre de cenas desnecessárias. O que Cameron podia ter evitado é a narrativa de Jake Sully pois ela é didática demais para uma estória para lá de óbvia. Ele parece querer tratar os espectadores como totais idiotas.

Alguns também dizem que o filme é exageradamente ambientalista, até "ecochato". Outra besteira. Não há dúvidas que o filme é mesmo ambientalista e que, de certa forma, assim como Dança Com Lobos, é um  pedido de desculpas pelas enormes cavalices ambientais feitas pelos Estados Unidos, mas dizer que isso é um aspecto que retira a qualidade do filme é de uma falta de visão inacreditável. Trata-se de uma mensagem apenas mas o filme pode ser visto como sendo um filme de ação sobre a luta de seres de carne e osso contra a tecnologia, exatamente da mesma forma que Terminator 1 e 2 e Aliens também são.

Para fechar, vocês querem saber o que acho o maior defeito do filme? A campanha de marketing empreendida pela Fox. Nunca vi um filme tão esperado trabalhado de forma tão fraca por um estúdio. Os trailers são fracos, os posters do filme são péssimos e o tal Avatar Day em que 15 minutos do filme foram projetados gratuitamente no cinema foi extremamente mal aproveitado...

Espero que James Cameron não demore muito para lançar seu próximo projeto!

Nota: 9 de 10 (tiro um ponto apenas pelos diálogos fracos, pela trama batida e pela narrativa que subestima o espectador)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Crítica de filme: Paranormal Activity (Atividade Paranormal)

Dizem que Paranormal Activity foi feito pela bagatela de 15 mil dólares. E é bem possível pois ele só tem dois atores, quase nenhum efeito especial e basicamente se utiliza de câmera na mão. No entanto, até agora, conseguiu fazer 103 milhões de dólares só nos Estados Unidos. Talvez entre para a história do cinema como o filme mais lucrativo.

E será que ele merece esse sucesso todo ou foi só uma campanha de marketing bem feita?

A resposta é: os dois. O marketing de Paranormal Activity, feito pela Paramount foi para lá de inteligente. O trailer é uma montagem não do filme mas da reação verdadeira de platéias vendo o filme em cinemas. Brilhante a idéia pois ao mesmo tempo que não conta nada, mostra que o filme assusta, diferentemente dos filmes de terror e suspense que vemos por aí hoje em dia. Em segundo lugar, a Paramount fez lançamento bem limitado do filme, pedindo que os fãs de cinema enviasse e-mails para a produtora pedindo para que o filme estreasse em sua cidade. Isso criou um hype incrível que eu testemunhei quando estive em Nova Iorque no fim de semana de lançamento do filme. Foi impossível comprar ingressos!

O filme em si é bem simples e objetivo. Um casal se muda para uma casa aparentemente assombrada. Eles compram uma câmera e resolvem filmar os acontecimentos. O filme é um crescendo em que o diretor Oren Peli vai mostrando sua habilidade em construir o terror sem se utilizar de sustos baratos. O grande tchan do filme é a tensão que uma câmera parada com visão noturna consegue criar. A cada noite a situação piora até seu climax, nos últimos segundos do filme. É tudo feito em estilo mockumentary, parecendo que as imagens são verdadeiras e foram achadas depois dos acontecimentos do filme, muito na linha de Blair Witch Project e [Rec]. Como o que vai acontecendo no filme é sutil, a sensação de horror é bem maior do que nesses outros dois filmes e vale a pena assisti-lo no cinema para ficar cercado dos barulhos de medo das pessoas ao redor. É uma experiência incrível.

Paranormal Activity é mais um exemplo de filme que vem para mostrar que não se precisa gastar muito para se fazer bom cinema. Basta uma boa idéia e um tino de direção. O filme, claro, não é sem defeitos e o maior dele é a duração. Apesar de não ser muito longo em termos absolutos, apenas 86 minutos, ele parece que demora mais. O diretor realmente vai incrementando o terror de pouquinho em pouquinho mas poderia ter feito isso um tanto mais rápido, evitando repetições. Outro ponto que irrita um pouco é a insistência do casal em ficar na casa, apesar de tudo o que eles vêem na câmera no dia seguinte a cada noite que dormem lá.

O filme é altamente recomendado mas os fracos de coração devem evitá-lo. O filme é composto de sustos ma não sustos baratos com aquela trilha sonora bem forte e um monstro correndo atrás. É um terror psicológico realista que dá nos nervos.

Nota: 8,5 de 10

domingo, 15 de novembro de 2009

Crítica de quadrinhos: Wolverine: Old Man Logan (Wolverine: O Velho Logan)


A Marvel, influenciada por dois nomes quentes do momento, Mark Millar e Steve McNiven, resolveu, de uma hora para outra, parar a cronologia normal da revista Wolverine, no Estados Unidos, e começar uma estória que se passa no futuro do Universo Marvel, focada em Logan. Tudo começo no número 66 da revista, em junho de 2008 e foi seguindo até o número 72. Os números 73 e 74 voltam para a cronologia normal e, do 75 em diante, Wolverine deixa a revista (!!!) para dar lugar a seu filho sinistro, Daken, em Dark Wolverine.

Acontece que a série Old Man Logan só foi mesmo acabar em setembro de 2009, quando foi lançada a Gian-Size Wolverine Old Man Logan. E por que eu estou falando dessa estória.

Ora, ela foi "vendida" como sendo o The Dark Knight Returns (O Cavaleiro das Trevas) de Wolverine, o personagem Marvel mais cool e do momento. Além disso, figura Mark Millar, o roteirista mais quente da Marvel, que inventou o Universo Ultimate e escreveu Marvel 1985 e Kick-Ass (que será lançado no cinema em breve), além de ter revolucionado o Universo Marvel com a saga Guerra Civil (junto com Steve McNiven, aliás). O cara vale ouro para a Marvel e se ele quisesse escrever uma estória revelando que Logan, na verdade, é homossexual, acho que a Marvel teria deixado.

Agora fica a pergunta: Old Man Logan é mesmo comparável a The Dark Knight Returns?

A resposta eu já digo e é um retumbante NÃO. Qualquer comparação fica limitada ao ambiente das duas publicações. Ambas se passam em um futuro em que os heróis não mais existem e o personagem título pendurou as chuteiras. O mundo é dos vilões. Mas as semelhanças realmente acabam por aí. The Dark Knight Returns é um irretocável trabalho de Frank Miller, tocando em assuntos como o papel do herói e a fronteira entre o bem e o mal, além de conter fortes críticas sociais. Old Man Logan é um banho de sangue. Divertido? Sem dúvida! Mas não esperem algo nem próximo da obra máxima de Frank Miller.

A estória abre com um Logan envelhecido, 50 anos no futuro. Ele está casado e com dois filhos, morando em uma fazenda no deserto da California. Ele tem que pagar aluguel para a família Hulk que comanda a região como um bando de caipiras violentos. Há muito tempo Logan tornou-se um homem de paz e não utiliza mais suas garras. Falta dinheiro para o aluguel mas, por sorte, Clint Barton, o Hawkeye dos Vingadores (Gavião Arqueiro, no Brasil), cego mas ainda excelente arqueiro, passa por lá para recrutar Logan para uma viagem através dos Estados Unidos para entregar uma preciosa carga em New Amsterdam (algo como Washington D.C.). Logan aceita pois o dinheiro é bom mas vai logo avisando que não vai usar de violência. Clint diz que está bem e os dois partem para a aventura.

É mais do que óbvio que só teremos violência daí em diante. Logan tentará evitar mas não consegue completamente ser pacato. Há banhos de sangue, especialmente no último episódio, quando Logan chega de volta na Califórnia. A estória é simples e vai nos mostrando esse futuro sem heróis imaginado por Millar. O Caveira Vermelha é o presidente e o país foi dividido entre os vilões (a família Hulk comanda a Califórnia pois tomou o território do Abominável). É bacana ir descobrindo o que aconteceu com todos os heróis e há sacadas muito interessantes como colocar Las Vegas como a "Meca" de peregrinação de quem ainda tem esperanças que os heróis voltarão e a explicação do nome de um local chamado "Pym Falls".

No entanto, a estória e simples e linear, com um final bastante óbvio. Aliás, todo o desenrolar é bastante evidente e sem surpresas muito grandes mas a arte de McNiven, aqui bem exagerada, ficou muito bacana e chama atenção.

Para quem gosta de Wolverine em seu estado feral sem barreiras, vai gostar de Old Man Logan. Quem espera uma estória inteligente, cerebral, por favor vá ler novamente The Dark Knight Returns. Old Man Logan é diversão exagerada, histriônica e sanguinolenta do tipo blockbuster sem sentido.  Vale a leitura casual.

Nota: 7 de 10

Crítica de TV: Battlestar Galactica - Temporada 4.5


Comprei o Blu-Ray contendo os 10 (11 se considerarmos que o último é duplo) últimos episódios de Battlestar Galactica, série que, como sabem, eu adoro, bastando ver meus comentários sobre a Temporada 4.0. Fiquei olhando para a embalagem fechada por uma semana, sem coragem de abri-la. Finalmente, quando abri, passei a assistir um epísódio por dia, não porque a série seja ruim, longe (muuuuito longe) disso mas sim porque estava triste que ela estava acabando. A série The Wire, comentada aqui, aqui, aqui e aqui, é a mais brilhante série dramática que já vi. Battlestar Galactica é pau-a-pau com The Wire e seu fim significa o fim do que havia de melhor na televisão nos últimos 5 ou 6 anos.

Não mencionarei spoilers pois prezo muito essa série para dar chance de alguém estragar o prazer de assisti-la lendo meus comentários. O fim da primeira metade da quarta e última temporada nos mostra um final derradeiro, sem esperanças. 11 dos 12 modelos de Cylons foram revelados. Parecia que nada mais poderia acontecer. No entanto, os últimos 10 episódios mostram que eu estava errado.

Vamos falar logo sobre o final. A série acaba exatamente como eu, quando pequeno, achava que a série da década de 70 deveria acabar. Por isso, fiquei extremamente feliz e satisfeito com o que vi. Isso não quer dizer, porém, que o final é perfeito.

Daybreak, episódio rodado junto e divido em três partes, nos conta o destino final dos sobreviventes da guerra entre os Cylons e as 12 Colônias de humanos. A essa altura, pouco mais de 36 mil humanos sobrevivem às duras penas em várias naves lideradas pela astronave de combate Galactica e por seu almirante Adama (Edward James Olmos). Daybreak mistura cenas do passado de vários personagens em seus planetas natais com cenas do presente, na luta pela sobrevivência. Não fica muito claro o porquê desses flashbacks pois eles pouco impulsionam a estória, parecendo, na verdade, "encheção de lingüiça". A primeira parte da trilogia final lida com a última missão da Galactica, com seu grupo de voluntários suicidas; a segunda parte lida com a batalha final entre Cylons e humanos e a terceira com a resolução, o fechamento da estória para cada um dos personagens.

A primeira parte é boa, emocionante, mas poderia ter sido executada mais rapidamente. A segunda - a batalha - é sensacional mas rápida demais. Faltou dinheiro? A terceira parte é interessante, revela o tal final que eu sempre quis mas deixa um pouco a desejar em termos de execução e uso de um didatismo exagerado, algo ausente na série como um todo.

No meio dessa meia temporada há uma tentativa de motim em Galactica. Esses momentos, na verdade, são os pontos altos desses 10 episódios. Vemos Apollo e Starbuck lutando novamente lado-a-lado, vemos Adama tomando decisões radicais como no começo da série e vemos os Cylons tomarem decisões de alianças. Esses momentos aliados às revelações de um dos cinco Cylons finais e a revelação de quem é o 12º Cylon (escolha interessante, que surpreende mas não choca) fazem da temporada 4.5 uma ótima temporada.

O tema polêmico da religião está cada vez mais presente e o fim é fortemente religioso, com uma clara interferência de um deus ou de entidades divinas para explicar o que acontece. Isso enfraquece a série? No meu entender, não. O elemento religioso em Galactica foi uma das grandes jogadas dos criadores que contrapõem ciência e religião, tornando Baltar, o traidor, Baltar o cientista, em Messias. Fica evidente a discussão sobre o papel da tecnologia e o bem - ou mal - que ela nos traz. A tecnologia é um deus para nós hoje em dia? Ou foi um deus que criou a tecnologia?

Mesmo com um final perfeito executado de forma menos do que perfeita, Battlestar Galactica continua em meu coração como uma das duas melhores séries de televisão já feitas. Parabéns aos realizadores pela coragem de mostrarem que ficção científica pode ser mais do que armas laser e alienígenas monstruosos.

Nota da temporada 4.5: 9 de 10

Nota da série completa: 10 de 10 (não é um média)

Crítica de videogame: Batman: Arkham Asylum


Acho que os dias dos videogames porcarias baseados em personagens de quadrinhos está chegando ao fim. Certamente teremos muitos outros jogos ruins com base nesse material mas o que está acontecendo agora é o aparecimento de jogos efetivamente muito bons e com uma certa frequência. Wolverine foi um desses exemplos: um jogo muito divertido, ainda que repetitivo.

Agora é a vez de Batman ganhar o tratamento definitivo e meus comentários se referem à versão em PS3.

E o mais legal é que não seguiram o caminho fácil, que seria simplesmente pegar The Dark Knight, um excelente filme, e convertê-lo para um jogo. Não. O pessoal da Rocksteady e Eidos se baseou de forma livre na clássica graphic novel Arkham Asylum de Grant Morrison e Dave McKean para criar o que talvez seja o melhor videogame de super herói de todos os tempos e um que certamente merece menção entre os melhores já feito e ponto.

A premissa é a seguinte: o Coringa é preso mais uma vez e levado ao sombrio Arkham Asylum, manicômio judiciário onde ficam enjaulados os piores vilões de Gotham City. Lá, o Coringa põe em funcionamento um plano complexo para criar seres mostruosos e prende Batman lá dentro, junto com os bandidos. Cabe então a você, controlando o herói mascarado, acabar com os planos do tresloucado Coringa e sua gangue.

Os controles e a mecânica:

O jogo é em terceira pessoa, o que significa que você vê Batman de costas o tempo todo. Nesse jogo, o personagem que você controla fica mais próximo que o normal da tela e, por isso, os produtores o deslocaram um pouco para a esquerda o que, no começo, dá uma sensação estranha.

Os controles são os mais simples possíveis, apenas com a utilização dos botões com as figuras geométricas. No entanto, essa simplicidade é apenas na superfície pois os botões, para se ter a máxima eficiência, devem ser apertados com alguma cadência,  acompanhando-se sinais no jogo e com a utilização do joystick da esquerda. É difícil explicar pois você até consegue ganhar uma briga só martelando o mesmo botão o tempo todo mas, para a luta ficar realmente bela e fluida, há que se ter alguma calma e reflexos rápidos pois cada golpe correto serve para você somar "combos" e quanto mais golpes certos forem dados em seguência, mais interessante ficam os "combos". Com algum treino, é possível chegar facilmente a combos de 20 golpes sucessivos corretos mas não há dúvidas que os "combos" de 40 ou até mais são os mais impressionantes (ainda que eu os tenha visto apenas uma ou duas vezes, por total incompetência minha, admito).

Fora isso, você tem os gadgets de Batman, claro. No começo tem-se apenas os batarangs simples e um gancho (grapple gun) que permite que Batman suba mais facilmente em alguns obstáculos. Depois, com o desenrolar do jogo, você vai ganhado outros aparelhinhos interessantes, alguns deles essenciais para se completar o jogo todo.

Tudo o que você faz, inclusive os combos especiais, faz com que o vigilante mascarado acumule pontos de experiência (XP). A partir de um determinado número, você consegue escolher um entre diversos upgrades para Batman. Não demora para conseguir o primeiro e, dentre as várias escolhas, pegue logo o inverted takedown, que essencialmente permite que Batman se dependure de gárgulas de pedra como um morcego e pegue um coitado pelo pescoço e o deixe pendurado. Brilhante!

Além disso tudo, há o modo "detetive", que permite que Batman saiba quanto inimigos estão na sala, se estão armados ou não e também permite que Batman desvende as 240 charadas que o Charada deixou espalhadas pelo Asilo. As charadas não são essenciais para se terminar o jogo mas sua resolução permite acumular mais XP para upgrades mais rápidos, permite o destravamento dos desafios (abaixo), além de serem muito divertidas.

O jogo:

Batman tem que percorrer os corredores mais sombrios do Asilo para derrotar o Coringa e seus asseclas. Isso significa dizer que não basta sair correndo e estapeando os bandidos. Assim Batman não sobreviverá por muito tempo. Há que se usar de alguma estratégia e de movimentos furtivos, como chegar por trás de um bandido e fazê-lo desmaiar. Há que se subir em obstáculos e atacar por meio de tubos de ventilação. Há que ficar pendurando em uma beirada, esperar o bandido passar e puxá-lo para baixo, jogando-o lá de cima. Arkham Asylum é um jogo inteligente mas que não deixa a ação de lado. Às vezes, é paulada pura mas outras vezes há que se fazer as coisa com mais calma.

A roupa de Batman vai se rasgando ao logo do jogo e sua barba vai crescendo. É de um realismo impressionante.

Outro aspecto importante do jogo é o tempo investido pelos programadores em criarem situações que envolvem fases inteiras mas que não são realidade. Explico: em determinados momentos, Batman está sob a influência do Espantalho e começa a vivenciar seus piores medos. Coisas começam a acontecer que poderiam mesmo acontecer mas depois descobrimos que tudo está na mente de Batman. Em outro momento, há a luta com o Killer Croc nos esgotos do Asilo e vemos, novamente, o incansável trabalho dos programadores em apresentar o melhor trabalho possível.

Arkham Asylum não é o jogo mais difícil do mundo. Joguei em dificuldade "normal" e mesmo os chefes de fase foram medianos para fáceis. Mas eu não considero isso algo negativo. Sou jogador casual que quer apenas uma experiência bacana, com surpresas aqui e ali. Ficar horas na frente da televisão para aperfeiçoar um movimento específico para ganhar de chefes de fase é coisa que está além de minha capacidade e de minha paciência. O jogo é andar, lutar, resolver charadas, usar o modo detetive, lutar novamente, observar e por aí vai, sem nenhum obstáculo intransponível. Aliás, o bacana é que todo o mapa do Asilo é livre, ou seja, você pode voltar a qualquer ponto sempre que quiser.

Os desafios:

Mas os produtores não esqueceram de quem gosta de coisas difíceis. Na medida em que avançamos no jogo, destravamos "desafios" que são para serem jogados fora do jogo mas no ambiente e em fases específicas do jogo. São dois tipos de desafio: Combate e Predador.

O primeiro é só luta, o lugar perfeito para se aperfeiçoar táticas de luta e aumentar sua contagem de combos. Eu acabei com o jogo mas não consegui nem arranhar a superfície dos desafios pois são muito difíceis. Para se chegar a 100% do jogo, porém, os desafios são essenciais.

Os desafios do tipo Predador nos ensinam a lutar sem aparecer, pegando bandido por bandido, na maior tensão para não ser localizado pelos demais. A dificuldade é, também, extrema.

No PS3, esses desafios, depois de um download gratuito, podem ser jogados controlando o Coringa. São exatamente os mesmos mas a lógica de combate do Palhaço do Crime é diferente e exige um novo treinamento do zero. Coisa para quem gosta de perder horas a fio em frente à uma televisão para se tornar o Mestre dos Mestres.

Conclusão:

Batman: Arkham Asylum é uma obra-prima. A atenção aos detalhes é impressionante e, apesar de não enfrentarmos todos os vilões clássicos de Batman, eles estão todos lá presentes de alguma forma. É jogar para acreditar. Foi uma maravilha zerar o jogo e achar as 240 charadas. Pela primeira vez na vida tive vontade de jogar um jogo todo novamente, em dificuldade maior, algo que acho que farei nos próximos meses.

Esse jogo é altamente recomendável mas, apesar de Batman não matar ninguém, há muita morte e o uso de palavrões aqui e ali. Não é recomendado, assim, para crianças pequenas.

Nota: 9,5 de 10

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Club du Film - 4.26 - In Cold Blood (A Sangue Frio)

O 26º filme do ano IV do Club du Film foi A Sangue Frio, assistido em 22.09.09. Trata-se de um clássico em preto e branco de 1967, dirigido e roteirizado por Richard Brooks (Cat on a Hot Tin Roof), com base na obra literária de mesmo nome de Truman Capote. 

Quem assistiu ao mais recente Capote com o sensacional Philip Seymour Hoffman no papel título e gostou, simplesmente precisa assistir A Sangue Frio pois Capote conta a estória de como Truman Capote mergulhou na vida de dois assassinos para escrever seu possante livro. Quem não gostou de Capote ou não o assistiu, faça um favor e vá para a locadora agora e alugue A Sangue Frio. É indispensável.

Dois bandidos - Perry Smith (o ótimo Robert Blake de Baretta) e Dick Hickock (The Right Stuff entre vários outros) - assaltam uma casa e tudo dá errado, acabando com o brutal assassinato da família que lá reside. O filme se concentra no antes e no depois, ou seja, na construção dos personagens até a execução do roubo e, depois, com os dois presos e na fila para serem executados. Não é nenhuma surpresa que eles são presos mas certamente, para quem não viu, será surpresa o pouco destaque que se dá ao roubo em si. O diretor preferiu, para um ótimo efeito dramático, cortar o filme exatamente quando o roubo vai começar e nos mostra o que acontece depois, com os dois fugindo, sendo presos, sentenciados e, finalmente, esperando a morte.

A fotografia em preto e branco é belíssima e Robert Blake particularmente dá um show em sua atuação contida mas profundamente perturbardora. Sua carreira pelos anos seguintes foi tão complicada que não duvidaria que seus problemas tenham sido causados pelo trauma desse papel. Mas, para nós espectadores, é sensacional ver o desenvolvimento desse homem, basicamente um caipirão, com poucas aspirações na vida, sendo usado, reagindo e afundando.

Não há dúvidas que é um filme contra a pena de morte, mas não que os assassinos não mereçam ser presos mas sim pela constatação por Truman Capote que essa pena não traz nenhum benefício para a população. O filme não nos pede para torcer pelos bandidos e não passa uma mensagem que glorifica o crime. Ao contrário: os bandidos são mostrados como seres amorais, até mesmo idiotas, sem redenção. Mas esse realismo todo é torturante e mesmo assim, ao final, por mais que se defenda a pena de morte e que se espere algo assim vindo de tão brutais assassinatos, é difícil não sentir alguma pena dos personagens.

O filme tem um grande defeito: Brooks decidiu usar uma narração ao final que é completamente desnecessária e explica o óbvio, meio que estragando a dramaticidade da obra. Mas não é nada que condene o filme que, ao contrário, é altamente recomendado.


Sobre o Club du Film:

Há pouco mais de três anos e meio, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como Club du Film. Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São, novamente, mais de 100 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo.


Notas:

Minha: 9 de 10
Barada: 8,5 de 10
Nikto: 7,5 de 10

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Club du Film 4.25 - Tonari no Totoro (Meu Vizinho Totoro)


O 25º filme do ano IV do Club du Film foi Meu Vizinho Totoro, assistido em 10.09.09. Trata-se de um belo desenho animado do mestre Hayao Miyazaki que criou, dentre outros, Princess Mononoke, Spirited Away e Castle in the Sky.

Totoro pode não ser o melhor desenho de Miyazaki mas, certamente, é um dos mais belos. Na verdade, é de uma beleza tal que eu o colocaria entre os melhores de seu gênero. A beleza de Totoro não vem particularmente dos desenho - que definitivamente, são muito bons - mas sim do fato de a estória não ter um antagonista, um vilão. Trata-se, "apenas", da linda estória de amizade de duas irmãs, Satsue e Mei que se mudam para o interior com seu pai para ficarem mais próximas de sua mãe, que está hospitalizada. Na nova casa, as duas logo fazem amizade com "Totoros", bicho mágicos que as levam em várias aventuras.

A reação das meninas a cada descoberta é sensacional. Miyazaki conseguiu capturar, com perfeição e linhas simples, os traços da inocência das crianças. Mostra a felicidade da descoberta e a tristeza da perda de maneira soberba, que por si só já faz o filme ser obrigatório em qualquer videoteca. Pena que não encontrei esse filme em DVD no Brasil, pois queria mostrá-lo para minhas duas filhas.

Como eu disse mais acima, não há vilões no filme. Nada é preto ou branco como na maioria dos filmes. Mas nem por isso o desenho se torna chato ou sem conflitos. Há o desaparecimento inicial de Mei, que encontra os Totoros, há a alegria de explorar a nova casa, a aflição quando Mei desaparece novamente, a tristeza quando as meninas descobrem que sua mãe não vai sair tão cedo do hospital. Todos esses elementos tornam o filme muito movimentado e original. Afinal, Myiazaki é conhecido por suas maluquices visuais e, se você sempre quis ver um  gato-ônibus e nunca conseguiu, esse é seu filme. Mas do que isso, se você tem filhos, esse filme é essencial.


Sobre o Club du Film:

Há pouco mais de três anos e meio, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como Club du Film. Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São, novamente, mais de 100 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo.


Notas:

Minha: 8 de 10
Barada: 6 de 10

Crítica de filme: Michael Jackson's This Is It


Michael Jackson certamente deixou o sucesso subir à cabeça, foi claramente manipulado por seus irmãos, advogados e agentes. Era um louco completo, que passou por processo de branqueamento da pele e sei-lá-quantas operações plásticas que o deixaram deformado. Teve filhos de maneiras, digamos, pouco convencionais, chegando até a pendurar um do lado de fora da janela quando bebê. Em sua instabilidade, criou sua própria Xanadu, em que até parque de diversões tinha. Passou por forte acusações de pedofilia, algo que simplesmente o marcou pesadamente. No meio disso tudo, queimou sua fortuna angariada com a venda do que sem dúvida são os melhores discos de música pop do mundo. Isso e muito mais era a vida degenerada e triste de Michael Jackson, o Rei do Pop.

Mas nada disso apaga o fato que ele era um gênio, o melhor naquilo que ele fazia: música e dança. This Is It mostra isso de forma evidente.

Falei tudo de ruim que consegui me lembrar de MJ para já deixar esse assunto de lado. Eu sei que ele tinha milhares de defeitos graves mas This Is It não comemora os defeitos, não é uma biografia equilibrada, mostrando o lado positivo e negativo do cantor. É um presente aos fãs e aos não fãs também.

O filme - mais um documentário musical, na verdade - tinha tudo para dar errado, muito errado. Foi montado às pressas a partir de imagens tiradas dos ensaios para o show que Michael Jackson inauguraria em Londres na O2 Arena em junho desse ano. As imagens vão da qualidade boa até a baixa resolução em formato 4x3. Kenny Ortega, o diretor, estava mais lá para criar um DVD de extras sobre o show de Michael do que para fazer um filme. No entanto, com os fragmentos que filmou, conseguiu um feito impressionante. Montou um filme bom que nos mostra o que poderia ter sido o show de MJ se ele não tivesse falecido semanas antes. Mesmo para aqueles que não são fãs do Rei do Pop, fica claro que o espetáculo seria algo do outro mundo, extravagante, bem ensaiado, perfeito, exatamente como a obra e o legado de Michael Jackson.

This Is It é uma sucessão de números musicais começando com Wanna Be Startin' Somethin' e encerrando com Man In The Mirror. As imagens, às vezes, são entrecortadas com Michael dando instruções para seus músicos e dançarinos e, em outros momentos, para imagens de clipes que seriam usados no show efetivamente.

O que mais me impressionou foram as imagens de Michael descrevendo ao diretor musical e aos músicos em geral o que exatamente ele queria. São esses momentos que deixam evidentes a qualidade técnica e o profissionalismo de MJ. É impressionante como ele percebe notas que não o agradam e exige pausas em determinados momentos. O cara pode ser infantil e louco fora do palco mas, no palco, ele se demonstra como um ser integrado em seu habitat, vivendo a vida que nasceu para viver.

É uma pena, porém, que Kenny Ortega  se concentra mais nos números musicais no que essas demonstrações do brilhantismo do astro. Eu, particularmente, não reclamaria se algumas músicas como a chata The Earth Song tivesse sido eliminada e, em seu lugar, fôssemos brindados com Michael dando aulas de música à sua equipe. Teria sido interessante, também, entrar no processo criativo dos passos de dança, algo que não é mostrado.

O filme vai muito bem até e incluindo Smooth Criminal em que Ortega consegue mais ou menos mostrar aquilo que aconteceria no palco: Michael entrando no mundo de Gilda e de Humphrey Bogart, interagindo com os personagens. Depois, segue uma sequência de números menos empolgantes, talvez pela falta de material de Kenny Ortega. Até Thriller ficou fraco pois o clássico foi meio que descaracterizado. Mais para o final, porém, vem Billie Jean e a demonstração suprema do controle absoluto de Michael sobre sua técnica: ele canta e dança, sem backup, sozinho no palco, do começo ao fim. É impressionante ver esse momento, sabendo que, afinal, vem de um homem de 50 anos. Algo semelhante ocorre com Man In The Mirror logo em seguida.

This Is It, como um extra de DVD, é sensacional, brilhante. Como um filme, tem seus defeitos, como longos momentos pouco empolgantes e pouca demonstração do que é MJ, o profissional, trabalhando na música. Assim como temos que separar a imagem que temos do homem particular Michael Jackson do homem público Michael Jackson, o primeiro com graves problemas e o segundo um gênio, também temos que separar o ardor de fã pelo artista e a qualidade de um filme feito com cenas que não tinham o objetivo de serem montadas em formato de filme para cinema. O resultado é bacana, uma grande homenagem aos fãs e ao astro, que nos deixa tristes por ele ter morrido assim de forma tão abrupta e nos faz querer continuar ouvindo sua obra logo ao sair do cinema.

Nota: 7 de 10

Crítica de videogame: Resistance: Fall of Man



Aqueles que conhecem videogame sabem que Resistance foi lançado junto com o Playstation 3, em novembro de 2006. Dessa forma, não faz nenhum sentido comentários sobre esse jogo que já em 2007 não era mais novidade. De toda forma, só consegui jogá-lo recentemente e devo dizer que adorei a experiência, mesmo três anos atrasada.

Resistance se passa na década de 50 na Inglaterra. O mundo está em guerra, mas não a guerra que conhecemos. Um vírus de origem desconhecida atingiu a União Soviética e se espalhou pelo país, que foi cercado em quarentena. Tempos depois, a quarentena ruiu e a Europa foi infestada pelo vírus, batizado de Chimera. Seu efeito não poderia ser outro: transforma as pessoas em seres horrendos que atuam em conjunto, como abelhas em uma colméia. Você é o sargento Nathan Hale, soldado das forças americanas que desembarca na Inglaterra para ajudar os ingleses a resistir aos monstrengos. Logo no começo do jogo suas forças são dizimadas e Nathan é infectado pelo vírus mas não cai em coma como os demais. Algo em seu DNA é diferente e isso o faz se tornar um híbrido de humano e Chimera, o que é péssimo para os monstrengos. Armado com armas que lembram muito as armas da Segunda Guerra Mundial mas com alguma tecnologia extra ou com armas completamente estranhas e variadas (de granadas a lança mísseis), seu objetivo é dizimar as forças inimigas, tudo isso em "primeira pessoa".

A jogabilidade é sensacional. É bem verdade que demorei um pouco para me acostumar com os controles e, por isso, tomei muito tiro e morri várias vezes ainda no começo da primeira fase. Não há tutorial. O jogo já começa no fogo cruzado e minha inexperiência com videogames ficou evidente.

Mas, mesmo assim, perseverei e comecei a me acostumar a estourar os cérebros dos bicharocos que iam aparecendo. Na medida que eu progredia, ia conseguindo armas mais interessantes, especialmente um rifle "sniper" com lente telescópica e a habilidade de colocar tudo em "câmera lenta", de forma a facilitar aquele tiro perfeito. Esses momentos foram de extremo prazer e minha reclamação maior é que o jogo dá relativamente poucas oportunidades de se usar esse rifle. A maioria do tempo é mesmo com os dois rifles principais, um de tecnologia normal e outro de tecnologia Chimera. É apertar o gatilho e sair matando mas não de forma completamente irracional. Há que haver um mínimo de bom senso. Só sair atirando como em Halo, por exemplo, resultará na morte do sargento, por mais resistente que ele seja. Mas, com algum planejamento e umas granadas bem colocadas, não tem monstro que você não consiga destruir.

Isso tudo sem falar nos veículos. Nathan consegue pilotar um jipe, um andador do tipo AT-ST de Star Wars e um tanque de guerra. São poucos esses momentos mas todos eles muito lindos, de emocionar de tão devastador que é.

Os chefes de fase são variados e do jeito que eu gosto: não muito difíceis. Jogo, para mim, tem que ser divertido acima de tudo e não ridiculamente complicados, exigindo reflexos milimétricos e treinamento constante. Esse jogo oferece tudo na medida certa, sem ser muito fácil ou muito difícil (pelo menos no modo "normal" que joguei).

O grande problema desse jogo é que, como estou acostumado com o treme-treme do controle para me avisar quando estou apanhando, tive sérios problemas para me ajustar. É que Resistance não tem o rumble já que o controle lançado junto com o PS3 em 2006 absurdamente não tinha esse acessório (algo que a Sony alterou nas versões posteriores do console).  Mas, depois de umas 50 mortes eu comecei a me acostumar...

Fiquei tão empolgado que comprei Resistance 2 recentemente mas ele vai ficar fechadinho até eu acabar o maravilhoso Batman: Arkham Asylum que estou jogando agora e, para variar, apanhando muito.

Nota: 8,5 de 10