sábado, 9 de maio de 2009

Crítica de TV: The Wire - 5ª Temporada


Foi com muita relutância que comecei a assistir a 5ª temporada de The Wire. E por duas razões. A primeira era que simplesmente não queria que acabasse (afinal, eram só mais 10 episódios da melhor série já feita) e, a segunda, era que eu não queria que os produtores eventualmente estragassem uma experiência que, até o final da 4ª temporada, foi perfeita.

Mas, claro, segui em frente.

Sobre as razões para minha relutância, não posso fazer e falar nada sobre a primeira, só lamentar e, sobre a segunda, posso dizer que The Wire continuou e acabou fortemente. Talvez não de forma tão espetacular, mas muito satisfatória. Explicarei o porquê da minha razoável insatisfação (que, de forma alguma significa que a 5ª temporada é ruim, apenas mais fraca que as demais) mas antes precisarei contar um pouco da estória.

Nessa temporada, McNulty, que andou sumido da última, volta com força total. Um ano se passou desde ao acontecimentos da 4ª temporada e o novo prefeito, como todo político, prometeu, prometeu mas não cumpriu suas promessas. Uma dessas promessas foi o aparelhamento da polícia. Ao contrário, agora os policiais mal tem viaturas e não recebem por horas extras que são essenciais para o bom cumprimento do dever, especialmente quando vigilância constante é necessária. O sucateamento total da polícia se mistura a um novo ingrediente, que é introduzido nessa temporada: o poder da imprensa e suas maquinações internas. Vemos de perto como funciona a redação do The Baltimore Sun e conhecemos novos personagens: um editor muito sério e um repórter salafrário que faz de tudo para subir de vida.

Nesse cenário, surge a força motriz da série que é, ao mesmo tempo, o fundamento de minha reclamação sobre a última temporada. Jimmy McNulty, desesperado por perceber que investigações relevantes, como a relacionada ao novo chefão das drogas Marlo Stanfield (Jamie Hector) estão sendo paralizadas por falta de verbas, cria uma mentira enorme para fazer a máquina da prefeitura cuspir dinheiro novamente. Não vou contar o que é, pois isso estragaria um dos prazeres de ver a série mas vale dizer que a mentira de McNulty é o epicentro da estória. 

Acontece que as outras temporadas não se valeram de artifícios de grande repercussão como esse. Talvez seja um exagero meu mas essa "criação" de McNulty (que poderia até ser interpretada como nada mais do que o desenrolar comum do personagem em vista do que ele faz nas temporadas anteriores) soa artificial, estranha, meio alienígena na série. 

Por outro lado, essa mesma "criação" nos brinda com os momentos mais eletrizantes da série inteira (os três últimos episódios). Talvez seja essa a compensação que equilibraria a estória.

Tirando esse pequeno probleminha (para mim, claro), a série é perfeita. Os fins de personagens-chave, como o traficante Marlo Stanfield, o coronel Cedric Daniels (Lance Reddick), o advogado de bandido Levy (Michael Kostroff) e dos próprios Jimmy McNulty e detetive Lester Freamon (Clarke Peters), assim como o do detetive Bunk (Wendell Pierce) e do traficante Bodie (J.D. Williams), são perfeitos. Ah, e como eu poderia esquecer de citar o que talvez seja o personagem mais memorável da série depois do traficante Stringer Bell (Idris Elba), o assassino homossexual Omar Little? Omar tem um fim absolutamente surpreendente e de deixar qualquer um de queixo caído.

As qualidades da 5ª temporada ultrapassam em muito seus defeitos mas a colocam um tantinho abaixo da temporada que levou nota mais baixa, a primeira.

No entanto, uma coisa é certa: The Wire é, sem sombra de dúvidas, a melhor série televisiva que já assisti em minha vida.

Nota: 9 de 10

Crítica de quadrinhos: Fables (Fábulas)

Fables, para quem não sabe, talvez seja a melhor estória em quadrinhos em continuidade (ou seja, que não é uma minisérie tipo Watchmen ou The Dark Knight Returns) já feita. Seu primeiro número saiu em 2002 e, hoje, ela está no número 83 e crescendo. 

Li, há pouco, duas compilações de Fables, os volumes 10 e 11, contendo do número 60 ao 75. Li todos os volumes anteriores, claro, e a estória continua sensacional.

Fables foi criada por Bill Willingham e conta a estória dos personagens de contos de fada que tiveram que fugir de suas respectivas terras por causa do avanço do terrível e misterioso Império, regido pelo Adversário. Quem é o Adversário? Bom, isso eu não posso contar mas adianto que é um personagem de fábula muito famoso e querido e alguém que vocês jamais desconfiariam. Não vou contar pois o segredo só é revelado bem para a frente e isso estragaria o prazer da leitura.

Pois bem, os personagens de Fábulas sobreviventes fugiram para Nova Iorque, claro (onde mais?) e lá se estabeleceram há séculos, vivendo muito bem. Há, também, uma fazenda no interior do estado onde vivem os personagens que são animais e que não conseguem reverter para a forma humana (os ursos da estória da Cachinhos de Ouro, por exemplo). O primeiro número começa com o assassinato de Rose Red, a irmã de Branca de Neve e a estória conta a investigação que se segue. Os volumes 10 e 11, por sua vez, já tratam das terríveis batalhas dos exércitos do Adverário contra os Fables de Fabletown (nome da rua em New York onde eles moram).

Os personagens principais são:

- Branca de Neve - Uma sub-prefeita fria e mandona;

- Rose Red - Irmã rebelde de Branca de Neve (Irmã, como assim irmã?, vocês perguntarão. Pois bem, os irmãos Grimm criaram duas estórias com o mesmo personagem, sendo que, numa delas, Rose Red era a irmã mesmo de Branca de Neve, numa estória sem os anões);

- Bigby Wolf - Sim, o lobo mau, agora transformado em humano mas podendo reverter à forma animal na hora que quiser. É uma espécie de Wolverine;

- Jack of Fables - Um malandro que encarna todos os personagens com nome de "João", tais como João e o Pé de Feijão e Jack (João) Frost;

- Cinderella - Uma pacata dona de loja de sapatos que, na verdade, é uma super espiã e assassina treinada por Bigby;

- Príncipe Encantado - Um príncipe extremamente mulherengo que já foi casado com Branca de Neve, Cinderella e Aurora (a Bela Adormecida).

A lista de personagens, na verdade, é interminável pois tem a Bela, a Fera, a bruxa que capturou João e Maria (Frau Totenkinder - o nome em alemão é ótimo: Senhora Mata Crianças), Ali Babá, Simbad, Mowgli, Hensel (João) e Gretel (Maria), Chapeuzinho Vermelho, o sapo que virou príncipe quando foi beijado, os Três Porquinhos, Baghera, Shere Khan e por aí vai.

A interação entre eles é sensacional e as estórias são brilhantes. O grande arco, que acaba no volume 11 trata da batalha entre os personagens de fábula bons e os maus, sendo que todos os bons são ao mesmo tempo maus e vice-versa. Não tem preto e branco nessa estória. Só tons de cinza. Ah, esqueci de dizer: cabeças e sexo rolam, o que torna as estórias impróprias para os pequenos.

Dentro desse arco, conhecemos várias estórias de origem e de fuga do Império (a de Chapeuzinho Vermelho é especialmente boa). Nada é sem propósito e tudo chega a um final bem satisfatório. Mas Willingham já disse que a batalha final (essa que li agora) não é o fim de tudo. 

Bom, isso me deixa muito curioso para ver o que vem agora pois o equilíbrio de forças antes existente acabou e a mecânica de toda a estória deve mudar. Melhorar vai ser difícil mas posso torcer para que a qualidade ao menos se mantenha o que, pela nota abaixo, vocês vão ver que é mais do que o suficiente.

Nota: 10 de 10

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Crítica de filme: In Bruges (Na Mira do Chefe)

Não se deixem enganar pelo título em português. In Bruges (Na Mira do Chefe) é uma comédia de humor negro, não uma comediazinha rasgada que o título dá a entender. Vale muito a pena assistir essa pequena pérola do humor britânico estrelando Colin Farrell , Brendan Gleeson e Ralph Fiennes.

Farrell (no seu melhor papel) e Gleeson (sempre ótimo) são Ray e Ken, uma dupla de assassinos de aluguel, a serviço de Harry Waters (Ralph Fiennes). Depois de um trabalho que acaba mal na Inglaterra, Ray e Ken têm que correr para Bruges, na Bélgica, para se esconder, por instruções de Harry. Lá, Ken, assassino mais experiente, passa a viver uma vida de turista, apreciando os museus e atrações locais. Isso para o desespero de Ray, claro, um assassino novato que fez besteira em seu primeiro "serviço". Para Ray, Bruges é um "shit hole" e ele fica mal humorado o tempo todo quando é forçado por Ken a visitar os pontos turísticos.

Só esse choque de personalidades e de atitudes já vale o filme. No entanto, o roteirista e diretor Martin McDonagh (um dramaturgo conhecido) faz com que Ray e Ken entrem em sérios conflitos, o que culmina com um vingativo Harry vindo à Bruges para uma prestação de contas.

Apesar dos vários deliciosos momentos de humor negro, a começar pela cara de emburrado de Ray diante da cidade de Bruges, continuando com seu encontro com uma garota com uma atividade suspeita que encontra num set de filmagens de um filme cabeça, culminando com Ray e Ken em um quarto com duas prostitutas holandesas e mais um anão americano, todos cheirando cocaína, até o final quase em estilo faroeste, In Bruges é um filme violento, em que cabeças são arrancadas e o sangue transborda. Mas tudo com muita fleuma britância.

A química entre Collins e Gleeson é perfeita e a entrada de Fiennes, já em momento adiantado do filme, só melhora a situação.  A cidade também é um personagem importante, fortemente presente em todas as situações.

Finalmente, os diálogos são um caso à parte de tanta perfeição. Vejam um exemplo, no momento em que Ken quer subir numa torre medieval para ver a cidade: 

Ken: Coming up? 
Ray: What's up there? 
Ken: The view. 
Ray: The view of what? The view of down here? I can see that down here. 
Ken: Ray, you are about the worst tourist in the whole world. 
Ray: Ken, I grew up in Dublin. I love Dublin. If I grew up on a farm, and was retarded, Bruges might impress me but I didn't, so it doesn't. 


Sensacional, não?

Nota: 8,5 de 10

terça-feira, 5 de maio de 2009

Crítica de quadrinhos: Captain America de Ed Brubaker

Em quadrinhos mainstream ninguém morre de verdade. Muitos personagens apenas morrem temporariamente para resurgirem iguaizinhos (vide a Fênix dos X-Men) ou de formas variadas (vide o próprio Superman, em uma série que não li e não quero ler, mas sei que ele apanhou de um alienígena, "morreu" e ressuscitou de três formas diferentes, seja lá o que isso signifique). 

Havia, porém, três fortes exceções, duas com o Homem-Aranha e uma com o Capitão América. No caso do Homem-Aranha, as exceções são (ou eram) Gwen Stacy, seu primeiro grande amor e o Tio Ben. Gwen Stacy, no entanto, reapareceu como um clone e, ainda que um clone não seja exatamente a mesma pessoa, já não conto mais ela como uma verdadeira mortal. 

O outro caso é o do tio Ben, aquele que Peter Parker, ainda deslumbrado pelos poderes de aranha mas sem qualquer responsabilidade, acaba deixando morrer nas mãos de um bandido que ele não captura por achar que isso não é com ele. O tio Ben continua bem morto, obrigado, mas isso não quer dizer que ele não possa reaparecer por aí, em alguma estória idiota.

O terceiro caso era com o Capitão América. Durante a 2ª Grande Guerra, Steve Rogers tinha um pupilo chamado James Buchanan Barnes, ou simplesmente "Bucky", que vestia uma máscara e uma roupa azul e vermelha. O garoto não tinha poderes e acaba morrendo no mesmo incidente que deixa o Capitão congelado num bloco de gelo durante décadas, até ser reanimado pelos Vingadores.

Entra Ed Brubaker.

Esse cara pegou a estória do Capitão em uma situação bastante ruim, com vendas baixas e reputação lá no buraco. Ele resolve, então, fazer o que todo roteirista barato faz para dar uma sacolejada na vida de um super-herói de quadrinhos: revive um personagem (ok, os demais roteiristas escolheriam matar um dos personagens, que depois reapareceria, mas tudo bem, dá no mesmo).

Assim, Ed Brubaker reviveu Bucky, em uma série de 25 edições de Capitão América, começando na edição número 1, em 2007. A série continua até hoje, com Brubaker no leme, mas essa crítica só trata das primeiras 25 edições (que li numa coletânea gigantesca que era dificil até de segurar na mão).

Bucky morreu em uma explosão em 1944. No entanto, se o Capitão América foi congelado quando caiu no mar gelado naquela mesma explosão, por que Bucky também não poderia ter sobrevivido? Ed Brubaker parte desse raciocínio, que não é nada original. 

Mas é só. A falta de originalidade ficou por aí. O que o cara conseguiu fazer a partir dessa premissa que, em casos normais, é idiota, tem que ser considerado como trabalho de gênio.

Já li muita estórias em quadrinhos, acompanhava os heróis comuns como Homem-Aranha e o próprio Capitão América. Aí eu cresci ou as estórias passaram a ficar complicadas demais para minha cabeça (acho que é o segundo caso...). Larguei de vez os super-heróis comuns mas lia e ainda leio estórias mais contidas, independentes (American Born Chinese por exemplo) e outras nem tão independentes mas, mesmo assim, fora de continuidades malucas décadas (Y: The Last Man, criticada aqui e Fables que será comentada em breve). De super-heróis mesmo, só quando a Marvel passou a publicar a linha Ultimate, mais séria e desligada da continuidade normal. Nunca gostei de DC, a não ser os clássicos sensacionais de Alan Moore, Frank Miller, Bolland e alguns poucos outros.

Nesse contexto, admirei ainda mais o trabalho de Ed Brubaker. Ele pegou uma cronologia complicadíssima do Capitão América e, sem desconsiderá-la, fez um trabalho que um novato poderia pegar e ler. E não parou só por aí. 

Tudo começa com um plano do arqui-inimigo do Capitão América, o Caveira Vermelha, de reconstruir o Cubo Cósmico (praticamente usado por Brubaker como um McGuffin). Entra um personagem novo, o russo General Lukin com um plano que envolve o assassinato do Caveira. Quem o mata? Bucky! Ele, na verdade, não morreu e vinha atuando como agente russo desde que foi achado semi-congelado e desmemoriado no Mar do Norte. Mas o bacana é que Brubaker trouxe relevância à ressurreição do personagem, inserindo-o retroativamente na cronologia Marvel de forma brilhante, irretocável. Ele até mesmo justifica a existência de Bucky como "ajudante" do Capitão América durrante a Segunda Guerra: ele fazia o trabalho sujo que o Capitão, como símbolo da nação americana, não podia ser visto fazendo. Só esse "lado negro" já seria suficiente para justificar a leitura de Ed Brubaker.

Mas as coisas não páram por aí. Sem revelar muito, Brubaker não cai na armadilha fácil de colocar Bucky e o Capitão América conversando e fazendo as pazes e tudo fica normal. O Capitão está desolado pelo passado terrível de Bucky, agora chamado Winter Soldier (Soldado Invernal), em suas missões de espionagem e assassinato por décadas. Bucky está desolado por ter feito o que fez. Os dois não se aproximam, não se reconciliam. 

E quando as coisas parecem melhorar um pouco, Brubaker, em uma cartada de mestre, assassina o Capitão América. Nada heróico. Ele está algemado, indo para o Tribunal, quando toma um tiro de um sniper, ou será que mais alguém está envolvido? A revista, hoje, está na edição 50 e o Capitão América ainda não foi ressuscitado. Imaginem 2 anos sem um dos maiores heróis dos quadrinhos? Brubaker tem essa coragem. Claro que, pelo que andei vendo, em algum momento entre o número 25 e o 50, Bucky se torna o Capitão mas Steve Rogers, até agora, não voltou.

Tenho poucas dúvidas que voltará. No entanto, também tenho poucas dúvidas que Brubaker tornará relevante essa volta, tudo dentro de um plano mestre que, tenho para mim, ele tinha na cabeça desde que começou a escrever sua primeira edição.

Quadrinhos com essa qualidade - de heróis mainstream então! - são raríssimos e merecem ser saboreados.

Nota: 9 de 10

domingo, 3 de maio de 2009

Crítica de filme: The Spirit

Alguém, por favor, casse a licença de direção cinematográfica de Frank Miller e coloque-o novamente onde ele nunca deveria ter saído: da frente de uma prancheta de desenhos, fazendo o que ele sabe fazer, ou seja, quadrinhos (todos excelentes, com exceção, claro, de The Dark Knight Strikes Again).

O cara se entusiasmou quando "co-dirigiu" (e as aspas aqui devem ser interpretadas literalmente pois ele não co-dirigiu porcaria nenhuma) Sin City com Robert Rodriguez e resolveu partir para carreira solo. No entanto, não consigo entender como algum figurão de Hollywood, depois de ler o roteiro para uma pérola como The Spirit, fecha o livro e diz: "Ok, vamos financiar pois será um grande filme e ganharemos dinheiro!". Um imbecil como esse, que autoriza The Spirit, é tão culpado quanto Frank Miller, que escreveu o roteiro e dirigiu o filme.

Sobre o filme em si, para quem mora numa caverna, ele é baseado nos clássicos quadrinhos do mestre Will Eisner de mesmo nome, sobre um policial que morreu e reviveu como The Spirit, protetor de Central City. O herói de Eisner, porém, não tem muito mais a ver com o de Frank Miller, que conseguiu, além de tudo, deturpar completamente a criação de Eisner, que deve estar se contorcendo no túmulo.

O filme tem o lindo visual de Sin City (Frank Miller basicamente copiou o que viu quando ficou que nem papagaio de pirata durante a direção de Rodriguez) com o ridículo roteiro de um daqueles episódios de Batman, com Adam West. Só faltaram as onomatopéias "PAM!", "SOCK!", "WHAM!". Seria engraçado se o filme não se levasse à sério. Seria passável se Frank Miller não estivesse REALMENTE tentando fazer um filme com substância. 

Os diálogos são patéticos, piores até que em Star Wars: Episode I; as atuações ou são tão expressivas quanto as estátuas Moai da Ilha de Páscoa ou tão cartunescas quanto as do Coringa de Cesar Romero na série de Batman dos anos 60. O roteiro é inexistente e completamente sem sentido e absolutamente infantil, apesar das muitas mortes e cenas embaraçosamente grotescas. Nem as belíssimas mulheres presentes no filme (Scarlett Johansson, Eva Mendes, Jaime King e Sarah Paulson) nem o vilão Octopus, vivido por Samuel L. Jackson, servem para amenizar o horror que é esse filme.  

O filme, na verdade, é uma grande sacanagem com a criação de Will Eisner e uma brincadeira de mau gosto com a indústria cinematográfica como um todo. Depois reclamam que cada vez menos pessoas vão ao cinema ou alugam DVDs... O único consolo que existe é que, para cada lixo como The Spirit, temos algo excelente como The Dark Knight ou Iron Man, isso só para ficar nas adaptações de quadrinhos.

Nota: 0 de 10 (tão ruim quanto Battlefield Earth, o pior filme da história para mim até hoje)

Crítica de TV: The Wire - 4ª Temporada


Como já tive a oportunidade de comentar aqui e aqui, The Wire é a melhor série de TV que já vi, junto, talvez, com Battestar Galactica. Acabei há pouco a quarta e penúltima temporada e posso dizer que, mais uma vez, os produtores acertaram na mosca.

O mais impressionante é que, apesar do ditado "em time que está ganhando não se mexe", os produtores partiram para sacudir a série. São 13 episódios com íntima relação com o que aconteceu nas três primeiras temporadas mas que quase podem ser vistos independentemente. 

Uma das grandes modificações: Jimmy McNulty (Dominic West), o personagem central nas outras temporadas, quase não aparece na quarta. Só dá as caras aqui e ali, apenas para lembrarmos que ele existe. No entanto, ele não interfere em nada na estória.

Escolha sábia.

Sem estragar nenhuma estória, vale lembrar que McNulty basicamente era a mola propulsora dos outros casos e repetir a situação novamente não combina com essa série, que lida com a realidade nua e crua. Assim, os produtores arriscaram e retiraram McNulty de cena. 

Mas não pararam só por aí.

Com os "vilões" das primeiras temporadas fora do baralho, os responsáveis pela série resolveram nos brindar com um novo curso, ou seja, o trabalho policial - que é simplesmente o coração da série - foi meio que deixado de lado para todas as atenções se centrarem na disputa à prefeitura da cidade de Baltimore e no sistema de escolas públicas da cidade. Assim, vêm para os holofotes um personagem bacana mas secundário (senão terciário) das outras temporadas, Prez (Jim True-Frost), como professor e o vereador da cidade e candidato a prefeito, Tommy Carcetti (Aidan Gillan), introduzido na temporada anterior.

Muita atenção também é dada a Bunk Moreland (Wendell Pierce) o policial da divisão de homicídios, amigo de McNulty e a Bubbles (Andre Royo), drogado e informante da polícia. O mesmo acontece com os jovens negros da cidade, que anda literalmente na corda bamba, com grande possibilidade de sucumbirem ao crime, tendo em vista que, em casa, pouco apoio têm dos pais e, nas escolas, não passam de estatísticas. Mas todas as demais peças foram trocadas de lugar e o que se vê ao longo de 13 episódios é, na verdade, uma grande preparação para o que está para acontecer na quinta e última temporada. Nesse ponto, é impressionante a coragem dos produtores em usarem uma temporada inteira para preparar o terreno para a temporada seguinte. 

No entanto, isso na verdade não surpreende completamente pois a segunda temporada foi, também, preparação para a terceira. Os produtores sabiam da qualidade do material que tinham na mão e deviam ter certeza de seu público alvo pois trabalharam com calma, tornando-nos quase que cúmplices de todas as manobras políticas dos candidatos a prefeito, toda a podridão do sistema escolar e as consequências disso para as vidas dos personagens de sua série.

É raro ver uma série de televisão com essa qualidade, com esse grau de imersão nos assuntos que discute. O que vemos hoje são séries que lidam com um caso por capítulo, algumas com casos resolvidos em arcos mais longos, mas quase nunca vemos os produtores gastarem uma temporada toda em um caso só (Dexter me vêm à mente no momento como exemplo disso, como vocês pode ver aqui). No entanto, The Wire é uma estória só, dividida em 5 temporadas. O que começou na primeira só vai acabar mesmo (assim espero!) na quinta temporada. E isso sem desperdiçar um só episódio: tudo é relevante.

É uma pena que só falte mais uma temporada mas, tudo que é bom, com dizem, chega ao fim, não?

Nota: 10 de 10

sábado, 2 de maio de 2009

Crítica de TV: South Park - 6ª Temporada

Kenny está morto. De verdade.

Mas South Park continua sensacional. Não perderam a qualidade. 

Os três amigos restantes, Kyle, Stan e o impagável Cartman, arrumaram um substituto para Kenny, o inseguro Butters. Eles não estão muito satisfeitos com esse novo amigo, apesar de abusarem dele ao extremo. Esse é mais ou menos o mote dessa temporada, com seus 17 episódios.

Os pontos altos são os seguintes episódios:

- Jared has Aides: O garoto propaganda da Subway chega em South Park e revela que tem Aides, ou seja, que conseguiu emagrecer não só graças aos sanduíches submarino da Subway mas, também, a dois ajudantes ("aides"). A cidade inteira, claro, acha que ele tem Aids. Cabem aos garotos esclarecer a confusão. Brincar com Aids é, talvez, o ponto alto do humor negro mas Trey Parker e Matt Stone se dão muito bem.

-  Freak Strike: Os garotos percebem que os "freaks" que vão a programas sensacionalistas de televisão ganham brindes "muito bacanas" e resolvem disfarçar Butters como um dos "freaks". Seu "problema" congênito? Um escroto cresce de seu queixo. A maquiagem fica a cargo de dois fanáticos por Star Trek. Uma jóia!

- The Simpsons Already Did It: Butters, agora transformado em Professor Chaos por ter sido expulso do grupo de amigos, tenta bolar planos maquiavélicos de destruição do mundo mas, para seu desespero, ele descobre que, no desenho dos Simpsons, todos esses planos já foram levados a cabo.

- Red Hot Catholic Love: Duas estórias sem conexão (para variar). O padre de South Park descobre, para seu horror, que todos os seus pares praticam pedofilia, levando o assunto até o Vaticano que fica desesperado com o cerco aos padres que "amam tanto as crianças". Na outra estória, Cartman descobre que é possível "evacuar" pela boca... Sem comentários...

- A Ladder to Heaven: Pela razão mais egoísta do mundo, os garotos resolvem contruir uma escada até o Céu para se encontrarem com Kenny. O episódio é hilário. Cartman chega ao cúmulo de beber as cinzas de Kenny misturadas ao leite, como se fosse um achocolatado!

- The Return of the Fellowship of the Ring to the Two Towers: Em uma brincadeira de Senhor dos Anéis, os garotos têm a missão de entregar uma fita de vídeo de Fellowship of the Ring para Butters mas mal eles sabem que, na verdade, a caixa contém um filme pornô pesadíssimo, deixado lá por engano pelos pais de Stan. O impacto da pornografia em dois meninos é de chorar de rir...

- The Death Camp of Tolerance: Mr. Garrison, o professor gay, descobre que ser demitido por discriminação pode significar milhões de dólares em indenização. Assim, ele resolve dar aulas junto com Mr. Slave, um cara tipo "Village People" no qual Mr. Garrison introduz, pelas via anal, um pequeno camundongo. A estória, então, se divide entre o horror dos pais achando que seus filhos são preconceituosos e a saga do camundongo para sair de onde está. Doentio mas MUITO engraçado.

South Park é, talvez, a mais ácida crítica a tudo de atual que existe. Falam de diretores que querem mudar seus filmes clássicos até homossexualidade e religião. Parker e Stone não deixam pedra sobre pedra.  Eles estão, hoje, na 13ª temporada mas, vagarosamente, eu chego lá.

Nota: 8 de 10

Club du Film - Ano IV - Semana 15: Le Charme Discret de la Bourgeoisie (O Discreto Charme da Burguesia)


Há pouco mais de três anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como Club du Film. Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São, novamente, mais 100 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo (com pseudônimos, claro).

Filme: Le Charme Discret de la Bourgeoisie (O Discreto Charme da Burguesia)

Diretor: Luis Buñuel

Ano de lançamento: 1972

Data em que assistimos: 28.04.2009

Crítica: Na 15ª semana do Ano IV do Club du Film assistimos ao meu 12º filme por esse grande diretor. Não é nenhum segredo minha fixação por Buñuel. Adoro todos os seus filmes que oscilam entre obras primas irretocáveis e obras muito boas. O cara era um gênio.

Discreto Charme é seu antepenúltimo filme e quando eu achava que há havia visto os melhores dele (O Anjo Exterminador e A Bela da Tarde), eis que surge algo que consegue ultrapassar todas as minhas expectativas. Já imaginava que Discreto Charme seria sensacional mas não o melhor filme de Buñuel que vi até hoje.

O filme conta a surreal estória de 6 pessoas da classe média alta na França que tentam, tentam mas não conseguem fazer uma refeição juntos. Não tem mais estória que isso mas é brilhante mesmo assim. 

Buñuel, em 1972, já havia há muito deixado sua fase puramente surrealista mas ele nunca realmente abandonou suas raízes. Em O Anjo Exterminador, Buñuel conta a estória de aristocratas que não conseguem sair de uma festa/jantar por razões misteriosas. 

Em Discreto Charme, várias coincidências impedem que a refeição ocorra, começando com 4 das seis pessoas visitando o casal restante pois haviam sido convidados para o jantar. Ao chegarem lá, deparam-se com a mulher do casal totalmente despreparada e dizendo que o jantar era, na verdade, no dia seguinte. Assim, eles acabam saindo para jantar e chegam a um restaurante que estranhamente está com todas as mesas vazias. Depois de sentarem e discutirem um pouco sobre o que pedirão, eles começam a ouvir choros vindos de uma sala anexa. Ao investigarem, descobrem um morto que está sendo velado ali mesmo. Apesar da garantia dos garçons que o jantar será servido normalmente, eles obviamente deixam o local. 

Situações como a acima se repetem por várias vezes com Buñuel aumentando o surrealismo um pouquinho a cada vez. Roger Ebert, o crítico de cinema americano, tenta explicar o filme, afirmando que a refeição é o ritual da burguesia criado para substituir a conversa pois os burgueses não teriam nada para conversar. Ok, é uma explicação interessante. No entanto, o próprio Buñuel, em sua autobiografia Meu Último Suspiro, que comentei aqui, afirma que suas obras não são para serem explicadas mas sim aceitas como são. 

Com todo o respeito a Ebert, fico com Buñuel pois ele é o pai da criança. Ainda que se possa extrair um forte comentário social de Discreto Charme, interpretação que não está errada de forma alguma, o fato é que o filme me parece ser uma sucessão de sonhos e delírios do diretor (que também escreveu a obra, junto com Jean-Claude Carrièrre). Isso chega a ficar muito claro nos momentos finais da obra. O filme, aliás, foi indicado ao Oscar de 1973 por melhor roteiro original e melhor filme estrangeiro. Acabou papando a estatueta de melhor filme, premiação mais do que merecida. 

Breves comentários devem ser feitos sobre a escolha de atrizes por Buñuel. O cara era campeão. O elenco feminino de Discreto Charme é um espetáculo a parte. Stéphane Audran é um show por si só mas as demais não ficam muito atrás. É, talvez, o filme mais sensual do mestre depois de A Bela da Tarde, com a magistral Catherine Deneuve.

Notas:

Minha: 10 de 10
Klaatu: 10 de 10
Barada: 9 de 10
Nikto: 8 de 10

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Crítica de filme: Body of Lies (Rede de Mentiras)

Ridley Scott é, sem dúvida, um grande diretor. Seu último filme, Body of Lies (Rede de Mentiras), de 2008, é mais uma prova disso. 

Quem viu Syriana, com George Clooney e gostou, vai se identificar com Body of Lies. Ainda que Syriana tenha um grau de complexidade muito maior, o substrato por trás é muito parecido com Body of Lies: a rede obscura da espionagem mundial, suas técnicas e seus efeitos nos países. Body of Lies é uma versão mais fácil de digerir, mais simples de Syriana. Uma espécie de mistura desse filme com a trilogia de Jason Bourne. 

O filme conta a estória do espião de campo Roger Ferris (Leonardo DiCaprio), estabelecido no Iraque e seu chefe, o espião de escrivaninha Ed Hoffman (Russel Crowe). Os dois estão em contato constante mas um nos Estados Unidos, vivendo uma vida normal, cuidando de filhos e beijando a esposa e outro a milhares de quilômetros de distância, no meio do furacão que é o Iraque pós-guerra. Os dois atores só chegam a efetivamente contracenar depois de 40 minutos de filme mas a química entre eles é impressionante. Crowe e DiCaprio são grandes atores.

Enquanto Hoffman toma decisões que, normalmente, estão longe de serem as melhores, Ferris sofre as consequências na pele, inclusive enfurecendo o chefe do serviço de inteligência da Jordânia, Hani Salaam (o também ótimo Mark Strong), ao ponto de ser expulso do país. Ferris, então, passa a armar uma corajosa estratégia para conseguir atrair um dos chefes do talibã para fora de sua toca. O plano é genial: criar um célula terrorista fictícia, movimentada por computadores e por fotos estrategicamente tiradas para forçar um contato pelo seu alvo. É claro que o plano significa arriscar a vida de cidadãos do mundo que nada tem a ver com terrorismo e que nem mesmo são informados que estão sendo usados. Discute-se a moral de se aplicar tais técnicas e Ferris sofre com isso, apesar de ser o criador do plano. São os fins justificando os meios.

O filme tenta ser também um filme de ação e as cenas com DiCaprio em campo são bem eficientes, ainda que, talvez, soem forçadas, apenas para suavizar o tom técnico do filme (voltando para Syriana, lá, Stephen Gaghan, o diretor, teve a coragem de manter o filme em curso, focando pesadamente na trama geopolítica e de espionagem).

Não é o melhor filme de Scott mas isso não quer dizer nem de longe que seja um filme fraco.

Nota: 7,5 de 10

domingo, 26 de abril de 2009

Crítica de quadrinhos: The Dark Tower: The Gunslinger Born e The Dark Tower: The Long Road Home

Um pouco mais abaixo, aqui, fiz meus comentários sobre a série de livros de Stephen King chamada The Dark Tower (A Torre Negra). Como disse, demorei uns 5 anos para ler os 7 livros pois encontrei vários momentos chatos nesse longo caminho. Bem antes de acabar os livros, ouvi falar muito bem da adaptação aos quadrinhos da obra pela Marvel e resolvi colecioná-la. No entanto, tive que aguardar o término dos livros para começar os quadrinhos com medo de que esses últimos estragassem surpresas dos primeiros.

Demorou tanto, que a primeira série, chamada The Gunslinger Born acabou e outra, chamada The Long Road Home começou. Essa segunda acabou também e uma terceira, chamada Treachery, começou e acabou recentemente. Em maio, a quarta série, chamada The Fall of Gilead, começará. Como vocês podem perceber, as três primeiras séries foram um sucesso de público.

Vamos falar das duas que li.

The Gunslinger Born


A Marvel não queria correr riscos e decidiu, no lançamento da série em HQ de The Dark Tower, adaptar material previamente existente. Assim, pegou o melhor livro da série - Wizard and Glass - que conta a primeira missão do pistoleiro Roland Deschain e de seus amigos Alain Johns e Cuthbert Algood e o colocou no papel. 

O resultado, escrito por Peter David e desenhado por Jae Lee e Richard Isanove, é deslumbrante. Wizard and Glass já era um livro muito interessante mas a materialização em desenho do mundo de Roland é soberba. A estória, em 6 capítulos, foi meio que comprimida mas ficou igualmente interessante e, arrisco dizer, talvez até melhor que a obra em que foi baseada. Os diálogos são eficientes e a construção dos personagens bem cativante, com estória idem.

Porém, talvez por ser uma adaptação de uma obra reverenciada por um séquito de fãs, Peter David não se atreveu a escrever muita coisa diferente do que há no livro. Muito do texto é pinçado diretamente do livro e isso dá um certo engessamento à obra. Em determinados momentos, Peter David teve que dar uns pulos de continuidade, apenas para poder acabar sua obra em 6 capítulos e isso é sensível no resultado final.

De toda forma, é uma leitura prazerosa. A arte pintada de Jae Lee e Richard Isanove garantem isso.

Uma breve sinopse: a HQ conta como Roland Deschain ganhou o título de pistoleiro e sua primeira aventura junto com seus dois amigos de infância, na cidade de Hambry, onde encontra o amor de sua vida Susan Delgado. Os quatro têm que lutar contra o "homem de preto" e outros pistoleiros liderados por Eldred Jonas. Muito do que viria a ser o futuro solitário do pistoleiro é visto de relance nessa trágica estória, que acaba com nossos heróis em fuga.

Nota: 9 de 10

The Long Road Home


A segunda série começa exatamente onde a primeira acaba e mostra a volta dos pistoleiros à Gilead, sua cidade natal. 

O interessante dessa série e que ela representa a primeira vez que material original, não escrito por Stephen King, é criado em torno da saga da Torre Negra. Talvez por isso mesmo, essa segunda série seja ainda melhor que a primeira, apesar de seu roteiro bem mais limitado, por ser uma estória básica de fuga.

Nessa parte da estória, Roland está em coma e vivendo dentro de um bola de cristal rosa (explicar isso vai dar muuuito trabalho, portanto, apenas aceitem, por favor). Lá ele encontra o home de preto na forma de um corvo e tem que se deparar, pela primeira vez, com o Rei Rubro. 

Peter David, o roteirista, realmente pegou o jeito da coisa e nos apresenta uma estória instigante, conntada em dois turnos simultâneos: Roland dentro da bola e Alain e Cuthbert carregando o corpo inerte do amigo por paisagens inóspitas. As duas linhas de estória são muito bem amarradas e sua inevitável convergência ao fim é executada perfeitamente. 

Ficarei impressionado se Treachery, a terceira parte, mantiver essa qualidade.

Nota: 9,5 de 10

Crítica de filme: Punisher: War Zone (Justiceiro: A Zona de Guerra)

Sabem o último Rambo, aquele em que Stallone mata uma centena de asiáticos das formas mais sanguinolentas possíveis?

Sabem as refilmagens recentes de filmes terror/carnificina tipo Sexta-Feira 13, O Massacre da Serra Elétrica e The Hills Have Eyes?

Sabe os filmes violentos dos anos 80 tipo Comando para Matar, Cobra e coisas do gênero?

Pois bem, nenhum deles se compara ao grau de carnificina explícita que Punisher: War Zone contém. Muitos filmes estão lá em cima no panteão das obras absurdamente violentas, mas a diretora Lexi Alexander (sim, uma mulher!) junto com Ray Stevenson (o Titus Pullo de Roma) conseguiram barrar todos os seus antecessores.  Se foi essa a intenção, parabéns!

Para que não sabe, essa é a terceira encarnação do anti-herói da Marvel que anda por aí com uma caveira no peito matando criminosos em vingança ao assassinato de sua esposa e filhos. Na primeira, de 1990, o "expressivo" Dolph Lundgren viveu o papel título. Ele usava uma roupa de motoqueiro de couro, não tinha muita tecnologia e caveira mesmo só em suas adagas e na esperta maquiagem tipo "sujeira" que dava a impressão que seu próprio rosto era uma caveira. Foi um filme de baixíssimo orçamento mas que eu considero o mais eficiente dos três. 

Na segunda encarnação, de 2004, Thomas Jane viveu o papel título. A própria escolha desse ator foi ridícula para o papel e o inimigo "mortal" ser o John Travolta apenas terminou por estragar a estória.

Na nova encarnação, Ray Stevenson está perfeito como o Punisher (tão "expressivo" quanto Lundgren), usa uma caveira grande mas razoavelmente discreta em seu colete à prova de balas (peça de vestuário essencial na profissão do sujeito) e sai arrancando a cabeça de qualquer pessoa que passa pela sua frente. Literalmente! Acho que a diretora deve ter algum fetiche por cabeças pois elas são quebradas, cortadas ao meio, decepadas, explodidas, atravessadas por flechas e tiros, socadas até afundarem e tudo mais. Um festival de sanguinolência extrema e, tenho que morbidamente confessar, muito divertida.

Acontece que, mesmo dentro de um filme claramente caricato, em que o inimigo é um cara vaidoso e narcisista (Dominic West de The Wire) que tem seu rosto completamente desfigurado pelo nosso herói e passa a desfilar com horrendas cicatrizes e a se chamar de Jigsaw (literalmente Quebra-Cabeças mas, nos quadrinhos em português, Retalho), a diretora exagerou. Tem cenas completamente ridículas como a que o Punisher enfia um lápis no nariz para ajeitá-lo, outra em que os "vilões" são imbecis que fazem Parkour (aquele esporte de se usar o mobiliário urbano para malabarismos que ficou famoso na abertura de Casino Royale) e por aí vai. 

É verdade que o filme não se leva a sério mas essas e outras cenas me fizeram rir e distrações assim são irritantes e completamente desnecessárias. Uma comparação justa seria com o último Rambo. No filme, Stallone mata quase um país inteiro mas não vemos o cara fazendo gracinhas idiotas. É metralhadora .50 toda hora. Já em Punisher, um soco do nosso amigo atravessa o rosto de um bandido paspalho; ele explode um fulaninho do Parkour com um míssel em plena cambalhota pelo ar; um mero assalto a uma loja de conveniência é mostrado com um atendente com a cabeça rachada por uma espada (!!!); o irmão de Jigsaw é um canibal... Fala sério... Não dava para simplesmente colocar o Punisher carregando uma metralhadora igual aquela do John Matrix e uma faca igual à de Marion Cobretti? Precisava das papagaiadas?

Mas o filme tem seus momentos. A carnificina de abertura é muito divertida, especialmente quando o Punisher quebra o pescoço da mulher do chefão mafioso com as mãos sem nem pestanejar. Outro ponto bem interessante é o momento "escolha de Sofia" ao final do filme, que poderia ser ridículo mas não é, tendo uma resolução muito satisfatória.

Acho bom a Marvel deixar de licenciar esse personagem para filmes solo pois ninguém acerta a mão com Frank Castle (a identidade do Punisher). 

Eu me diverti pela quantidade de bobagens que vi mas não dá para dar nota alta para essa pérola.

Nota: 4 de 10 (para fins de comparação a versão de 2004 levaria nota 3 e versão de 1990 nota 5)

sábado, 25 de abril de 2009

Crítica de filme: [Rec]

Em 2007, [Rec] foi lançado na Espanha e no resto da Europa e foi um grande sucesso. Os americanos, ao invés de importarem o filme para colocar nos cinemas, compraram os direitos e o refilmaram, para lançamento em 2008. Recebeu o nome de Quarantine (Quarentena). Não vi a versão americana ainda mas já me disseram que é quase quadro-a-quadro o filme espanhol mas só que falado em inglês. Patético...

De toda forma [Rec] é uma espécie de irmão mais novo, mais inteligente, mais bacana e mais amedrontador do que Blair Witch Project e Cloverfield. A execução é idêntica nos três casos: câmera na mão + situação de horror e suspense. [Rec], porém, em toda sua simplicidade, oferece uma experiência que realmente assusta, diferentemente de seus similares, isso se você conseguir ignorar - ou suportar - o treme treme da câmera.

Tudo começa com uma repórter e seu câmera fazendo uma reportagen para o programa espanhol "Mientras Usted Dorme" (Enquanto Você Dorme) sobre uma noite no corpo de bombeiros de Barcelona. Em uma chamada aparentemente rotineira, os dois, junto com a equipe de bombeiros, ficam presos em um prédio residencial que foi lacrado sob suspeita de alguma estranha epidemia. Junto com eles estão dois policiais e os moradores. Logo a coisa começa a desandar e as mortes vão se avolumando. 

O filme tem apenas 75 minutos e a trama - muito simples - se desenrola com eficiência e sem deixar tempo para respirar. É entrar no prédio para as mortes começarem. Diferentemente de Blair Witch Project - e BEM diferente de Cloverfield - o senso de realidade é muito bacana e bem feito em [Rec]. Apesar das descobertas "sobrenaturais", o filme se mantém interessante e desesperador até o final. Aliás, vale dizer que os 10 minutos finais, quase que totalmente no escuro, são de roer as unhas. É perturbador o que vemos ou o que não vemos...

[Rec] mostra que não é necessário um orçamento milionário para se fazer um filme de terror acima da média. Basta vontade e originalidade na execução.

Nota: 8 de 10

Crítica de filme: RocknRola (RocknRolla - A Grande Roubada)


Guy Ritchie é um diretor  bacana mas é um mágico de um truque só. Seu filmes são todos parecidos não só na trama mas, também, na sua criação: movimentos de câmera, montagem, música. Tudo parece ser uma coisa só. RocknRolla, seu mais recente filme, parece ser uma continuação de Lock, Stock and Two Smoking Barrels (Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes) e Snatch (Snatch - Porcos e Diamantes).

Isso não é necessariamente ruim, apenas mais do mesmo. Talvez seja a estratégia do "em time que está ganhando, não se mexe". Ou talvez seja preguiça mesmo. De toda forma, como a fórmula de Ritchie é boa, não tenho muito que reclamar.

No filme, encontramos Lenny Cole (Tom Wilkinson, sempre muito bem), um golpista milionário, especializado em alvarás para construção de imóveis. O filme começa com ele enganando One Two (Gerard Butler, de 300) e seu parceiro Mumbles (Idris Elba, de The Wire). Em seguida, parte para um super golpe, dessa vez aplicado num bilionário russo Uri Omovich (Karel Roden) que, por sua vez, é enganado por sua contadora Stella (Tandie Newton de M:I:II) que, por sua vez, é amante de One Two. Nessa meiúca, temos o enteado de Lenny, Johnny Quid (Toby Kebell) que é roqueiro e finge sua morte para ter mais sucesso. É uma zona. Mas uma zona muito divertida.

São mortes violentas para todos os lados, uma perseguição hilária de dois russos indestrutíveis atrás de One Two e Mumbles, diálogos cheios de sub-texto e também muitas mortes violentas. Eu já disse que tem também muitas mortes violentas?

Estou muito curioso para ver agora Sherlock Holmes (com Robert Downey Jr.) pelo mesmo diretor, pois me parece ser uma mudança e tanto de curso para ele.

Vejam o filme e aprendar a estapear as pessoas corretamente!

Nota: 7 de 10

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Crítica de filme: Gomorra

Gomorra, de Matteo Garrone, foi um filme muito falado ano passado, com elogios do tipo "o Poderoso Chefão" do século XXI" e coisas do gênero. Foi até cotado para concorrer a melhor filme estrangeiro na cerimônia do Oscar mas, na hora "H", foi deixado delado. O filme, italiano, trata da máfia local sem glamour, chamada Camorra (o título é uma inteligente brincadeira com esse nome e o nome da cidade decadente bíblica), no sul da Itália.

De fato, o paralelo com o Poderoso Chefão existe mas quase que como uma antítese. Gomorra não tem os fraques, mansões, carrões, muito dinheiro, Vaticano e Cuba da trilogia de Coppola. É o Poderoso Chefão da favela, do conjunto habitacional, do lixo químico e nuclear, da pobreza mas é a realidade nua e crua. 

Baseado no livro homônimo do repórter Roberto Saviano, que foi jurado de morte pela Camorra e hoje vive em lugar incerto e não sabido, Gomorra se despe de qualquer sutileza para nos introduzir ao que há de pior em pleno fim da primeira década do século XXI. São 5 estórias não completamente explicadas que se tangenciam apenas mas que são capazes de mostrar os horrores da região italiana controlada pela máfia. Há brigas entre "famílias" mas não há códigos entre elas, apenas morte. Há o tráfico de drogas. Há o total desrespeito com os habitantes da região. Há a destruição do meio ambiente com aterros nada sanitários. 

O maior problema do filme é que ele não nos permite aproximar de nenhum personagem ao ponto de nos preocuparmos com ele. Tanto faz se eles morrem ou vivem pois não temos nem simpatia nem antipatia por eles. Esse distanciamento, talvez proposital, também faz o filme se arrastar em sua primeira metade, pois demoramos a nos "acostumar" com os personagens. No entanto, ele melhora bastante na segunda parte mas acaba muito de repente.

Pena que a máfica continue.

Nota: 7 de 10

Crítica de livro: The Dark Tower (A Torre Negra)

Stephen King é completamente maluco. O cara embarcou numa de escrever um épico em 7 volumes sobre um pistoleiro. O primeiro - e menor - volume foi lançado em 5 capítulos sob pseudônimo, começando em 1978 e acabando em 1981. No ano seguinte, o volume completo, batizado de The Gunslinger (O Pistoleiro) foi lançado. O volume 2, The Drawing of the Three (A Escolha dos Três) foi lançado em 1987 e o terceiro volume, The Wastelands (As Terras Devastadas), em 1991. 

Nesse ponto, King já havia se estabelecido como um conhecido escritor de terror e sua obra de mestre (como ele mesmo a denomina) ganhou um séquito de fãs. O quarto volume, Wizard and Glass (Mago e Vidro), só ficou pronto em 1997. 

E aí pareceu que King não queria mais escrever os últimos três volumes, para o desespero dos fãs. 

Mas o problema acabou entre 2003 e 2004, quando Stephen King finalmente fechou sua saga, lançando o volume cinco, seis e sete. São eles, respectivamente: Wolves of the Calla (Lobos de Calla), Song of Susannah (A Canção de Susannah) e The Dark Tower (A Torre Negra).

A editora Objetiva passou a publicar os livros no Brasil a partir de 2004 e eu caí na armadilha de comprar e ler o primeiro. Como sou um imbecil, se eu começo alguma coisa, eu acabo. Aí começou minha lenta marcha até esse mês, 5 anos depois, quando consegui acabar o último volume.

Para quem não sabe, uma breve sinopse: Roland Deschain é um pistoleiro solitário que atravessa um mundo pós-apocalíptico chamado Mundo Médio (qualquer semelhança com a Terra Média de Tolkien não é mera coincidência) com o objetivo de alcançar o centro dos multiversos, a Torre Negra. Durante sua busca, Roland se junta a um garoto chamado Jake Chambers, um drogado chamado Eddie Dean e uma negra sem as duas pernas e com distúrbios de personalidade que acaba sendo batizada de Susannah, todos de New York (a que nós conhecemos) Juntos eles formam um ka-tet, uma espécie de grupo com um só destino e passam por diversos perigos.

O primeiro livro, bem curto, é muito simples. Roland começa atrás do Homem de Preto e, no meio do caminho, encontra Jake. Não tem muita aventura e serve mesmo de introdução ao personagem principal e ao seu nêmesis. O segundo livro começa com Roland acordando em uma praia e sendo atacado por monstros que ele chama de "lagostrosidades". Elas arrancam alguns dedos do pistoleiro. Muito ferido, ele encontra portas para a New York que conhecemos mas em diferentes épocas: 1987, 1964 e 1977. De cada uma dessas portas, ele retira um dos componentes de seu ka-tet e, na terceira, um inimigo. Muito do livro se passa efetivamente em New York. O choque entre realidades torna esse livro bem interessante.

Já no terceiro volume, Roland se junta a Jake Chambers novamente e seu ka-tet está completo (junto com um bicho do Mundo Médio chamado Oi) e todos partem para Lud, através das Terras Devastadas. Lá encontram mutantes e o Homem do Tique-Taque (essa parte lembra muito The Road Warrior). O livro tem um bom teor de aventuras e perigo.

No quarto e melhor volume, Wizard and Glass, acabamos conhecendo parte do passado de Roland, quando ele era um jovem pistoleiro que acabara de receber suas armas. Junto com Alain Johns e Cuthbert Allgood - seu ka-tet da época - ele parte para sua primeira aventura no Baronato de Mejis, onde se apaixona por Susan Delgado. 

Nos três últimos volumes, os elementos sobrenaturais e estranhos da mente complicada de Stephen King acabam aparecendo de forma exacerbada e tudo começa a se desmoronar. Apesar de ter construído uma estória cativante com os 4 primeiros volumes, os 3 últimos meio que anulam os efeitos até então obtidos. 

Por exemplo, no quinto volume, o ka-tet de Roland tem que proteger os habitantes de Calla Brin Sturges de monstros que seqüestram seus filhos (a parte boa da estória) e, também, uma rosa vermelha em um terreno baldio da New York que conhecemos (a parte ruim da estória). Essa rosa é muito mal explicada mas, tendo em vista o tom sobrenatural da estória, até dá para deixar passar. Ah, não podemos esquecer que Susannah engravida de um demônio e uma nova personalidade toma conta dela, chamada Mia.

Mais para a frente, no sexto volume, o ka-tet se separa e Stephen King faz algo que me surpreendeu negativamente: ele se insere na estória como um personagem que está escrevendo o épico The Dark Tower. Realidade e ficção se confundem e eu fiquei pensando - e ainda penso - que o ego de King se inflou demais. As referências à outras obras do autor passam a se intensificar ao ponto do ridículo, com livros inteiros servindo de guias ao ka-tet. Esse volume é particularmente complexo e culmina com o nascimento do filhinho bonitinho de Mia/Susannah.

O último volume demora muito a decolar mas acaba decolando com um bom tiroteio num lugar chamado Dogan, onde psíquicos estão tentando destruir os feixes que mantém a Torre Negra (e, portanto, todas as realidades) em pé e acaba com uma longa jornada final até a Torre Negra, com um finalzinho que me agradou bastante, ainda que a batalha com o Rei Rubro (o grande inimigo por trás de tudo) seja ridícula.

Minha jornada até a Torre Negra foi basicamente de altos e baixos mas os baixos foram muito mais baixos do que os altos foram altos... 

Se eu tivesse que dar nota para cada livro, elas seriam mais ou menos assim:

Volume I - The Gunslinger: 5 de 10 (nada realmente acontece)
Volume II - The Drawing of the Three: 7 de 10 (interessante o choque entre mundos)
Volume III - The Wastelands: 7 de 10 (boa aventura)
Volume IV - Wizard and Glass: 9 de 10 (o passado de Roland dá de 10 em seu "presente")
Volume V - Wolves of the Calla: 6 de 10 (a boa aventura contra os tais lobos é estragada pela procura da rosa)
Volume VI - Song of Susannah: 4 de 10 (a entrada de Stephen King como personagem é ridícula)
Volume VII - The Dark Tower: 6 de 10 (a nota seria mais alta se não fosse a intensificação da participação de Stephen King e a briga patética com o Rei Rubro, que é descrito durante a série como um ser extremamente poderoso)

Nota final (não é uma média): 6 de 10