domingo, 22 de fevereiro de 2009

Corrida do Oscar: Frost/Nixon

Já tive boas surpresas antes no último filme que vi da lista de concorrentes ao Oscar de Melhor Filme. Lembro-me nitidamente quando fui muito a contra gosto assistir Field of Dreams (Campo dos Sonhos) com Kevin Costner, achando que seria uma porcaria e acabei achando-o o melhor concorrente de 1989 (os outros eram Driving Miss Daisy, que acabou ganhando injustamente, Born on the Fourth of July, Dead Poets Society e My Left Foot). 

Algo semelhante aconteceu agora com Frost/Nixon. Sabia que era um filme sobre política, sabia que era um filme dirigido por Ron Howard, um competente mas muito burocrático diretor, que nos trouxe o péssimo The Da Vinci Code e os tecnicamente bons mas não excepcionais Cinderella Man, Apollo 13, Ransom e A Beautiful Mind. Assim, estava esperando um filme fraco, documental, sem nenhum "tchan".

No entanto, acabei encontrando outro Field of Dreams.

Não que os filmes sejam semelhantes. Longe disso. Frost/Nixon é, de fato, um filme fortemente político, dependente de longos diálogos e um certo grau de conhecimento do governo de Nixon, especialmente do escândalo Watergate, que acabou levando-o a renunciar. Trata-se da estória da histórica entrevista que Nixon concedeu ao repórter David Frost, em 1977. Frost era um "show man", responsável por um programa televisivo na Austrália tão raso quanto piscina Tony. Algo clicou na cabeça dele algum dia e ele resolver correr atrás de uma longa entrevista de 4 dias com o ex-presidente Richard Nixon. Muito lutou e acabou conseguindo (mas não foi de graça já que Nixon cobrou regiamente por isso).

A estória tinha tudo para se arrastar desesperadoramente nas mãos de Ron Howard mas creio que o diretor achou sua verve e criou uma obra sensacional, que torna as entrevistas verdadeiros shows de suspense e tensão. Frost, completamente desacreditado e basicamente sem nenhum suporte financeiro para bancar o programa, inicia um embate épico com Nixon, pessoa extremamente inteligente, capaz de manipular cabeças. O que começa sendo um passeio no parque para Nixon, toma contornos mais complexos adiante.

David Frost é vivido por Michael Sheen, que viveu o Tony Blair em The Queen. Ele está muito bem como o repórter fanfarrão que se torna um entrevistador de grande naipe. No entanto, o filme é de Frank Langella, que faz o ex-presidente. Ele tem uma atuação sensacional, uma das melhores que vi nos últimos anos: primeiro, consegue espelhar Nixon sem ser caricato e, segundo, consegue dar nuances ao papel que, mesmo sem falar, passa o sentimento que quer passar. Sua maneira de andar, seus trejeitos, sua voz, tudo conspira para mostrar um grande ator em movimento. Por incrível que pareça, Langella nunca concorreu ao Oscar. Essa é a primeira vez e definitivamente merece.

Ron Howard caprichou nos close-ups, na câmera perfeitamente colocada e nas transições. Criou um filme do nada basicamente (era uma peça de teatro no original), algo que efetivamente deixa o espectador suando de tensão em sua cadeira (ok, talvez isso seja um exagero mas vocês entenderam o que quero dizer, não?). Será que Nixon vai "jantar" Frost? Será que Frost tem algo na manga para colocar o presidente de joelhos? Mesmo quem conhece a entrevista e quem sabe o que aconteceu vai ficar surpreso como Howard nos manipula e nos deixa vidrados na tela. Palmas para ele!

Ah, esqueci de dizer que Frost/Nixon concorre a 5 estatuetas douradas: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor Ator (Langella) e Melhor Roteiro Adaptado.

Nota: 9 de 10

Corrida do Oscar: The Wrestler (O Lutador)

O que raios está acontecendo com a Academia esse ano? Os filmes realmente bons ficaram de fora da corrida principal para dar lugar a filmecos que tratam de assuntos politicamente corretos como holocausto e homossexualidade? Não estou sendo radical. Esses assuntos são realmente importantes mas isso não justifica a lista de filmes medíocres para o prêmio máximo.

The Wrestler, dirigido pelo brilhante Darren Aronofsky (de Pi, Requiem for a Dream e The Fountain), só concorre aos prêmios de Melhor Ator (para Mickey Rourke) e Melhor Atriz Coadjuvante (para Marisa Tomei que já ganhou nessa categoria por My Cousin Vinny). Cadê as indicações de Melhor Filme e Melhor Direção???

Junto com Revolutionary Road e The Dark Knight, The Wrestler forma a trilogia dos esquecidos.

Mas aqui estou eu reclamando novamente...

The Wrestler conta a estória de Randy "The Ram" Robinson, um lutador de luta livre fictício dos anos 80. Passados 20 anos do auge de sua carreira, The Ram continua fazendo o que sabe fazer: lutas daquelas "armadas" que só americano gosta. Ao final de uma luta particularmente sangrenta (tem até grampeador na testa), o lutador tem um infarto e sofre uma operação. O médico diz que ele tem que parar com os anabolizantes e, principalmente, com as lutas. The Ram, então, passa a tentar reconstruir os cacos de sua vida deplorável com uma tentativa de reaproximação de sua filha e com a conquista de uma stripper que ele gosta (Cassidy, vivida por uma belíssima Marisa Tomei). É claro, porém, que vem aí uma última luta que "The Ram" não pode perder.

O filme não perdoa e massacra o espectador. Mostra os detalhes das lutas em cenas particularmente realistas e constrói os personagens de maneira franca e verdadeira, sem rodeios. The Ram é um homem corroído por dentro, tanto pelas drogas para ficar parrudo quanto pela distância de sua filha, que o odeia (ou tenta odiá-lo). Ver The Ram costurar os retalhos de 20 anos de abuso é torturante (no bom sentido).

Mickey Rourke está muito bem no papel. No entanto, tenho dúvidas se ele realmente está atuando ou vivendo ele mesmo. Em determinados momentos do filme, especialmente no discurso final do personagem, o ator e o personagem se confundem. Certamente foi essa a intenção de Aronofsky, já que isso traz ao filme uma forte sensação de realidade quase documental. The Ram e Rourke buscam a redenção, cada um de sua maneira.

Mas o que realmente brilha nesse filme é a direção. Darren Aronofsky mais uma vez prova que veio para ficar. Utilizando câmera na mão, ele parte para destrinchar a vida e os sentimentos do personagem título. Há uma sequência, depois do infarto, em que The Ram está em seu primeiro dia de um trabalho fixo em um balcão de frios de supermercado que é de fazer chorar: Aronofsky foca no personagem se preparando para o  trabalho e a câmera o segue por todos os corredores, até sua entrada no local de trabalho. Ao fundo, o diretor inseriu, baixinho, aquele burburinho que os fãs fazem quando entra um lutador no ringue. A cena é magnífica, inovadora e deveria ganhar o Oscar por si só. No entanto, Aronofsky não para com sua câmera naturalista e provoca inacreditáveis sensações na platéia com isso.

O filme não é perfeito, porém. Com o objetivo de se aprofundar nos personagens, o diretor não pega atalhos. Mostra reações dando tempo ao tempo e isso, às vezes, torna o filme um pouco arrastado. Apesar disso, trata-se de uma preocupação menor já que nós somos brindados com muitos momentos de brilhantismo.

Nota: 9 de 10

Crítica de filme: Milk


Milk é o quarto filme que concorre ao Oscar de Melhor Filme que assisto e minhas esperanças de encontrar algo realmente singular, que salve essa premiação, estão desaparecendo. Slumdog Millionaire, até agora, está ganhando de lavada.

Milk concorre aos prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção (Gus Van Sant, que nos trouxe o excelente e experimental Paranoid Park e o sério e emotivo Good Will Hunting), Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem, Melhor Ator (Sean Penn, no papel título), Melhor Ator Coadjuvante (Josh Brolin), Melhor Trilha Sonora e Melhor Figurino.

O filme conta a estória real, passada na década de 70, do primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos: Harvey Milk. Ele, chegando aos 40 anos e concluindo que nunca fez nada que se orgulhasse na vida, parte de Nova Iorque para San Francisco com seu namorado Scott Smith (James Franco) para tentar uma vida nova. Lá, consegue se tornar um lider de seu bairro (o famoso bairro Castro) e parte para tentar ser eleito Supervisor da cidade (algo como um vereador, imagino). Depois de tentar muitas vezes, ele acaba sendo eleito e parte para brigar pelos direitos dos homossexuais. Sua história é notória pois Harvey foi assassinado junto com o prefeito de San Francisco (não é spoiler pois isso é dito com 10 segundos de filme). O importante no filme é a ascensão desse líder e a inspiração que parece ter trazido.

Acontece que o filme é burocrático e arrastado. Nem parece um filme de Gus Van Sant. Falta vida à subida de Milk ao "poder" e muito do filme fica dependente da atuação de seus astros.

Sobre esse ponto, vale, de fato, o destaque para Sean Penn (que já ganhou o Oscar de Melhor Ator por Mystic River) que encarna um homossexual bem assumido ao ponto de eu ter saído convencido que Penn saiu do armário... Mas, falando sério, o cara está muito bem em seu papel e carrega o filme nas costas. No entanto, mesmo essa ótima atuação, ajudada pelos atores coadjuvantes, especialmente James Franco e Josh Brolin (esse último vive Dan White, que viria a ser o assassino), não é suficiente para salvar o filme de um lugar comum que incomoda. 

Outro ponto que não ajuda muito é que o movimento pró-gay parece que existiria apesar de Milk, ou seja, se o que estiver no filme for efetivamente a verdade, a atuação de Milk me pareceu reduzida, de menor importância no contexto geral. Essa característica esvazia o filme de qualquer força que poderia ter.

Definitivamente, com a exceção da atuação de Sean Penn, Milk não é material para o Oscar.

Nota: 6,5 de 10 

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Corrida do Oscar: Doubt

Doubt concorre a 5 Oscars: Melhor Atriz (Meryl Streep pela 100ª vez...), Melhor Atriz Coadjuvante (Amy Adams e Viola Davis), Melhor Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman) e Melhor Roteiro Adaptado.

Como se pode ver pelas indicações, o filme é um desfile de intepretações. Depois do show de horrores que foi vê-la em Mamma Mia (tenho pesadelos até hoje), é legal saber que Meryl Streep voltou a papéis na linha do que ela está acostumada. Não gosto muito dela em geral pois acho que Streep é a típica "one  trick pony", ou seja, uma atriz que só sabe fazer bem um papel, a de mulher sofrida. Em Doubt, ela é uma freira linha dura, reitora de uma escola católica nos Estados Unidos dos anos 60. Ela resolve pegar no pé do coitado do padre (Hoffman, sempre naturalmente excelente em seus papéis) por desconfiar que ele vem tendo "condutas impróprias" com o único menino negro da escola. Essa desconfiança aumenta quando uma das noviças, vivida magistralmente por Amy Adams, põe, sem querer, lenha na fogueira. Viola Davis faz a mãe do garoto e também está excelente no papel. Agora que o parágrafo está acabando, vou até dar um desconto: Meryl Streep está ótima no papel de uma pessoa odiosa, intolerante, amargurada e recalcada.

Não interessa ao filme se o padre está mesmo molestando o garoto. O importante é, como o título deixa às claras, a dúvida e a consequente reação das pessoas: enquanto o personagem de Streep quer impalar o padre em praça pública, o personagem de Adams se arrepende do processo que catalizou. 

Falando sobre o título, sempre disse que costumo detestar filmes com títulos que são desnecessariamente repetidos no desenrolar da trama. Nesse quesito, Doubt começa muito mal pois o primeiro sermão que ouvimos é sobre (surpresa, surpresa!) "dúvida". Como se isso não bastasse, o roteirista e o diretor resolveram concluir que todos os espectadores são completos idiotas e, pegando o exemplo do primeiro sermão, utiliza as "idéias de sermão" do padre quase que para explicar em detalhes o que está acontecendo no filme e na cabeça dos personagens. A idéia é colocada de forma velada somente para, 5 minutos depois, ela ser descrita verbalmente pelo padre. Para ilustrar, em determinada cena (duas na verdade), Meryl Streep faz um discurso em que discorda do uso de esferográficas pois destrói a caligrafia e de torrões de açúcar, por adoçarem a vida. Qualquer mentecapto consegue perceber que o assunto gira em torno da intolerância. No entanto, não é que o infeliz do diretor faz o padre dizer que teve a "idéia" de fazer um sermão sobre a intolerância e ainda o mostra escrevendo isso em seu caderninho? E a coisa não para por aí: o sermão é mostrado na íntegra na cena seguinte... 

Alguém tem que avisar o diretor (John Patrick Shanley que, antes disso, só dirigiu o imbecil Joe versus the Volcano) que um filme é composto primordialmente de imagens e que são elas que devem passar as idéias. As falas devem ser incidentais e não explicativas, a não ser que ele esteja dirigindo um documentário.

Nota: 6 de 10

Corrida do Oscar: Slumdog Millionaire

Slumdog Millionaire (Quem quer ser um milionário?), dirigido pelo britânico Danny Boyle, que nos trouxe Shallow Grave, Trainspotting, 28 Days Later e Sunshine, concorre a um festival de estatuetas douradas nesse domingo, quais sejam:

1. Melhor Filme
2. Melhor Diretor
3. Melhor Roteiro Adaptado
4. Melhor Edição
5. Melhor Fotografia
6. Melhor Trilha Sonora
7. Melhor Música (2 vezes)
8. Melhor Som
9. Melhor Edição de Som

Não é o filme que mais concorre a Oscars esse ano (essa honra dúbia ficou com The Curious Case of Benjamin Button) mas é, certamente, por todo hype criado, o que tem mais chances de levar os prêmios mais importantes. 

O filme começa com Jamal Malik apanhando da polícia pois há uma forte desconfiança de fraude no ar já que ele, um "mero favelado", nunca poderia estar a apenas uma pergunta de ganhar o prêmio máximo do show "Quem quer ser um milionário?". O delegado quer porque quer saber como é que o garoto conseguiu responder as perguntas corretamente. Desse ponto, então, Danny Boyle nos leva à uma viagem pela vida do garoto, em que ele vai, aos poucos, nos dando as informações que o delegado quer (na verdade, que NÓS queremos). Sua vida sofrida numa Índia muito pobre é descortinada.

O filme, apesar de ser muito pesado em alguns momentos, com demonstrações estraçalhantes da maldade humana, tem uma mensagem que tenta ser a mais positiva possível e, para isso, o diretor se utiliza de diversos artifícios tais como cores primárias fortes, câmera saturada, edição frenética e, sobretudo, uma forte, viva e sempre presente trilha sonora, que empolga o espectador e funciona quase que como um personagem a parte. 

Para nós, brasileiros, a primeira meia hora de filme lembrará muito Cidade de Deus mas, na realidade, os dois filmes são muito diferentes. Cidade é um filme sobre crescer na favela e o impacto que isso pode ter. Slumdog é um filme de amor, uma verdadeira fantasia calcada na realidade nua e crua do dia-a-dia dos indianos de casta mais baixa. Como pode o amor sobreviver à uma sociedade em que o casamento é determinado primeiro pela condição econômico-social dos noivos e os casais são escolhidos não por alguma atração, mas sim pela família? Slumdog e Cidade somente se parecem na estética de filmagem do começo do primeiro filme, mais nada.

A mensagem de esperança de Slumdog deixa um sorriso no rosto. É, certamente, o "feel good movie" de 2008 e merece o destaque que vem tendo. O problema de Slumdog, talvez, é sua grande dependência do suspense sobre o que vai acontecer ainda que cada passo do filme seja telegrafado com bastante nitidez logo no começo (um mínimo de experiência com cinema permite quase que escrever o roteiro do filme depois que 10 minutos foram vistos). Talvez Danny Boyle tenha percebido isso e carregou os sentidos de informações cromáticas, fortes imagens, cortes naõ exatamente cronológicos e música, muita música.

Dentre os filmes que já assisti e que concorrem a Melhor Filme (The Reader e Benjamin Button são os outros dois), Slumdog é certamente o melhor. Só não sei se ele é, efetivamente, o "melhor de 2008" como um todo. Mas vou contar um segredo: o Oscar nunca foi necessariamente de escolher os efetivamente melhores do ano. Às vezes eles acertam, mas muitas vezes erram. É só lembrarmos que, por exemplo, Shakespeare in Love, The English Patient, Chicago e Crash ganharam o prêmio máximo. Se não fosse assim, na verdade, não teria graça.

Nota: 9 de 10

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Corrida do Oscar: Revolutionary Road

Revolutionary Road ("Foi Apenas Um Sonho", mais um título infeliz em português), o mais recente filme do aclamado diretor Sam Mendes (American Beauty, Road to Perdition) concorre a 3 Oscars: Ator Coadjuvante (Michael Shannon), Figurino e Direção de Arte. 

Trata-se, na verdade, de grande injustiça. Esse filme deveria concorrer também, pelo menos, a melhor atriz (Kate Winslet) e melhor ator (Leonardo DiCaprio), isso sem contar com melhor filme e melhor direção. Não sei o que a Academia tem na cabeça ao prestigiar o bem "mais ou menos" The Reader (comentado abaixo) e deixar Revolutionary Road de fora.

Ora bolas, se era para escolher um papel de Kate Winslet para concorrer a melhor atriz, então que tivesse sido o papel de April Wheeler, não o de Hanna Schmitz de The Reader, em que ela teve sua atuação reduzida por uma horrenda maquiagem amadora. 

E DiCaprio? A Academia tem problemas com o garoto? Deram o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Anna Paquin (!!!) pelo seu primeiro papel no cinema (em The Piano) e ficam empurrando DiCaprio com a barriga... Não faz sentido. O cara já provou que é bom em várias ocasiões. Lembram-se de The Departed? De Blood Diamond? Vão esperar para dar um prêmio pelo "conjunto da obra" daqui a 30 anos? 

Bom, deixa para lá, só estou reclamando e isso não é construtivo. Vamos ao filme.

Revolutionary Road se passa nos anos 50 e retrata a vida de um jovem casal - Frank e April Wheeler - vivido por DiCaprio e Winslet, dois atores confirmando a química perfeita entre eles, já demonstrada em Titanic. Apesar da estória começar no começo, mostrando como os dois se conheceram, Sam Mendes não perde muito tempo e pula logo para o meio da tempestade, quando a vida pacata do casal, já com dois filhos, está degringolando. Frank tem um trabalho que detesta e April é uma dona-de-casa frustrada. Os dois sentem falta de viver pois suas vidas suburbanas em Connecticut, com as casinhas branquinhas bonitinhas, são tudo menos vidas, são meras existências. Vendo-se presa em seu lar e notando as paredes se fechando ainda mais ao seu redor, April sugere que a família faça uma loucura e se mude para Paris, lugar que Frank visitou - e amou - quando serviu na 2ª Grande Guerra. 

Um filme como esse, claro, não poderia acabar bem mas isso já é esperado logo no começo (e tendo Sam Mendes como diretor, isso é quase uma regra). O importante é que talvez esse filme descortine muitas vidas de pessoas aparentemente felizes. Será que vale viver da forma como a sociedade dita, abrindo mão de seus verdadeiros desejos? 

A direção de Sam Mendes é brilhante, contrapondo os dois atores o tempo todo, com um itneligente jogo de câmeras. Da mesma forma, ele escolheu retratar a casa dos Wheeler da forma mais asséptica possível. O casal tem dois filhos pequenos mas não há nada na casa que indique isso. Os filhos mesmo só aparecem em momentos chave, para passar uma mensagem específica. O foco é o casal e seus conflitos.

Entra então na vida dos dois um louco de sanatório, filho da corretora (Kathy Bates em um papel que lembra muito o de Misery), vivido por Michael Shannon. As duas ou três cenas com ele são suficientes para fazer esse ator brilhar. Muito merecida a indicação por ator coadjuvante. O louco é o único que enxerga com clareza solar o que se passa com o casal. É um verdadeiro terapeuta sem freios, falando o que dá na telha. Exatamente essa capacidade de enxergar - e falar - o óbvio é que o caracteriza como louco pois, afinal de contas, não é possível que as convenções da sociedade estejam erradas, não é mesmo?

O filme é duro, não perdoa ninguém e não tem mensagenzinha bonitinha não. É, basicamente, a vida como ela é e funciona como um alarme para todos nós evitarmos o marasmo, brigarmos contra as convenções e fazermos, pelo menos algumas vezes, o que realmente queremos. 

Nota: 9 de 10

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Club du Film - Ano IV - Semana 08: Amarcord


Há três anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como Club du Film. Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São, novamente, mais 100 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo (com pseudônimos, claro).

Filme: Amarcord

Diretor: Federico Fellini

Ano de lançamento: 1973

Data em que assistimos: 17.02.2009

Crítica: Amarcord é um filme que eu sempre soube que era um clássico mas nunca tinha assistido. Tenho pouca experiência com Fellini, tendo apenas visto Noites de Cabíria, La Dolce Vita e 8 1/2. O diretor parece se "citar muito", fazendo filmes baseados em suas experiências pessoais. Todos os filmes que vi de Fellini são agradáveis ainda que de complicada digestão.

Evidentemente que isso não é, por si só, algo negativo. Essa complicação certamente se origina da pessoalidade de seus filmes e da mistura da fantasia (dos personagens? do diretor?) com a realidade, ao menos a realidade segundo Fellini. Amarcord é um pouco diferente das demais obras citadas pois, apesar de ele seguir um ano de uma pequena cidade na Itália, em um perfeito círculo, mostrando que a vida continua, talvez da mesma forma, talvez com alterações, conta estórias aparentemente soltas mas protagonizadas por basicamente os mesmos personagens. Essas estórias parecem mais espasmos da memória, como se você estivesse contando momentos de seu passado a um amigo, sem seguir uma cronologia ou ordem lógica. 

Não estou inventando isso. O título do filme já entrega o ouro pois significa "Eu me lembro". Toda a trama (ou falta de trama) tem como protagonista (se é que se pode chamar o personagem de protagonista) o menino Tita, em plena transição de menino para homem. O filme se passa nos anos 30 em uma vila que ecoa a cidade onde nasceu Fellini e o personagem Tita parece ser o próprio Fellini. Há, ainda, um destaque para a família de Tita, tipicamente italiana, quase um estereótipo: pai brigão, mãe mais brigona ainda e uma pancadaria a cada refeição em conjunto. Vale destaque a mãe de Tita, vivida pela atriz Pupella Maggio, que depois viria fazer Cinema Paradiso.

Assim, em capítulos, vemos Tita e seus amigos pregarem peças em seus professores; Tita tendo sonhos eróticos com a musa da cidade, Gradisca; Tita e sua família viajando com seu tio maluco ao campo; os moradores da cidade ficando embasbacados pela passagem de um transatlântico e diversas sequencias puras de sonho, com destaque para a do Xeque Árabe e seu harém de 30 mulheres.  

E como se isso não bastasse, há críticas sociais e políticas fortes pela forma com que Fellini retrata os fascistas, sempre como histriônicos personagens retirados de um folhetim cômico. E, como uma cereja no bolo, Fellini ainda encaixa dois narradores, um professor (chamado de advogado) que fica falando sobre fatos históricos (irrelevantes?) da cidade e um contador de estórias louco.

Essa conjunção de peças diferentes de um mesmo quebra-cabeça, sem seguir um ordem específica (a não ser a das estações do ano), dão ao filme um caráter bastante folclórico e, em minha opinião, de difícil apreciação por quem não conhece ou estudou a vida do diretor. É claro que a fotografia - belíssima - e o carinho evidente do diretor por esse filme, o torna uma peça rara, passível de apreciação por todos.

Notas:

Minha: 7 de 10
Klaatu: 7 de 10
Barada: 7 de 10
Nikto: 7,5 de 10

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Crítica de TV: Battlestar Galactica Season 4.0

Estamos na última temporada da melhor série de ficção científica jamais feita. Na verdade, BSG é uma séria dramática que por acaso se passa em um ambiente de ficção científica. Diria que, em termos dramáticos e de narrativa, ela está lado-a-lado com The Wire.

Lembro que, em 2003, quando morava nos Estados Unidos, soube que um remake do seriado setentista aconteceria e fiquei ligado no lançamento. Nossa, como me desapontei quando assisti a minisérie na televisão. Tudo aquilo que gostava na série original tinha sido jogado fora: os capacetes dos pilotos de Vipers não tinham aparência egípcia, em clara alusão à 13ª Colônia (a Terra); os Cylons eram clones dos humanos, não robôs; Baltar não era mal, mas sim um idiota controlado pelos Cylons. Starbuck não era homem! Apollo era completamente sem graça!

Bom, eu fui um idiota completo pois posso garantir que a "re-imaginação" dessa série é sensacional, com impressionantes ingredientes políticos, religiosos e sociais. 

Para quem não sabe, os Cylons atacaram os 12 planetas das colônias humanas e os destruíram. Apenas um punhado de humanos, em variadas naves, sobreviveram e, agora, encontram-se sob a proteção da única astronave de combate: Galactica. Comandada com pulso de ferro por Bill Adama (Edward James Olmos), esse grupo de humanos tentam sobreviver aos ataques dos Cylons. O grande problema, porém, é que os Cylons são como os humanos, robôs ultra-sofisticados que em tudo se parecem conosco. Eles estão entre nós. A paranóia impera. O objetivo dos sobreviventes é encontrar a folclórica 13ª Colônia, o planeta Terra.

Sem listar spoilers, vale um resumo de cada temporada:

1ª Temporada - Fuga caótica das colônias e adaptação à vida no espaço dão a tônica dessa temporada. Ao longo dela, os humanos descobrem que os Cylons são, agora, iguaizinhos aos humanos e têm de aprender a lidar com essa desconfiança.

2ª Temporada - Vários Cylons são revelados (são 12 modelos no total) e muito da série se passa em Caprica, pois Starbuck volta para resgatar alguns sobreviventes. Outro momento importante da série é o aparecimento da astronave de combate Pegasus, comandada pela Almirante super linha dura Cain. O final da temporada é de cair o queixo.

3ª Temporada - Muito da série se passa em terra (não vou explicar o que acontece mas tem relação com o final da temporada anterior) e os Cylons mudam de estratégia: no lugar de quererem acabar com os humanos, passam a querer doutriná-los e dominá-los. O tom da série passa a ser fortemente religioso. Ao final, 4 novos modelos de Cylons são revelados (11 até esse momento, faltando apenas o 12º modelo).

Muito do que eu imaginava que poderia acontecer na 4ª Temporada inteira acontece na sua metade. Cada episódio dos 10 primeiros é essencial para o desenrolar da trama. Nada se perde. Certamente os produtores, sabendo que essa é a temporada final, decidiram amarrar todas as pontas. Assim, perder um episódio é perder o fio da meada. 

O mote dessa temporada é claramente a religião. São os deuses das antigas 12 colônias versus o deus único dos Cylons, pregado apaixonadamente por Baltar e seus seguidores. Há "anjos", mensagens divinas e diversos outros aspectos religiosos que criam um interessante choque com o ambiente de ficção científica ao redor. A religião também serve de pano de fundo para discussões sobre a intolerância, mortalidade e outros assuntos polêmicos. Outro tema bastante central à trama é a política, algo que costumeiramente anda de braços dados com a religião. Há disputas políticas permeando toda a estória.

No final do décimo episódio, todos já têm conhecimento de 11 dos 12 modelos de Cylons e a revelação de quem é quem é chocante, com reverberações fortes por todos os demais personagens. Falta, agora, somente o 12º Cylon (a alusão aos 12 apóstolos é clara, não?). Além disso, a metade da temporada acaba quase que de forma definitiva, em uma virada de mesa de fazer chorar, ainda que dê para pressentir que algo assim iria acontecer. 

Não consigo imaginar o que vai ocorrer nos 10 últimos episódios. Não acompanho na TV, não baixo pirata e, portanto, não tenho alternativa que não esperar pelo lançamento da parte final em DVD. 

Já estou sentindo falta de Battlestar Galactica.

Nota: 10 de 10

Crítica: Coraline

Tem muita gente que acha que o diretor de The Nightmare Before Christmas (O Estranho Mundo de Jack) é o aclamado diretor Tim Burton. Pois é: tem muita gente errada. 

O diretor do mais famoso desenho animado em stop-motion (técnica de animação com bonecos que são movimentados à mão, quadro-a-quadro) é, na verdade, Henry Selick. Tim Burton produziu Nightmare apenas. O que ele dirigiu foi Corpse Bride (Noiva Cadáver). Independente disso, é fato que tanto Nightmare quanto Corpse Bride são primores do stop-motion.

No entanto, Coraline consegue, talvez, ser ainda melhor que os outros dois. Mérito de Henry Selick que novamente insistiu na técnica que o deixou famoso. Não sei exatamente explicar o que diferencia o stop-motion da computação gráfica estilo Pixar sob o ponto de vista do espectador mas há diferenças. Talvez saber que um filme foi feito em stop-motion nos faça dar mais valor a ele pois, afinal de contas, cada segundo do filme gerou a movimentação dos bonecos e do cenário 24 vezes. Façam as contas e vejam quantas vezes a câmera parou para os técnicos movimentarem os bonecos e imaginem o pesadelo logístico que deve ser isso. Filmes bons em stop-motion merecem todos os elogios e apoio dos espectadores. Não é à toa que Nightmare é reprisado todos os anos nos cinemas americanos, na semana do Halloween.

Coraline vai dois passos além em comparação com seus antecessores: é o primeiro stop-motion filmado diretamente em 3D e é baseado em obra literária (que depois foi adaptada para quadrinhos) de ninguém menos que Neil Gaiman. 

Sobre o 3D, essa técnica está ficando cada vez mais importante para a narrativa dos filmes mais sérios. Bolt e U23D são dois bons exemplos disso. Em Coraline, o 3D é ajudado para enriquecer a narrativa e nos ajudar a efetivamente entrar em seu colorido mundo alternativo. Talvez seja o melhor uso de 3D que vi até agora no cinema.

Sobre Neil Gaiman, ele é o criador de estórias sensacionais, conhecido por Sandman, o psicodélico "super-herói" dos sonhos e, no cinema, por Stardust e MirrorMask, dois ótimos filmes, especialmente o segundo. 

O filme conta a estória de Coraline, uma menina que se muda com os pais para um casarão rosa. Eles são durões e trabalham o tempo todo escrevendo livros de jardinagem, apesar de não gostarem de jardins. Eles têm pouco tempo para a menina. Coraline sai explorando o terreno e a casa e acaba encontrando um garoto estranho que é neto da proprietária da mansão e, também, os 3 outros inquilinos: duas senhoras que outrora foram atrizes de teatro e que, hoje, vivem do passado junto com seus dois cães Terrier (e vários outros empalhados como se fossem anjinhos de presépio) e um malabarista louco que tem um circo de camundongos saltadores mas que ele não mostra para ninguém. 

Nesse ambiente, Coraline acaba se sentindo sozinha e esbarra em uma porta secreta que se abre para outro mundo, em que seus  pais alternativos só dão atenção à ela e seus vizinhos são, digamos, mais coerentes. O único probleminha é que, nesse mundo, todas as pessoas, inclusive seus pais, têm botões no lugar dos olhos. Coraline então descobre que nem tudo são flores e sua aventura começa a ficar perigosa.

O filme, apesar de ser infantil, não é para os bem pequenos. Só o conceito de botões no lugar de olhos - tal qual bonecas antigas - já é bastante "creepy", bem no estilo de Neil Gaiman. Fora isso, alguns ambientes escuros, crianças-fantasmas, gatos pretos, a bruxa assustadora e a facilidade com que as crianças têm de se identificar com Coraline, torna o filme um pouco mais adulto, recomendável para crianças acima de uns 7 ou 8 anos apenas.

Mas a estória, com mensagem importante (dê valor ao que você tem!) e roteiro impecável, somada à absurda qualidade do stop-motion e com o 3D sendo a cereja em cima do bolo, torna Coraline um grande filme para todas as gerações. 

Nada a reparar ou alterar. Merece ser visto e revisto diversas vezes.

Nota: 10 de 10

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Corrida do Oscar: The Reader

Já comentei The Curious Case of Benjamin Button mais abaixo, o filme com maior número de indicações ao Oscar esse ano, incluindo melhor filme (13 no total). Agora é a vez de The Reader (O Leitor, em português). Tentarei, até o dia da entrega dos prêmios, comentar ao menos todos os candidatos a melhor filme.

The Reader concorre às estatuetas de Melhor Filme, Melhor Diretor (Stephen Daldry), Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz (Kate Winslet).

O filme abre com Michael Berg adulto, vivido por Ralph Fiennes que, em flashback, nos conta a estória da perda de sua inocência. Aos 16 anos, em 1958 na Alemanha, ele se apaixona por uma misteriosa trocadora de bonde chamada Hanna (uma Kate Winslet quase feia), bem mais velha que ele. Ela ensina para ele os segredos do sexo e parece genuinamente gostar do garoto. Antes ou depois do sexo, ela apenas pede que Michael leia livros para ela, o que ele faz com grande prazer, mantendo até um "log" do que foi lido para a "namorada". Esse amor de verão logo acaba e Hanna desaparece. Anos depois, quando Michael está estudando direito, ele assiste a um julgamento de soldados nazistas e tem um choque ao descobrir que Hanna havia sido um e estava sendo julgada por seus crimes. 

O filme é aflitivo nas reações tanto de Michael quanto de Hanna ao desenrolar dos fatos. Ela pouco se defende e ele fica com um enorme dilema entre ajudá-la ou ficar calado, tudo em prol, aparentemente, do tal segredo que é colocado em letras garrafais no poster acima, como se fosse um filme de detetive. No entanto, o tal segredo é óbvio e não tão importante assim para a trama que não pede ao espectador para "descobrir o segredo" mas sim para tentar entender o que se passa na cabeça dos personagens em momentos delicados. O filme trata não só da perda da inocência de um garoto como, também, de como as pessoas lidam com o peso da culpa.

A atuação de Kate Winslet é realmente sensacional mas, na segunda metade do filme, com ela envelhecida, sua maquiagem acaba atrapalhando sua atuação. É, definitivamente, uma das piores maquiagens que vi no cinema e isso me distraiu muito e reduziu o choque da atuação de Kate. Poderiam ter se esforçado um pouco mais nesse departamento.

De toda forma, o filme é um pouco arrastado a partir do momento em que Michael descobre que Hanna foi um soldado do regime nazista. Da mesma forma que em The Pianist, não consegui engolir a reação do personagem principal masculino, que toma decisões equivocadas todo o tempo. Tais decisões, ao menos, têm consequências psicológicas fortes nesse filme, o que aparentemente não ocorre em The Pianist, e Michael se vê distanciado do mundo e até mesmo de sua própria filha.

É um filme pesado mas que não flui muito facilmente, por vários problemas na direção e na maquiagem. Poderiam ter escolhido um candidato melhor ao Oscar de melhor filme.

Nota: 6 de 10

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Club du Film - Ano IV - Semana 07: Bring me the Head of Alfredo Garcia (Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia)


Há três anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como Club du Film. Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São, novamente, mais 100 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo (com pseudônimos, claro).

Filme: Bring me the head of Alfredo Garcia

Diretor: Sam Peckinpah

Ano de lançamento: 1974

Data em que assistimos: 10.02.2009

Crítica: Nunca nem tinha ouvido falar de Bring me the head of Alfredo Garcia. Claro que conhecia o diretor, Sam Peckinpah, autor de sensacionais obras como The Wild Bunch, Straw Dogs e Cross of Iron.

O conhecimento do diretor e o intrigante título, nos fez querer assistir logo a esse filme. Foi uma surpresa total. Certamente esperávamos algo violento, bem no estilo do diretor. No entanto, acabamos nos deparando com uma obra rara, gutural, quase Neanderthal de tão crua, e isso tudo no sentido bom. 

O filme conta a estória de um mexicano rico cuja filha engravida de Alfredo Garcia. Ato contínuo, e como não poderia deixar de ser, o pai coloca a cabeça do sujeito a prêmio e caçadores de recompensa saem ao seu encalço. Essa estória chega aos ouvidos de Bennie (Warren Oates), um pianista de um bar/prostíbulo. Ele investiga aqui e ali e acaba descobrindo que Garcia havia morrido em um acidente e ele acaba se oferecendo - mediante recompensa, claro - a literalmente trazer de volta a cabeça do coitado. Ele parte em viagem com sua namorada Elita - uma prostituta - pelo interior do México, até a sepultura de Alfredo Garcia. Trata-se, na verdade, de uma viagem ao inferno, onde Bennie acaba aprendendo muita coisa sobre si e sobre o que sente pela mulher que o acompanha. Bennie é imbuído de um ímpeto enorme para completar sua missão e, para isso, não poupa ninguém, nem a si próprio.

Um dos pontos altos do filme é a cena preparatória do estupro da namorada de Bennie por dois motoqueiros, um deles vivido por um jovem Kris Kristofferson. Sem saída, Bennie não pode reagir e, com receio de perder Bennie, Elita concorda em ser estuprada pois, para ela, esse caminho é mais fácil. É duro ver o quanto os personagens do filme tem a perder e o quanto eles sacrificam de si próprios, mesmo que de forma sinuosa. 

Outra cena sensacional é a de abertura do filme, com uma bucólica cena no interior do México, em que a moça grávida aparece à beira de um lago e os capangas do pai a chama. Tudo nos leva crer que o filme seria um western passado no século XIX  mas, numa surpreendente "troca de marcha", Peckinpah nos coloca nos anos 70, mostrando que pouco mudou em um século. Um momento como esse, de um brilhantismo cintilante, é suficiente para nos prender ao filme.

Não dá para dizer que esse filme é um clássico Peckinpah pois é uma obra diferente. Como salientei acima, ela é crua, de um realismo impressionante. Alfredo Garcia, um morto, é um dos mais sensacionais McGuffins que já vi, ao lado do Falcão Maltês do filme que carrega esse nome. A violência, a sujeira, o sexo, tudo é mostrado da forma mais simples e, por isso mesmo, mais às claras possível. Em determinados momentos, a obra leva à risos e gargalhadas, tamanho é o desconforto que sentimos. Peckinpah não teve medo de errar e acabou fazendo um filme pessoal e extremamente autoral. 

Esses, no meu entendimento, são os elementos de uma grande obra.

Notas:

Minha: 9 de 10
Klaatu: 8 de 10
Barada: 8 de 10
Nikto: 5 de 10 

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Crítica de filme: Zack and Miri Make a Porno (Pagando Bem Que Mal Tem?)


Sou parcial: adoro os filmes do Kevin Smith. Acho o cara o máximo. Talvez com exceção de Jersey Girl, todos os demais filmes dele (Clearks, Chasing Amy, Mallrats, Dogma, Jay and Silent Bob etc.) são muito divertidos. E olha que Jersey Girl não é nem tão ruim como dizem. Basta um pouquinho de boa vontade.

Bom, considerando esse gosto todo por Smith, cansei de esperar a estréia nos cinemas brasileiros de seu filme mais recente: Zack and Miri make a Porno (no Brasil, com o hilário título "Pagando Bem Que Mal Tem?"). Acabei, durante viagem, comprando o filme em Blu-Ray.

Antes que me perguntem, vou logo dizendo: o filme não tem os personagens clássicos de Kevin Smith, Jay e Silent Bob. Na verdade, o ator Jason Mewes está no filme mas ele não é Jay mas sim um "genérico" do Jay pois, na verdade, a única diferença entre os personagens é o tamanho do cabelo...

Para os fãs de Smith, ainda há outros detalhes que não negam completamente a existência do Askewniverse que ele criou mas o filme tenta ser outra coisa, separada daquele outro grupo de comédias.

Para começar, o ator principal é Seth Rogen, ótimo comediante da nova geração, protagonista de bons filmes, tais como Knocked Up e Superbad. A atriz é Elizabeth Banks. Os dois fazem o casal título, Zack e Miri. Em segundo lugar, Smith contratou a ex-superstar de filmes pornô Traci Lords (já uma senhora) para participar, junto com outra atriz mais recente do mesmo metiê. E, como se isso, não bastasse, contratou Brandon "Superman" Routh e Justin Long para ótimas pontas estendidas.

Zack e Miri são dois amigos de escola que vivem sob o mesmo teto sem ser namorados ou casados. Estão lá apenas por conveniência. Eles nunca conseguiram qualquer sucesso na vida e, quando ficam sem dinheiro para pagar o fornecimento de luz e água de sua casa, decidem (como se fosse a coisa mais natural do mundo) ganhar dinheiro fazendo filmes pornôs. Para isso, arrumam investimento com um amigo igualmente duro, convocam alguns "atores" com "qualidades especiais" e partem para escolher o nome da obra. A sequência de Zack e Miri tentando criar títulos "levemente sugestivos que parodiam filmes famosos" é sensacional, e mostra a criatividade de Kevin Smith. Outro ponto alto é o impagável diálogo entre Zack e Brandon St. Randy (Justin Long), esse último fazendo uma voz de barítono engraçadíssima.

Obviamente, as coisas vão se desenrolando e, depois de uma hora de filme, Smith resolve falar de "amor e beijos" e isso torna o filme um pouco lento no final, mas nada que o prejudique seriamente. É apenas algo que Smith poderia ter evitado mas, se tivesse feito isso, seu novo filme seria apenas mais um para acompanhar Clerks. 

Está claro que Smith quer abocanhar um novo eleitorado para suas obras mas esse filme ainda é próximo demais de suas outras obras famosas como Clekrs e Mallrats para ele ter quebrado o paradigma. Há piadas excelentes, inclusive a melhor piada escatológica que já vi (se é que isso existe) mas isso não basta. Parece que Smith não consegue desobedecer as próprias regras cinematográficas que ele criou para si.

Diverte muito, especialmente na primeira hora mas o filme é mais recomendado para quem já está predisposto a gostar de filmes Smith.

Nota: 6,5 de 10

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O que um pai não faz...

Consegui atrasar o máximo possível o que sabia que seria inevitável: assistir High School Musical 3: Senior Year. Já vi as partes 1 e 2 algumas dezenas de vezes (tenho duas filhas) e estava viajando quando HSM3 passou nos cinemas por aqui. Que pena...

No entanto, forças mais poderosas que eu me fizeram assistir a terceira parte dessa "trilogia" (???) e posso dizer que o filme cumpre seu papel: traz músicas cativantes, uma rapaziada bonita, números de dança razoáveis e uma estória sentimental batida sobre decidir seu próprio futuro mas que atinge diretamente os adolescentes.

Não dá para dizer que é um filme ruim. Apenas não é um filme para adultos. Tem alguns momentos engraçadinhos com a divertida Sharpay (Ashley Tislade), a personagem "malvada" da série, e número músicais bem energéticos. 

A estória? Bem, ela é inexistente. O filme conta as últimas semanas dos alunos formando do colégio East High, suas esperanças, seus futuros, seus amores e coisas do gênero. É filme feito para agradar em cheio seu público alvo mas que tem o mérito de não torrar completamente a paciência dos adultos que eventualmente tenham que acompanhar suas crianças ao cinema (e, depois, assistir ao DVD ao menos umas 15 vezes). 

A direção é burocrática ao extremo, sem nenhuma tentativa de se criar um filme de arte. É quase um filme de televisão feito para o cinema (e é mesmo, em última análise). Teria sido um pouco melhor se houvesse algum conflito, algum embate entre protagonistas e antagonistas. No entanto, para ser o mais politicamente correto possível, a Disney converteu a vilã Sharpay dos outros dois filmes em uma menina "pentelha" apenas, um ante-projeto daquilo que poderia ter sido. Outro ponto fraco do filme é a tal Grabriella Montez (Vanessa Hudgens), a paixão de Troy Bolton. Ela nunca foi nada especial nos outros filmes e, nesse, está completamente sem sal. Mas há uma explicação clara: o foco do filme é em Troy Bolton (Zac Efron) que efetivamente é o grande atrativo para as meninas a quem o filme se destina. Mas o garoto até que não é mal atuando e, se não pisar na bola, pode ter uma carreira razoável pela frente, longe de musicais tolinhos.

Nota: 5 de 10   

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Club du Film - Ano IV - Semana 06: Jaws (Tubarão)


Há três anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como Club du Film. Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São, novamente, mais 100 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo (com pseudônimos, claro).

Filme: Jaws

Diretor: Steven Spielberg

Ano de lançamento: 1975

Data em que assistimos: 03.02.2009

Crítica: Muitos filmes têm trilhas sonoras sensacionais. John Williams mesmo, um dos maiores compositores para cinema e autor da trilha de Jaws, é também autor de trilhas memoráveis como as de Star Wars, Indiana Jones, E.T., Jurassic Park, Superman e tantas outras.

No entanto, Jaws é o único filme que tem uma trilha sonora que É o filme. Nenhuma outra obra cinematográfica pode verdadeiramente se gabar de sua trilha dessa forma. Só para usar os exemplos que dei, a trilha de Star Wars é sensacional mas associamos à ela o sabre de luz, a máscara de Darth Vader, os Jedis, a Estrela da Morte e outros elementos iconográficos do filme. O mesmo acontece com Indiana Jones, em que o chapéu e o chicote são símbolos do herói. E.T. tem o E.T., Jurassic Park os dinossauros e Superman, obviamente, o personagem título.

A trilha de Jaws, porém, é o tubarão. Foi notória a dificuldade de Spielberg para fazer funcionar um tubarão mecânico no set de filmagens e isso o forçou a diminuir a presença física do bichão, que basicamente só aparece no fim. No entanto, com a trilha, o gigantesco tubarão branco assassino está presente o tempo todo, mais até do que se aparecesse. Só para fins de comparação, vejam Deep Blue Sea com seus tubarões de computação gráfica e comparem-no à Jaws. Não estou dizendo que o primeiro não é bom mas apenas que os tubarões são banalizados ao extremo, não deixando espaço para a tensão que é trazida pela imaginação atiçada pela trilha de John Williams.

Pode parecer um demérito um filme ser lembrado apenas por sua trilha sonora mas não foi bem isso que disse. Spielberg demonstrou, em seu segundo filme para cinema (o primeiro foi Sugarland Express) que já tinha o domínio total da câmera. Seus "travelings" submarinos são sensacionais e a tensão que ele consegue criar ao focar na paranóia de Roy Scheider (Martin Brody, o chefe de polícia da pacata cidade de veraneio Amity), no fanatismo de Robert Shaw (o pescador destemido Quint, que adora passar as unhas em quadros negros) e na nerdice de Richard Dreyfuss (o cientista Matt Hooper) é além do sensacional. É difícil lembrar um filme moderno, que não seja de ação e lutas ininterruptas, que deixa a platéia tão desesperada quanto Jaws.

Spielberg, em 1975, ainda não tinha nome. Com esse filme, ele não só fez uma obra-prima do suspense como, também, criou o termo "blockbuster" (foi o primeiro) e mudou a estória do cinema. Nada mal para um cara que tinha 29 anos... 

Notas:

Minha: 10 de 10
Barada: 9 de 10 
Nikto: 8,5 de 10  

Club du Film - Ano IV - Semana 05: Goldfinger (007 Contra Goldfinger)


Há três anos, no dia 28 de dezembro de 2005, eu e alguns amigos decidimos assistir, semanalmente, grandes clássicos do cinema mundial. Esse encontro ficou jocosamente conhecido como Club du Film. Como guia, buscamos o livro The Great Movies do famoso crítico de cinema norte-americano Roger Ebert, editado em 2003. Começamos com Raging Bull e acabamos de assistir a todos os filmes listados no livro (uns 117 no total) no dia 18.12.2008. Em 29.12.2008, iniciamos a lista contida no livro The Great Movies II do mesmo autor, editado em 2006. São, novamente, mais 100 filmes. Dessa vez, porém, tentarei fazer um post para cada filme que assistirmos, com meus comentários e notas de cada membro do grupo (com pseudônimos, claro).

Filme: Goldfinger

Diretor: Guy Hamilton

Ano de lançamento: 1964

Data em que assistimos: 28.01.2009

Crítica: Terceiro na série de 007, o espião mais famoso do mundo, Goldfinger é uma obra prima do gênero. Tem ação, aventura, machismo, vilões e piadas em quantidade e tons certos, em um filme cuja narrativa é tão "fora-desse-mundo" que ela nem interessa muito.

Auric Goldfinger é um daqueles típicos super-viões que os filmes de 007 consagraram, mas que já haviam sido consagrados em estórias em quadrinhos de super-heróis. É milionário, megalomaníaco e quer porque quer - sem nenhuma necessidade palpável ou plaúsivel - "dominar o mundo". É o estereótipo do vilão louco, na linha do que Lex Luthor para o Superman na era na Era de Ouro dos quadrinhos. É claro, cabe ao nosso infalível espião britânico, James Bond, sair ao encalço dessa ameaça, portando seus "gadgets", seu charme e seus ternos e smokings. 

E chega de trama pois, como disse, ela não é importante. O que interessa é que:

1. Goldfinger tem como guarda-costas o surreal asiático Odjob, que porta um chapéu coco preto com aba de lâmina de metal, que ele usa para arremessar em seus inimigos, cortando até estátuas de mármore no processo;

2. Goldfinger contratou um time inteiro de mulheres piloto (todas lindas, claro) para executar o ultrajante roubo do Fort Knox e que essas mulheres são comandadas pela surrealmente batizada Pussy Galore, que, obviamente, acaba na cama (e no monte de feno) de James Bond;

3. Pussy Galore e Bond se apresentam com o melhor diálogo para esse fim escrito para cinema:

- My name is Pussy Galore.
- I must be dreaming.

4. Goldfinger mata uma mulher cobrindo-a de ouro ao ponto em que seus poros param de respirar (cena essa homenageada no recente Quantum of Solace, com a troca do ouro amarelo pelo ouro negro);

5. Goldfinger explica todo seu plano maquiavélico a Bond enquanto o espião está preso à uma mesa e um raio laser vai vagarosamente cortando a superfície e ameaçando sua vida (mas, claro, dando tempo suficiente para ele escapar);

6. James Bond usa - e destrói, claro - seu sensacional Aston Martin, equipado com um utilíssimo assento ejetor;

7. A música tema - Goldfinger - composta e interpretada por Shirley Bassey, é a melhor música de abertura de filmes de 007 e quiçá uma das 10 melhores músicas cantadas compostas para trilha de filmes.

Tudo isso somado à atuação de Sean Connery que sempre foi e continua sendo o melhor James Bond, torna o filme inesquecível e uma imperdível obra-prima "camp". Sei que a "nova geração" exige um Bond ao seu estilo mas eu fico com o clássico. Não tem comparação.

Notas: 

Minha: 10 de 10
Klaatu: 10 de 10
Barada: 8 de 10
Nikto: 7,5 de 10